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domingo, 8 de agosto de 2010

Alfarrabistas da Baixa do Porto


"Em busca das raridades perdidas no Porto


Na baixa do Porto há alfarrabistas para todos os gostos e carteiras: livros dos 25 cêntimos aos 25 mil euros, da relíquia quinhentista ao Tintim

Têm obras para todos os gostos e feitios. São cerca de 30 os livreiros e alfarrabistas (muitos separados por alguns passos) que "paginam" a Baixa do Porto. Se em vez da praia preferir comprar ou vender um livro usado, saia de casa e calcorreie os paralelos. Encontrará livros a 25 e 50 cêntimos e preciosidades de 25 mil euros. Desde forais quinhentistas a Bíblias ilustradas e autobiografias musicais: é entrar e escolher. O i deixa-lhe algumas sugestões.

Académica Abriu em 1912 e guarda perto de 100 mil volumes. Predomina a literatura, mas também encontra obras de história, arte, localidades e genealogia. Em várias línguas. Os preços variam entre os 2,5 euros se quiser saber mais sobre o império dos Mongóis, por exemplo, e os 25 mil euros do Foral de S. João da Pesqueira, entregue por D. Manuel I em 1510. A sugestão do proprietário, Nuno Cadavez, é uma colecção completa (a 15 mil euros) com 56 números da revista "Presença", dos anos 20.

Livros e Coisas O nome deste alfarrabista diz tudo. Aqui vende-se tudo, diz o dono. "Raridades e livros antigos" de todas as áreas, mas também mobiliário, objectos decorativos, gravuras e quadros. O mais raro que passou pelas mãos de João Falcão foi uma primeira edição (1589) de "Diálogos de Dom Frei Amador Arraiz - Bispo de Portalegre". Quem procurar relíquias ainda pode espreitar a primeira edição de um Dicionário de Teologia (1718) de Bergier.

TimTim Por TimTim É fã de banda desenhada? Vá à TimTim Por TimTim e perca-se em mundos aos quadradinhos de todos os géneros. Descubra Tintim, o famoso repórter criado por Hergé, ou outra personagem que povoe o seu imaginário. Atente no menos acessível, como o exemplar de "Le Petit Vingtième", onde surge pela primeira vez "As Aventuras de Tintim", ou ainda a colecção "Grilo", dos anos 50.

Lumière Em plena Travessa de Cedofeita encontra "livros que já não vê nas livrarias de livros novos", comenta Alexandra Ribeiro. Obras de autores portugueses, de história, teatro e poesia. Entre, beba um café, mexa à vontade nas estantes e se quiser sente-se no chão. Note que não há apenas livros neste alfarrabista: repare nos discos de vinil, cadernetas de cromos antigas e BD. Há pechinchas menos procuradas desde "25 e 50 cêntimos", como um "Encontro de Reflexão Política". E raridades como uma "Bíblia Raphaelis" de 1790, toda em gravuras.

Poetria Esta livraria reúne nomes grandes da poesia e do teatro. Obras teatrais levam-nos a Brecht, Beckett, Nelson Rodrigues e Jacinto Lucas Pires. Já Fernando Pessoa, António Nobre, Camões e Teixeira de Pascoaes oferecem poemas. A especialização surge como "contraponto à globalização", explica a proprietária Dina Silva. Neste espaço ainda há obras "difíceis de encontrar", como "Dos Líquidos", de Daniel Faria.

Livraria Vieira Ao passar na Rua das Oliveiras é capaz de se aperceber de um caixote à porta deste alfarrabista, sempre repleto de livros baratos (literatura, arte, história, etc.), desde um euro. Pode levar postais antigos e até jornais (abriu originalmente como tabacaria e livraria). Se gostar dos autores tradicionais escolha um Camilo ou um Eça, mas se preferir letras musicadas pegue em "Take It Like a Man", autobiografia de Boy George. Já que está na Praça Carlos Alberto, aproveite e visite a Livraria Lello, que tem barbas mais compridas que muitos alfarrabistas. Inaugurou em 1881 e instalou-se na Rua das Carmelitas em 1906. Goza de madeiras imponentes e escadas principescas, embora "o rei seja o cliente", explica Antero Braga. A oferta é "multifacetada", não se vendem só bestsellers. Folheie a edição especial (esgotada) de "Os Lusíadas" ilustrada pelo pintor Gouveia Portuense."

Artigo de Pedro José Barros, in I

terça-feira, 27 de julho de 2010

A arte pode ser uma arma para a reabilitação da Baixa do Porto

" Convidados pela Culturgest, os vienenses do Wochenkausur têm um projecto-piloto para recuperar habitações do centro da cidade.

Quando, em Maio, convidados pela Culturgest para desenvolverem um projecto na cidade, chegaram ao Porto, os austríacos Martina Reuter e Wolfgang Zinggl tinham pesquisado alguma coisa na Internet e traziam algumas ideias sobre o trabalho que podiam levar a cabo. Acabaram por ser surpreendidos pela arquitectura de uma cidade que, porém, se revelava extraordinariamente arruinada, ao abandono. E tomaram a decisão: tentariam fazer alguma coisa que pudesse ajudar a recuperar a enorme quantidade de bonitos prédios vazios do centro da cidade.

O projecto a que o colectivo artístico WochenKlausur meteu ombros tem estado a ser trabalhado desde então e deverá ser publicamente apresentado no próximo sábado, durante uma conferência/debate que terá lugar no espaço da Culturgest da Avenida dos Aliados. Propõe-se encontrar uma forma de recuperar edifícios recorrendo à comunidade universitária da cidade: os estudantes fazem as obras de reabilitação dos imóveis e conquistam, desse modo, o direito de ficarem a residir nas casas recuperadas durante alguns anos, devolvendo-as depois aos proprietários em bom estado de conservação.

Para já, os WochenKlausur seleccionaram um grupo de nove estudantes com capacidades específicas e conseguiram suscitar, pelo menos, a atenção da Câmara do Porto para o projecto. A autarquia indicou um imóvel municipal da Rua de António Cândido, os austríacos já viram o prédio por fora e devem hoje poder ver o interior - o acesso está tapado por blocos de cimento -, para decidirem os passos seguintes. Ou a casa serve para o efeito pretendido, ou será preciso procurar outra.

Depois, será ainda preciso mobilizar apoios de empresas que possam facultar os materiais necessários à intervenção e acertar com a autarquia os detalhes do contrato a estabelecer. "Mas queremos ter tudo definido até ao final do mês", disse ao PÚBLICO Wolfgang Zinggl, segundo o qual, dos 29 projectos já levados a cabo pelo colectivo (ver caixa), só dois não foram concretizados.

"Acreditamos que a arte pode ser usada para resolver problemas concretos. No Porto, notámos que a deterioração dos edifícios é um problema importante e é uma pena. A desertificação dos centros urbanos existe em muitos sítios, mas é raro suceder em cidades tão interessantes do ponto de vista arquitectónico", explica Zinggl. "Quisemos, por isso, tentar encontrar um modelo que ajude a resolver este problema", acrescentou.

Os austríacos acreditam que este projecto pode criar raízes e ser, depois, testado e alargado a outras pessoas, que não sejam estudantes mas estejam disponíveis para recuperar casas, municipais ou privadas, recebendo, em troca, o direito de lá ficarem a morar durante alguns anos. "O modelo até pode ser exportado para outras cidades", diz Wolfgang Zinggl, que considera "uma pena" o estado em que alguns edifícios se encontram. "Faz muita impressão."

Para além de conseguirem uma casa para executar o projecto e de reunirem patrocínios para a intervenção, os WochenKlausur propõem-se ainda providenciar apoio de engenharia e arquitectura, caso venha a ser necessário. "Ainda não vimos a casa que nos foi indicada por dentro. Pode estar demasiado degradada. Os estudantes podem não ser capazes", explicou Zinggl."

Artigo de Jorge Marmelo, in Público

quinta-feira, 11 de março de 2010

Variação de Cultura

"Cerca de 750 espectadores assistiram durante Fevereiro às 15 representações que o grupo Variação da Cultura promoveu na Sala - Estúdio Latino do Teatro Sá da Bandeira, no Porto. Ricardo Alves, da companhia Palmilha Dentada, admitiu à Lusa, no entanto, que o balanço de primeiro mês de actividade da Variação da Cultura, da qual foi também fundador, ficou aquém do desejado. "Esperávamos mais público, o número de espectadores foi baixo", disse.

Cerca de 15 companhias e criadores da área de teatro, dança e cinema, do Porto, juntaram-se para resolver o problema da falta de "política cultural municipal", criando o movimento Variação da Cultura. Este colectivo fez uma parceria para ocupar a sala-estúdio, onde está presente desde 11 de Fevereiro.

A ideia é apresentar uma programação "continuada e diversificada". Contudo, no primeiro mês de actividade apenas esteve em cena A Norma, do grupo de teatro Palmilha Dentada. Ricardo Alves afirmou que só desde o início de Março é que a programação passou a ser diversificada, arrancando, assim, o conceito da Variação da Cultura.

A sala acolhe desde ontem e até domingo Bórgia, um espectáculo da Esquiva Companhia de Dança. As terças-feiras estão reservadas ao cinema. A partir de 17 estará em cena, de quarta a domingo, O Escadote, da Tenda de Saias, companhia de teatro residente na Fábrica da Rua da Alegria. Está também já pro- gramada a apresentação de Não, de Hélder Guimarães, a partir de 24. A programação inclui, também, as reposições de Noites Brancas, da companhia Chão Concreto e de Confissões de um Carrasco Na Hora de ir para a Cama, do Mau Artista."

in Público

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

Criadores querem fazer do Sá da Bandeira a sede da resistência cultural do Porto


"Espectáculos bidiários de teatro, dança e cinema vão combater "problema da falta de política cultural" da cidade. Projecto não tem apoios do Ministério da Cultura. Nem da autarquia


Vão ser dois espectáculos por dia para combater as "carências culturais da cidade" e responder à "falta de espaços para acolher projectos em início de carreira". O projecto Variação da Cultura - que junta cerca de 15 companhias e criadores das áreas do teatro, dança e cinema - alugou a sala-estúdio Latino, no Teatro Sá da Bandeira, e vai apresentar uma programação "continuada e diversificada", já a partir de quinta-feira, explicou Ricardo Alves, da companhia de teatro Palmilha Dentada, um dos mentores da ideia.

"Acreditamos que, mesmo em cenário de crise, é possível dar saltos em frente e criar sinergias capazes de melhorar o cenário cultural que temos", desenvolveu Ricardo Alves.

Para já, o aluguer do espaço é feito por seis meses, mas a expectativa é que seja possível continuar em Setembro.

Ainda o Rivoli

A falta de um local com capacidade para acolher jovens em início de carreira é "inadmissível" numa cidade com quatro escolas de teatro, criticou Ricardo Alves. "Queremos ter uma sala capaz de receber grupos de fora da cidade, que ocupe o espaço que o encerramento do Rivoli deixou".

Este projecto foi estruturado para sobreviver sem apoios: vive do trabalho e da boa vontade de um conjunto de criadores que querem transformar o Sá da Bandeira no bastião da resistência ao deserto cultural em que vêem o Porto transformado nos últimos anos.

A câmara e o Ministério da Cultura ficaram fora do projecto, facto que não parece criar surpresa entre os mentores da iniciativa. "O pelouro da Cultura [da Câmara do Porto] demitiu-se das funções que deve ter há algum tempo", acusou Ricardo Alves, que admitiu nem sequer ter tentado o contacto com a autarquia por esta já ter deixado claro que não apoia financeiramente projectos culturais. As companhias concorreram a um apoio junto do Ministério da Cultura, mas a resposta só deve chegar dentro de alguns meses.

A Casa da Música, o Museu de Serralves e o Teatro Nacional de São João transformaram-se nos "pilares em torno dos quais gira toda a programação cultural do Porto". E isso, apontam os criadores, acaba por "abafar as carências culturais da cidade".

O Variação da Cultura quer contribuir também para a formação cultural dos cidadãos, com um programa que aposta no teatro, em espectáculos infantis - "uma grande carência da cidade", refere Ricardo Alves - e em ciclos de cinema e performances.

A organização acredita que os 87 profissionais do espectáculo e as 15 companhias envolvidos no projecto vão levar ao Sá da Bandeira cerca de 15 mil espectadores nos próximos seis meses, o que corresponde a uma taxa de ocupação da sala de 50 por cento."


Artigo de Mariana Pinto, in Público

sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

Dez anos de Teatro Helena Sá e Costa



Teatro Helena Sá e Costa faz dez anos e acolhe cada vez mais projectos alternativos


A programação da sala para o ano de 2010 já está definida. O Helena Sá e Costa tem vindo a ocupar espaço deixado vago pela maior indisponibilidade do Teatro Municipal Rivoli.

Já são quase dez anos, e não há razões para parar. O Teatro Helena Sá e Costa (THSC), no Porto, comemora em Abril o seu 10.º aniversário, apostando numa linha de "continuidade" em relação àquilo que tem sido. Traduzindo: um espaço de função dupla, acolhendo projectos artísticos do estabelecimento de ensino a que pertence, a Escola Superior de Música e Artes do Espectáculo (ESMAE) do Instituto Politécnico do Porto, e (cada vez mais) propostas de companhias teatrais do país.

Luísa Moreira, directora de produção do THSC, sublinha que, nos últimos anos, o palco tem sido cada vez mais ocupado por companhias confrontadas com a falta de alternativas no Porto. "À medida que a cidade vai perdendo palcos onde seja possível apresentar espectáculos, nomeadamente o Rivoli, surgimos como algo mais visível, mais ecléctico. A quantidade de dossiers e de projectos de teatro que temos recebido é bastante grande. Por cada espectáculo que acolhemos, há dois ou três para as mesmas datas que não podemos receber", diz.

A responsável, desde Março de 2009, pela produção artística do THSC, não tem dúvidas sobre a "desproporção entre a quantidade de produção artística profissional e a pouca quantidade de espaços" disponíveis no Porto, e parece encarar esta realidade como uma oportunidade a não perder. Exemplo? A programação para 2010 inclui, em Março, a Semana de Teatro Físico e Novo Circo (de 18 a 27), uma experiência totalmente nova no Helena Sá e Costa. "Durante mui-tos anos, o Rivoli foi mostrando o novo circo com alguma regularidade, e quando isso deixou de ser possível, não existiu, no Porto (até agora), um palco que mostrasse o que se vai fazendo nessa área. Estamos a tentar avançar com este projecto para dar espaço a estes projectos, a nível nacional", explica.

Propriedade do IPP, o Teatro Helena Sá e Costa acolhe as produções artísticas da ESMAE, nas áreas de música, teatro, dança e vídeo, enquanto acolhe, em simultâneo, companhias teatrais de todo o país. Esta diversida-de de programação permite-lhe ter um público heterogéneo - que passa pelo próprio corpo docente e estudantil da ESMAE, mas também pelo resto da população, que, defende Luísa Moreira, "tem normalmente escolhas bem definidas em termos daquilo que quer ver".

Este ano, as celebrações do 10.º ani-versário prolongam-se até Dezembro, mas é em Abril que estarão mais em destaque. O aniversário deverá ser assinalado com a estreia mundial do concerto Tuba"n Saxe"s Company marcada para o dia 19. Três dias depois, a 22, será tempo de nova cele-bração, com o espectáculo Canto deIntervenção, promovido pela Associação José Afonso e inserido nas comemorações dos 80 anos de nascimento do "cantautor".

O THSC foi construído de raiz, entre 1996 e 1999, no local onde estava um pátio da antiga Escola Normal, seguindo um projecto do arquitecto Filipe Oliveira Dias. Apesar da sua vocação como teatro-escola, mantém as portas abertas à participação de artistas externos e foi um dos palcos a receber parte da programação oficial da Porto 2001 - Capital Europeia da Cultura."


Artigo de Patrícia Carvalho, in Público

sábado, 9 de janeiro de 2010

Casa da Música considerada pelo Times um dos cinco edifícios da década



"A Casa da Música é um dos cinco edifícios mais representativos da década que terminou. A classificação é de um jornal inglês, o Times, e vale o que vale. Mas a verdade é que ninguém pode pôr em causa o efeito que a obra de Rem Koolhas teve na arquitectura da cidade. Para trás ficaram as críticas à morosidade da construção e, sobretudo, às derrapagens do seu orçamento. A Casa da Música impôs-se como ícone da arquitectura da cidade, contaminou tudo o que está em seu redor, e transformou-se num dos pontos obrigatórios de qualquer roteiro do Porto. A programação ominipresente da Casa da Música veio, também ela, colmatar o défice de oferta cultural de uma cidade na qual algumas das suas principais salas entraram num marasmo irresolúvel. Cinco anos depois, o meteorito de Koolhas faz parte da nossa paisagem e dos nossos hábitos, combinando de forma despreconceituosa o clássico e o contemporâneo. O Porto só tem razões para se orgulhar de possuir uma obra numa lista restrita, ao lado de obras de Chipperfield, Moneo, Grimshaw ou Foster e de cidades como Berlim, Los Angeles, a floresta tropical de Cornwall ou Londres. Se hoje podíamos viver sem a Casa da Música? Claro que não!"


in Público

domingo, 15 de novembro de 2009

Produtos do "velho Portugal" enchem novas lojas da Ribeira

"Nos últimos anos, a cidade viu nascer lojas que fazem da "marca Portugal" um trunfo: no artesanato ou nos produtos de uso quotidiano.

O apelo da memória, e a recuperação de marcas que já foram famosas, estimulam a procura de muitos clientesA montra da Mercearia de S. Bento não passa despercebida a muitos dos que passam pela Rua das Flores, no Porto. As sombrinhas de chocolate Avianense e as bolachas Paupério lembram tempos em que produtos como estes faziam parte do dia-a-dia de muitos portugueses, hoje com idades entre os 40 e os 60 anos. Para Rosa Dias, que ficou desempregada em Julho, estes e outros produtos revelaram-se uma oportunidade de negócio.

Rosa montou a loja em pouco mais de um mês. Nos 15 metros quadrados da mercearia, inaugurada em Setembro, convivem produtos alimentares de empresas familiares com tradição em Portugal, chocolates com flores, brinquedos artesanais, almotolias de azeite pintadas à mão, compotas, biscoitos e vinhos. Ou seja: tradição e alguns produtos ditos gourmet.

A receita, com algumas variações, alarga-se a outras lojas que surgiram nos últimos anos no Porto, sobretudo na Ribeira. O crescimento do turismo na cidade ajudou. "Era importante ter uma loja em que o turista pudesse levar um bocadinho de Portugal - nas sardinhas, no vinho", diz Rosa Dias, que estima que metade dos clientes sejam turistas. Mas já há clientes fixos, como é costume numa mercearia.

Os estrangeiros ficam encantados por coisas como as latas de 200 mililitros de Azeite Saloio, "apelativas e muito portuguesas" (as cores lembram a bandeira nacional, há um campino desenhado). Já a maior parte dos portugueses entra na loja por causa do "apelo à memória".

A poucos minutos a pé, na Rua Sousa Viterbo, a Porto Paixão também faz da "marca Portugal" a sua força. Mas reduz o âmbito geográfico ao Porto e ao Norte do país. "Podia ser uma montra turística", diz Carla Miranda, uma das sócias da loja, a sua estreia enquanto comerciante.

Nas prateleiras, detectam-se produtos que a Mercearia de S. Bento também vende, mas também biscoitos de Vinho do Porto da Casa de Juste, Caretos de Podence, artesanato, fotografias, postais e livros sobre o Porto. A pesquisa dos produtos levou dois anos, mas a Porto Paixão também estimula a criação de novos objectos. É o caso de placas em metal da Ramos Pinto, que a empresa de bebidas alcoólicas começou a fabricar a convite da loja.

Carla e os outros sócios criaram o espaço seguindo os seus próprios gostos pessoais. "A ideia foi minha e do meu marido. Era um projecto caseiro. Pensámos: "Gostamos tanto disto [destes produtos]. Porque é que não fazemos uma loja?" Em Setembro do ano passado, abriram a Porto Paixão, que é uma loja, mas não só: "Para muita gente, é um museu. Há quem venha só mostrar aos amigos e aos emigrantes que vêm cá no Verão."

Objectos contemporâneos

Desce-se até à beira-rio e, na Rua Nova da Alfândega, surge uma loja cuidadosamente desenhada. A Corações Habitados, aberta em Agosto de 2008, tem um conceito muito definido: fazer "coabitar o tradicional com o contemporâneo". Para além disso, uma regra apenas: "É tudo português", diz a proprietária, Isabel Dores, que sentiu que faltava à Ribeira oferta de produtos artesanais e decorativos mais contemporâneos. Lenços dos namorados, Caretos de Lazarim e uma alminha de Mistério convivem com azulejos do projecto Ratton, que cruza azulejaria com artes plásticas, e joalharia de autor de Liliana Guerreiro. Todos eles são, no fim de contas, "objectos portugueses contemporâneos", o slogan da loja.

A ideia surgiu na cabeça de Isabel depois de uma viagem por vários pontos do país em que contactou artesãos locais. Antes de abrir a Corações Habitados, desenhava peças em estanho e prata. "Estava cansada das linhas puras do design industrial", confessa.

O percurso de Isabel Dores explica parte deste fenómeno. Nos anos 1990, dizem os responsáveis pelas lojas, privilegiou-se o design mais frio. Já nesta década, assistiu-se a uma valorização da "marca Portugal", nos produtos de uso quotidiano e no artesanato.

Esta tendência, mas sobretudo o crescimento do fluxo turístico nos últimos anos, sustenta também um negócio como a Portosigns, aberta em Dezembro de 2006. A loja da Rua da Alfândega vive sobretudo dos turistas. E também só vende produtos portugueses, "sempre com a ideia do tradicional transposto para a realidade actual", diz a proprietária, Elvira Basílio.

Para além dos produtos típicos, há objectos próprios, como T-shirts e canecas com fotografias do Porto, gravatas e chapéus de cortiça. A Portosigns distingue-se também por organizar exposições. Em Dezembro, vai mostrar brinquedos tradicionais portugueses, com chapa e madeira - objectos de um tempo em que coisas destas não eram vistas como um perigo para as crianças."


Artigo de Pedro Rios, in Público

domingo, 25 de outubro de 2009

A Vida Portuguesa no Porto


"
Catarina Portas instala no Porto a segunda loja do seu projecto A Vida Portuguesa


Em Novembro, cumpre-se o sonho de dois anos e meio da empresária, que quer repetir o êxito obtido na loja de Lisboa, onde recuperou produtos da nossa memória colectiva

Nas prateleiras com 22 metros de comprimento ainda não há sinais dos produtos tradicionais resgatados ao esquecimento colectivo. Só há pó e trabalhadores num rebuliço. A partir de meados de Novembro, já não será assim: é nessa altura que Catarina Portas prevê abrir a loja A Vida Portuguesa no Porto.

Os azeites Triunfo e Saloio, o Café Brasileira, as Conservas Tricana, os palitos Lusitanos, a pasta dentrífica Couto, os lápis Viarco e as andorinhas Bordalo Pinheiro são algumas das estrelas da loja A Vida Portuguesa de Lisboa. O espaço é presença obrigatória nos roteiros turísticos da capital. Catarina Portas, o rosto responsável pel"A Vida Portuguesa, quer que o mesmo aconteça no Porto.

A empresária sonhava abrir uma loja no Porto "há dois anos e meio". "Calcorreei as ruas da Baixa todas, de Santa Catarina até aqui", recorda, numa conversa no espaço onde funcionará a loja. Há pouco mais de um ano viu o edifício onde a loja vai ficar, na esquina das ruas da Galeria de Paris e das Carmelitas, com vista para a Torre dos Clérigos. "Pensei: "Se eu pudesse escolher mesmo, era este"", conta. O desejo acabou por concretizar-se, depois de meses de negociações.

O espaço comercial ocupará o primeiro andar do prédio da Fernandes, Mattos & Ca, que tem uma loja no rés-do-chão. No primeiro e no segundo andar, há ainda vestígios do passado da Fernandes, Mattos, extinto há cerca de duas décadas: dezenas de malas dos caixeiros-viajantes, armários onde se guardavam tecidos, um pequeno manequim. Vão ser aproveitados para a decoração. As obras de renovação do espaço custaram 70 mil euros.

Durante a procura de Catarina Portas, a Baixa, em particular a zona dos Clérigos, encheu-se de espaços de comércio e lazer. "O Porto está num momento excitante", diz. Mas, adverte, "neste tipo de modas pode haver alguns perigos que é concentrarem-se todos numa actividade". "Estão a abrir muitos bares e é mais interessante e sustentado haver uma mistura de comércios. Espero poder ajudar a esse equilíbrio", aponta.

No Porto, Portas terá como sócia a empresa centenária de sabonetes Ach. Brito. "É uma parceria que me entusiasma imenso", confessa. É uma das empresas com as quais trabalha, vendendo produtos tradicionais e preparando-lhe edições exclusivas.

Em Novembro de 2004, Catarina Portas reuniu produtos tradicionais feitos em Portugal que tinham sido alvo de uma investigação jornalística que tinha realizado sobre a vida quotidiana portuguesa a partir dos anos 30. O projecto arrancou no Natal desse ano, ainda sem loja própria, que surgiria em Dezembro do ano seguinte, no Chiado, em Lisboa. A ideia de abrir uma loja no Porto surgiu pouco depois. "O meu pai [o arquitecto Nuno Portas] vive no Porto há 25 anos. Conhecia muito mal o Porto até há cerca de oito anos, quando comecei a vir com muita regularidade e fiz cá amigos. Adoro o Porto", afirma.

A vida de empresária também a aproximou do Porto e do Norte: muitos dos seus fornecedores - como a fábrica de chocolates Arcádia, a Saboaria e Perfumaria Confiança, entretanto comprada pela Ach Brito, e o Limpa Metais Coração - são do Norte. Foi no Porto, aliás, que começou a fazer a investigação jornalística que originou o projecto. "Passava os dias à procura de produtos antigos", recorda."

Artigo de Pedro Rios in Público


segunda-feira, 19 de outubro de 2009

A obra de Marques da Silva II

Estação de S. Bento

Praça de Almeida Garrett

1896-1916

A Estação de S. Bento é a adaptação ao Porto do projecto de fim de curso que Marques da Silva desenhou na Escola de Belas-Artes de Paris, e que expôs depois na Câmara do Porto, logo que regressou. "Ele sabia que o comboio estava a chegar ao Porto e fez o seu projecto à medida das necessidades de uma estação para a cidade", diz André Tavares. No edifício, é visível a influência do mestre de Marques da Silva, Victor Laloux (autor do Quai d"Orsay, em Paris, uma estação ferroviária que é agora um museu). Mas "S. Bento é mais um edifício urbano do que apenas um salão para receber comboios e passageiros", nota Tavares, realçando a importância que a estação, pela sua monumentalidade, tem nesta zona da cidade.


Bairro O Comércio do Porto


Rua Constituição/Serpa Pinto

1899

Para quem conhece as obras mais monumentais de Marques da Silva, não deixa de ser surpreendente ver que ele também abordou o problema da habitação, e também desenhou bairros operários. Um exemplo, que ainda sobrevive mantendo a estrutura original essencial, é o conjunto de pequenas casas implantadas em três ruas na zona da Constituição, numa iniciativa do jornal O Comércio do Porto. A tipologia base é a de quatro habitações geminadas num só volume de quatro frentes, com dois pisos, e rodeado por pequenos jardins, que conseguem "o máximo aproveitamento do espaço e a máxima contenção de custos". O plano original incluiu 14 fogos, que foram construídos entre 1899 e 1904.


Teatro de São João

Praça da Batalha

1909

É, depois de S. Bento, o outro edifício-monumento com que Marques da Silva marcou a Baixa. O arquitecto aproveitou as fundações e parte dos escombros do anterior teatro, que ardera em 1908. "Nota-se bem a ideia de usar uma "peça de arquitectura" para organizar a irregularidade urbana da Praça da Batalha. O teatro dá-lhe coerência", diz André Tavares. E chama a atenção para os elementos decorativos da fachada e para a solução das portas e das janelas do primeiro piso, com amplos arcos em vidro a emoldurar as janelas instaladas dentro deles. No interior, segue o desenho clássico do teatro à italiana, com a organização dos espaços - os átrios, as escadas e o salão nobre - à francesa, seguindo o modelo da Ópera de Paris.


Casa-atelier

Praça do Marquês de Pombal

1909

Construída num terreno ao lado da casa do seu sogro José Lopes Martins, a casa de Marques da Silva mistura criteriosamente as funções de residência e de atelier, tendo o cuidado de, ao mesmo tempo, as separar e fazer comunicar. A fachada para o Marquês mostra "o entusiasmo decorativo", bebido na estética do românico, com que o arquitecto sempre pontuava as obras. A sala de estar denota o mesmo cuidado decorativo, tanto na projecção da sua bow window como nas formas do fogão de sala ou na escada. O arquitecto fez também intervenções importantes na casa do sogro. Actualmente, ambas as propriedades pertencem à Fundação Instituto Marques da Silva, estando a ser objecto de restauro.


Escola Alexandre Herculano

Avenida de Camilo

1914-1931

Tanto esta escola como a Rodrigues de Freitas (1918-1932) são obras com que Marques da Silva se envolveu no plano de expansão da cidade e de gestão do crescimento urbano. Qualquer delas tem uma relação estreita com o lugar: a Avenida Camilo, no caso da Alexandre Herculano; a Praça Pedro Nunes, na segunda. Trata-se de dois liceus da República, que respondem ao ideário de instrução do povo, e, arquitectonicamente, seguem "a lógica funcional pragmática" que estava em voga na Europa, diz André Tavares. São edifícios com grande amplitude espacial na disposição ortogonal dos diferentes volumes funcionais. E estão ambos marcados por uma decoração reduzida ao elementar, mas muito eficaz.


Seguros A Nacional

Avenida dos Aliados

1919

A Avenida dos Aliados, aberta na segunda década do século após a demolição da antiga câmara, é demarcada a sul por dois edifícios monumentais encimados por duas torres-escultura. São ambos de Marques da Silva, que assim deixou também a sua assinatura na "sala de visitas" da cidade. O do lado esquerdo é a sede de uma seguradora, e é marcado por uma pujante docoração Beaux-Arts. São dois edifícios que aproveitam as virtualidades da nova tecnologia construtiva do betão armado que permitia apostar nesta filigrana decorativa. O interior também é muito cuidado, e este contém ainda um hall-galeria comercial (cafetaria, barbearia...) que fazia o espaço urbano entrar pelo edifício dentro. É "a arquitectura como obra total", diz André Tavares.


Jazigo de José Lopes Martins

Cemitério da Lapa

1921

A arquitectura religiosa e funerária foi também cultivada por Marques da Silva, que desenhou as igrejas de S. Torcato e da Penha, em Guimarães. Paralelamente, sempre se interessou pela arquitectura funerária. Em Paris visitou certamente os cemitérios, e em particular o de Père Lachaise, de onde, diz o especialista na sua obra, António Cardoso, trouxe a inspiração "para capelas de inumação ostentatória e gosto românico". Uma dessas capelas é a estrutura central do jazigo que fez para o seu sogro, na Lapa, e que se completa com uma sepultura do outro lado do passeio, criando um território onde cabem ainda dois bancos de pedra. "É trazer a lógica urbana da cidade dos vivos para a cidade dos mortos", diz Tavares.


Casa de Serralves

Rua de Serralves

1925-1943

É uma das últimas obras a que Marques da Silva tem o nome ligado, já que só no início dos anos 40 é que foi terminada a Casa de Serralves, para a qual o arquitecto fizera, a pedido do proprietário, o Conde de Vizela, um primeiro projecto de ampliação da velha moradia da família. Sabe-se agora que Serralves resultou da contribuição de múltiplos arquitectos e decoradores franceses, de Jacques Émile Ruhlmann a Charles Siclis, Jacques Gréber e Alfred Porteneuve. Mas Marques da Silva, que era uma espécie de "arquitecto de família", acompanhou a obra até ao fim, sendo, de algum modo, o responsável pela síntese coerente com ar de "modernismo temperado", diz André Tavares.

Artigo de Sérgio C. Andrade in Público

domingo, 18 de outubro de 2009

A obra de Marques da Silva


" O arquitecto dos edifícios-monumento

Teve tanta importância na configuração urbana do Porto no início do séc. XX como Nasoni no séc. XVIII. Viagem à arquitectura do autor da Estação de S. Bento, guiada por André Tavares

Se há um arquitecto que modelou a face do Porto no início do século passado, em particular a Baixa e as zonas de expansão da cidade após o rasgar da Avenida dos Aliados, ele é José Marques da Silva (1869-1947). Associamos a sua assinatura ao desenho da Estação de S. Bento e do Teatro São João, das sedes da seguradora A Nacional e do banco Pinto Leite, nos Aliados, dos edifícios dos Armazéns Nascimento e Conde de Vizela, entre as ruas de Santa Catarina e das Carmelitas. Mas menos conhecido é que lhe coube também projectar os liceus Alexandre Herculano e Rodrigues de Freitas, o bairro operárioO Comércio do Porto, na Constituição, e a Casa de Serralves ou, menos ainda, monumentos, igrejas e jazigos de famílias nos cemitérios da Lapa e de Agramonte.

O arquitecto e professor André Tavares compara a importância da obra de Marques da Silva no Porto nesta época com a que Nicolau Nasoni fez no período barroco. "Ele foi o protagonista da transformação da cidade, ao lado de Correia da Silva (1880-?), o arquitecto do Mercado do Bolhão e dos novos Paços do Concelho), e de Oliveira Ferreira (1884-1957), autor do edifício dos Fenianos do Porto e dos Paços do Concelho de Vila Nova de Gaia, por exemplo)", diz. E acrescenta que a intervenção de Marques da Silva na cidade vai bastante além das dezenas de obras que aqui projectou, prolongando-se também na arquitectura de muitos dos seus alunos na Escola de Belas-Artes (de que foi inclusivamente director em dois períodos, entre 1913-1929).

André Tavares, autor do livro Os Fantasmas de Serralves(Dafne Editora, 2007), é o responsável pelos conteúdos do mapa que a Secção Regional do Norte da Ordem dos Arquitectos (OA/SRN), a Fundação Marques da Silva e a Câmara Municipal do Porto acabam de lançar dedicado a José Marques da Silva, que está a ser divulgado com um programa de visitas guiadas que começou ontem.

O roteiro identifica 24 edifícios dentro do perímetro da cidade, mas a relevância da arquitectura de Marques da Silva não se esgota no Porto. "Seria preciso acrescentar-lhe, entre outros, os principais projectos de Guimarães - o mercado municipal (actualmente em risco de demolição), o edifício da Sociedade Martins Sarmento e a Igreja da Penha - para termos uma ideia mais completa sobre a sua obra", diz André Tavares.

José Marques da Silva nasceu no Porto e diplomou-se na Academia das Belas-Artes, ente 1882-89. Neste ano, vai para Paris frequentar a École National des Beaux-Arts, onde é aluno do mestre Victor Laloux (1850-1937) e onde, em 1896, conquista o ambicionado DPLG (um arquitecto "diplômé par le gouvernement" pode exercer profissionalmente a profissão, sem ter de passar pelo crivo das ordens profissionais).

Tradição e racionalismo

Na capital francesa, Marques da Silva absorve "uma cultura académica que alia os valores da tradição clássica com o racionalismo e esquemas de compromisso funcional mais adaptados à mecânica da vida moderna", escreve André Tavares na apresentação do mapa. Tratou-se, afinal, do aperfeiçoamento da formação que levava da escola do Porto, que bebia já da mesma tradição francófona.

No regresso à cidade natal, Marques da Silva vai logo poder aplicar o seu projecto de fim de curso na construção da Estação de S. Bento, para acolher o comboio que então acabava de chegar ao Porto. Com o tempo e o seu trabalho continuado, torna-se num dos arquitectos mais influentes, tanto junto do poder municipal como dos empresários (na altura dizia-se "capitalistas") e famílias que a ele recorrem para o projecto das suas casas e edifícios-sede.

André Tavares assinala "o papel muito interveniente" que Marques da Silva desempenhou na discussão técnica do projecto para a Avenida dos Aliados entregue ao arquitecto e urbanista inglês Richard Barry Parker (1867-1947), ligado ao movimento Arts and Crafts, e com o qual a Câmara queria afirmar o Porto como "a" cidade de serviços da Região Norte. "É interessante ver, nessa altura, a associação da racionalidade de construção promovida pelo arquitecto inglês, desenhar a partir da ideia muito óbvia das três janelas em grandes fachadas de vidro sobre uma estrutura toda muito homogénea, como vemos na Rua do Almada, por exemplo, com a intervenção de Marques da Silva e a sua cultura francesa, o seu gosto mais decorativo, com fachadas monumentais de pedra muito trabalhadas e requintadas". Uma influência que iria fazer mais doutrina na configuração futura da Avenida dos Aliados, como depois se pôde ver com edifícios como o do jornalO Comércio do Porto, de Rogério de Azevedo."

Artigo de Sérgio C. Andrade in Público

sábado, 10 de outubro de 2009

Concentração contra a transformação do Teatro Sá da Bandeira em hotel low-cost

"Cerca de 100 pessoas, entre os quais alguns actores de renome nacional, juntaram-se ontem à porta do Teatro Sá da Bandeira para impedir que vire um hotel de luxo. Exigem que a Câmara do Porto compre o espaço e o devolva à cidade.

Joel Branco, Carlos Quintas, José Raposo, Alexandre Falcão e Rita Ribeiro foram os actores que aceitaram ser o rosto de um movimento, criado na Internet, para garantir que o Teatro Sá da Bandeira continue a ser uma sala de espectáculos. "Se se fizesse um referendo à população, de certeza que a resposta seria que o Sá da Bandeira continue a ser teatro", assegurou Alexandre Falcão.

Os promotores do movimento dizem que foram informados pela imobiliária que está a vender o "Sá da Bandeira" por 5,5 milhões de euros de que existe um interessado em adquirir o espaço para o transformar num hotel de luxo. "Foi feita uma proposta à Câmara e esta não se manifestou", denunciou Francisco Alves, do Teatro Plástico, por entre gritos de protesto como "O Porto não é um buraco, queremos salas de espectáculo".

Para evitar que o "Sá da Bandeira" vire um hotel, os manifestantes exigem que a Autarquia classifique o interior do espaço. "Só o exterior está classificado. Por isso, nada impede que seja demolido e que apenas se mantenha a fachada", revelou Francisco Alves. "É ridículo classificar-se só a fachada", acentuou Joel Branco.

O segundo passo seria a compra do teatro pela Câmara. "Devia-se fazer-se o mesmo que se fez no Coliseu, que é um caso de sucesso", vincou Francisco Alves, convencido de que o Sá da Bandeira "é mais importante, do ponto de vista histórico, do que o Coliseu".

"A Câmara devia tomar conta do espaço e devolvê-lo à cidade", concordou Rita Ribeiro. "O Sá da Bandeira é a história do teatro do Porto", justificou Carlos Quintas, acusando: "Temos aqui, a uma escala mais pequena, um novo Parque Mayer". Daí que José Raposo tenha sido peremptório em defender que o teatro seja preservado."

in JN


P.S. - Já há uns meses tinha falado neste assunto e parece que finalmente se começa a acordar para esta triste história.
Pena é, que por distracção minha ou omissão da parte deles, não ouvi uma palavra dos vários candidatos à autarquia sobre tal atentado.

segunda-feira, 21 de setembro de 2009

Uma boa/razoável/má notícia para a cidade...Águia d'Ouro em "recuperação"



"A limpeza do interior do velho cinema começou esta semana e as obras devem iniciar-se no próximo mês. A abertura do hotel low cost foi adiada do final do ano para o Verão de 2010.

Os trabalhos já começaram no antigo Cinema Águia d'Ouro, no Porto. Com o atraso de quase um ano, em relação ao que fora previsto pela empresa Endutex, o projecto de arquitectura para transformar o edifício do século XIX num hotel low cost foi aprovado pela Câmara do Porto apenas em Maio. A limpeza no interior está a decorrer.
O estado de degradação do Águia d'Ouro não está a facilitar os trabalhos de limpeza, mas André Oliveira, da empresa que comprou o cinema ao Grupo Solverde, espera ter esta fase do processo concluída até ao próximo dia 16 de Outubro. Depois, seguir-se-ão as obras de construção. "Estamos na fase de concurso da empreitada e contamos iniciar os trabalhos a 26 de Outubro e terminá-los em Junho de 2010", diz. A abertura do hotel low cost, do grupo francês B&B, chegou a estar agendada para o último trimestre deste ano.
O conceito do grupo francês B&B é oferecer hotéis low cost "com design e qualidade", explica André Oliveira. A unidade do Porto, que será também a primeira do grupo internacional no país, deverá contar com 125 quartos e 25 lugares de estacionamento. A localização foi o factor primordial para a escolha do Águia d'Ouro. "O facto de ser um edifício extremamente central permite aos seus utilizadores estarem a poucos metros de casas de espectáculos, transportes públicos, zonas comerciais e de lazer e restaurantes", enumera o responsável da Endutex.
A fachada do antigo cinema portuense deverá ser reabilitada e mantida na íntegra, e apesar de ganhar uma nova funcionalidade, o Águia d'Ouro vai continuar a oferecer, no interior, alguma memória do seu passado. "Queremos preservar o tema cinema na decoração dos quartos e das zonas comuns, pelo que alguns elementos serão reaproveitados na decoração do hotel", diz André Oliveira, explicando que esta é uma forma de, "para além da arquitectura, se preservar também a história do edifício".
Quem visitar o hotel Águia d'Ouro poderá, assim, encontrar uma placa em mármore com o nome da actriz que foi uma das protagonistas de Hamlet, em 1913 (Ângela Pinto), ou um antigo suporte de partituras musicais, a lembrar os tempos do cinema mudo.
Os serviços de limpeza estão a ser acompanhados por um grupo de arqueólogos, responsável por um levantamento fotográfico de todo o interior do edifício. As peças que não possam ser reutilizadas no hotel serão catalogados e armazenados.

Pátio interior

André Oliveira revela que o novo hotel vai ter também um pátio central "com uma zona verde", que servirá como uma extensão da área dos pequenos-almoços. O investimento previsto de 6,7 milhões de euros inclui algumas preocupações ecológicas, como a instalação de painéis solares e de equipamentos de climatização e aquecimento de águas de alto rendimento. Está ainda prevista a possibilidade de armazenamento da água da chuva para servir como rega dos espaços verdes do hotel.
O Águia d'Ouro abriu em 1839, como café, com acesso a um teatro no interior. Foi, contudo, como cinema que acabaria por se tornar mais famoso, antes de entrar em declínio e fechar, na década de 80. Em 1989 o edifício foi vendido ao grupo Solverde, que pretendia transformá-lo numa sala de bingo. A autorização da Câmara do Porto, contudo, nunca chegaria, e a Solverde colocou o edifício à venda, em 2006, por três milhões de euros."

Artigo de Patrícia Carvalho, in Público

quarta-feira, 2 de setembro de 2009

Festival de Artes do Palco - Eclipe Total

"O "encontro de sensibilidades" proporcionado pelo Eclipse Total - festival de artes do palco - já chegou ao Porto. Até 15 de Setembro, vários locais da cidade vão ser transformados em espaços intensivos de criação, formação e apresentação de trabalhos e performances preparadas por uma vasta equipa de criadores e produtores da associação cultural Eclipse Arte.
O Teatro da Vilarinha, o Parque da Cidade, a Estação de São Bento, as praças da Batalha e da Ribeira, as praias de Matosinhos e a Serra do Pilar, em Gaia, são os cenários eleitos para esta sexta edição do festival de artes performativas que, este ano, surge com uma novidade: o lançamento da Cine-TV Eclipse, uma plataforma digital que vai acompanhar, em tempo real, o desenrolar do festival.
"Além da Cine-TV, a novidade reside essencialmente nos espectáculos que vão ser apresentados", conta António Rodrigues, director artístico da Eclipse Arte. A peça O Mestre e o Discípulo vai ser, de acordo com António Rodrigues, "um dos pontos altos do festival". Este é uma peça que fecha o ciclo O Coração do Actor que a Eclipse Arte desenvolve desde 2006, tendo como tema central o Actor Santo.
António Rodrigues refere ainda que um dos aspectos positivos do festival é apostar "no lançamento de artistas emergentes", destacando nomes de Júlia Oliveira, que promete, no dia 5, despertar os sentidos do público com uma actuação "cantada e contada", de Giancarlo de Aguiar, responsável pela direcção de um workshop dedicado ao "desenvolvimento dos arquétipos representantes dos atributos humanos" que tem início no dia 8, e de Daniela Andana Ferreira, jovem bailarina que vai apresentar uma performance de dança.
Este 6.º Festival de Artes do Palco tem como lema Cada ser... uma só voz, numa tentativa de mostrar que é possível "agregar diversos artistas numa linguagem harmonizada", seja através da música, do teatro, do cinema ou da dança. "Esta é uma forma de enriquecer o público", esclarece António Rodrigues.
O Eclipse Total vai dar a oportunidade a jovens talentos de participarem no Estágio Internacional de Jovens Actores e Performers, na sequência do qual podem ser integrados na Eclipse Companhia de Arte"

in Público

quarta-feira, 12 de agosto de 2009

terça-feira, 21 de julho de 2009

Labirintho

"Espaço de referência da noite do Porto abre sexta-feira com cara nova e actividades diurnas.
Para além do bar, há agora uma livraria e mais espaços para actividades culturais.

O nome resultou de leituras de Jorge Luis Borges, há já 21 anos. Desde então, o Labirintho tornou-se uma referência da noite do Porto de pendor mais cultural (acolheu sempre exposições e concertos, por exemplo). A partir da próxima sexta-feira, o espaço surgirá remodelado e com novas características. O Labirintho quer agora figurar também nos roteiros de quem usufrui da cidade durante o dia.
O Labirintho já era um bar e é agora também uma livraria dedicada à poesia, teatro, cinema e música. As portas do número 334 da Rua de Nossa Senhora de Fátima, junto à Rotunda da Boavista, passam a abrir às 16h e já não às 22h (a hora de fecho é a mesma: 4h). A partir de Setembro, a componente diurna do Labirintho será reforçada: passará a funcionar a partir das 12h.
"Agora sim é que é o Labirintho concluído", diz José Carlos Tinoco, o proprietário, com 57 anos, arquitecto e uma figura conhecida da noite, rádio e cultura feitas no Porto. Ontem, durante a conversa com o PÚBLICO, as obras ainda decorriam: na livraria, ainda estavam por preencher as sete prateleiras e ultimavam-se pormenores na nova marquise exterior, cercada pelo jardim ("um pouco selvagem - é assim que o quero") que já era uma das marcas registadas do espaço.
Era este o "sonho" que José Carlos Tinoco imaginava há pelo menos 15 anos. O projecto, nascido numa casa de família, "não muda", apenas aprofunda-se e enriquece-se: "é uma extensão das nossas salas de estar. Podemos produzir, dar corpo a algumas ideias, criar polémica". "Sou um noctívago, mas para ler, escrever, estar com as pessoas", esclarece.
A livraria surge como "grande alavanca" do Labirintho, "não pelo volume de negócios, mas pela oferta diversificada e pelo contacto directo com autores, críticos e público" que permitirirá. "Vamos ter muitos livros que não existem no mercado", garante o proprietário, ele próprio um diseur de poesia, que espera ver no Labirintho "um grande espaço de tertúlia".
Pecadillos e monólogos
A contribuir para a filosofia de "sala de estar" haverá petiscos. José Carlos Tinoco baptizou-os de pecadillos, neologismo que funde os espanhóis bocadillos com "pequenos pecados da gula". No entanto, ressalva, o Labirintho "não é um restaurante". A marquise exterior será um espaço privilegiado para provar os "pecadillos, enquanto se assiste a leituras de poesia, lançamentos de livros, conferências, debates ou espectáculos de música.
Outra novidade é o palco "minúsculo" na zona de bar, onde haverá espectáculos de música com formações reduzidas e monólogos. No próximo ano, o Labirintho quer acolher um festival focado nos monólogos, forma de teatro que José Carlos Tinoco considera ter pouco espaço. O Dia Mundial da Poesia de 2010 será celebrado com 24 horas ininterruptas de poesia e música. Para além do novo palco, o bar foi apenas pintado. A galeria de exposições, à entrada do Labirintho, mantém-se e abrirá também portas para ciclos de cinema de autor.
Na próxima sexta-feira, a partir das 16h, inaugura-se a exposição Paisagens do silêncio e uma instalação de Renato Roque. À noite há música a cargo dos 7 Magníficos. Sábado, às 17h, haverá o primeiro lançamento, o do livro Amor, Cittá Aperta, de Danyel Guerra, leituras de poesia e a antestreia do "croniconto" O Trabantáxi de Berlim"

Artigo de Pedro Rios, in Público

quarta-feira, 24 de junho de 2009

Mercado Porto Belo na Praça Carlos Alberto


Uma boa ideia que contribuirá para esta nova dinâmica que vai emergindo na cidade: Mercado Porto Belo, todos os sábados até final de Setembro.

(a história de colar o nome ao mercado londrino era dispensável)


segunda-feira, 8 de junho de 2009

Rua de Santa Catarina

"Do requinte do Magestic à francesinha do bufete Fase numa das ruas mais caras do país

Fomos desde a Praça da Batalha até ao Marquês para descobrir a outra face de uma artéria que só é concorrida durante 500 metros, e que por isso tem alguns segredos a desvendar

Falar na Rua de Santa Catarina
é falar em comércio. Um estudo da consultora imobiliária Cushman & Wakefield/Healey & Baker, relativo a 2005, considerava-a a segunda rua comercial mais cara do país, apenas atrás da Baixa de Lisboa, com o metro quadrado a custar, em média, 756 euros por ano. "É uma rua fantástica, pode--se vender quase tudo. É única na cidade, tem sempre gente, de Verão ou de Inverno", disse ao PÚBLICO Lurdes Caldas, uma das comerciantes autorizadas a manter uma pequena banca móvel, com bugigangas, no passeio. Os lojistas queixam-se da crise e do metro (que estará a desviar pessoas para o eixo Sá da Bandeira-São Bento), mas marcas de referência como a Zara, a Benetton e a Swarovski têm aqui poiso. No caso da cadeia espanhola, esta foi mesmo a sua primeira loja no estrangeiro.
A FNAC é outra âncora da artéria, mas como o objectivo é fazer um roteiro alternativo vamos ignorar o seu conteúdo e tomar o espaço como início de um percurso arquitectónico e artístico. O edifício que a marca ocupa, a meias com a C&A, foi gizado pelo arquitecto Marques da Silva e a fachada permanece conservada. Mais à frente está o inevitável café Majestic, cuja decoração actual reproduz a que existia na abertura, a 21 de Dezembro de 1921. O projecto, do arquitecto João Queirós, tem claras influências de Arte Nova. Aqui se reuniram intelectuais como Teixeira de Pascoaes, José Régio, António Nobre e Leonardo Coimbra. O centro comercial Via Catarina também merece uma menção: durante décadas, a sede d'O Primeiro de Janeiro foi nesse local, mas só a fachada se mantém. Na porta de entrada dos Edifícios UAP/Galeria de França há uma curiosa obra de Júlio Resende, datada de 1975.
A culminar este circuito, chegamos à cooperativa cultural IMERGE, no número 777, já fora da zona mais comercial do arruamento. No piso de entrada avista-se artesanato urbano e produtos de autor, bem como um pequeno espaço de cafetaria, mas esta é apenas a ponta do iceberg. A associação desenvolve oficinas de criação e projectos culturais para entidades externas (em áreas que vão da arquitectura às artes performativas), mas tem como "menina dos olhos" o Regenlab, um laboratório de regeneração urbana baseado em "microacções". O troço da rua onde se insere não é por acaso. "Pensamos que aqui pode ser o fecho do circuito criativo, uma espécie de rectângulo com Passos Manuel, Cândido dos Reis e Miguel Bombarda", explica Susana Milão, uma das fundadoras da IMERGE. Na sequência deste trabalho, já foram ocupados espaços devolutos das redondezas, nomeadamente as montras da antiga casa da Cerâmica Lusitânia. "Poucos sabem, mas é da autoria do arquitecto Cassiano Branco", salienta. Na cave, realizam-se regularmente eventos.

Os segredos

Chegamos ao cruzamento com a Rua de Gonçalo Cristóvão e parece que começa uma nova artéria, menos bonita, com muito menos comércio. Porém, aqui também há que contar. Comecemos pelo bufete Fase. Podíamos dizer que é uma espécie de segredo, mas é, no máximo, um segredo mal guardado: uma grande parte dos apreciadores de francesinhas conhece bem este exíguo espaço, com apenas cinco mesas. Há 25 anos que José Menezes Pinto confecciona a especialidade à vista de todos, mas, segundo diz, ainda ninguém conseguiu imitar o seu molho, cujo segredo é "fazer muito e cozer muito". Por incrível que pareça, o cozinheiro jura a pés juntos que "nunca provou uma francesinha" e que confia no paladar da filha para fazer os acertos na receita. "Não gosto de queijo aquecido", justifica, de forma desarmante.
Na mesma zona, a coroar a multiculturalidade da rua (onde há lojas de chineses e indianos e um cabeleireiro africano) está o bufete Jobel. É um pequeno bar, propriedade de Gastão Carvalheira, português que emigrou para o Brasil com um ano de idade. Por todo o lado há garrafas, e muitas delas são de bebidas importadas do "país irmão", com nomes tão peculiares como Suor da Mulata, Caninha Nabunda ou aguardente Corno Manso. "Ao fim-de-semana, muitos brasileiros radicados cá e mesmo em Espanha juntam-se aqui", conta o proprietário. Outra recomendação vai para a bijutaria de Estrela Leal, uma antiga funcionária bancária que começou a fazer peças há cinco anos, de forma "compulsiva", sem qualquer passado nessa actividade.
Fechamos com um regresso à casa de partida, junto à Praça da Batalha: a Livraria Latina, orgulhosamente "generalista e independente", como garante o proprietário Henrique Perdigão, merece sempre uma visita. Se puder, dê ainda um salto ao salão de chá Império - a cumprir 65 anos - e encha a barriga com os famosos rissóis."

Artigo de João Pedro Barros in Público


segunda-feira, 1 de junho de 2009

Rua da Fonte Tourina


"Está-se bem na Ribeira!


Esta rua fulcral da História do Porto está repleta de restaurantes e de bares, mas não perdeu a autenticidade.

A Rua da Fonte Taurina é uma das mais antigas do Porto, datando pelo menos do século XIII. A fonte que lhe dá o nome já não existe, mas ainda está de pé o Postigo do Carvão, o único das 18 portas e postigos da Muralha Fernandina - construída no século XIV - que ainda resiste, ligando-a ao Cais da Estiva. Por aqui entrava o combustível que ficava guardado nos armazéns do arruamento e isso permite-nos imaginar o movimento que existiria há séculos atrás. Nos dias de hoje, a estreita artéria tem vários bares e restaurantes e é muito vocacionada para turistas. É verdade que há a lamentar o encerramento do Aniki Bóbó (um bar que fez história no meio artístico da cidade, durante 20 anos) e o decréscimo nocturno na Ribeira, mas esta rua ainda é uma referência incontornável. Talvez isso se deva à sua autenticidade: muitos habitantes partiram, mas resistem algumas dezenas que lhe dão um colorido especial. Há lençóis a secar nas varandas, portas escancaradas para o interior das habitações e conversas entre vizinhos e comerciantes que se conhecem há séculos. E a ginjinha e os traçadinhos do Está-se bem permanecem como os mais famosos da cidade.
António Pinto, de 41 anos, nasceu e foi criado em pleno Postigo do Carvão. Tem agora a seu cargo o restaurante Ora Viva, em plena Rua da Fonte Taurina, a poucos metros do local de nascimento. Na memória retém as noites de S. João, em que os habitantes "assavam e ofereciam" sardinhas, ao "rico e ao pobre". A prática, outrora frequente, perdeu-se: "Agora é raro assarem sardinhas à porta", lamenta. Porém, na ementa do Ora Viva não falta a sardinha e outros peixes, como o robalo e a dourada. A cozinha tradicional portuguesa é dominante e por isso não espanta que os pratos de carne mais populares sejam as tripas, o cabrito assado ou os rojões. No interior simples e com paredes em pedra destaca-se a presença de notas dos mais variados países, deixadas por clientes. Entre as mais invulgares, contam-se um dong vietnamita e um dólar de Hong Kong.
Já falámos de autenticidade e por isso não é surpresa constatar que não há grandes alternativas à gastronomia tradicional. Nesse sentido, o Postigo do Carvão é outro restaurante típico que podemos recomendar. O proprietário, Alexandre Osório, diz que é um local de "comida feita para portugueses, mas onde também se recebem estrangeiros". O espaço, construído em pedra e com belos pilares em ferro, já terá pelo menos 400 anos. Da cozinha, visível da sala de jantar, sai um bacalhau com broa muito recomendável, entre outras opções. O preço médio ronda os 15 euros e aos fins-de-semana há música ao vivo.

Traçadinhos e ginjinhas

Um dos estabelecimentos mais carismáticos da rua é o Está-se bem, um pequeno bar/tasca, famoso pelos traçadinhos - já se escreveu que ajudam à "mecânica da mente" - e ginjinhas, a 80 cêntimos. Grande parte deste carisma é transmitido pelo jovial casal que está atrás do balcão, Adriano Ferreira e Maria do Carmo, que mantêm a receita destas especialidades no segredo dos deuses (se bem que a base do traçadinho seja sempre a aguardente). O Está-se bem existe desde 1991, e Adriano Ferreira orgulha-se de muitos relacionamentos terem ali começado: "Houve uma menina da Madeira que começou a namorar cá. Fui o primeiro convidado para o casamento", conta. Aliás, o proprietário admite que "gosta mais" dos jovens do que das pessoas com 50 ou 60 anos. Mas o álcool também tem outros efeitos e o casal lembra-se, por exemplo, de os suíços Young Gods terem ali apanhado uma "bebedeira de bagaço", em meados dos anos 1990.
Há mais sítios na rua onde tomar uns copos. Mesmo ao lado do Está-se bem encontra-se o Ribeira Negra e uns passos à frente está o Porto Feio, propriedade do fotógrafo e pintor Feio, que o define como "uma galeria de arte onde se vai beber". O vinho do Porto é a grande especialidade da casa, aberta às quintas-feiras, sextas e sábados.
Já quase na Praça da Ribeira está O Cais, um bar com ar de pub inglês onde se pode provar uma das melhores sangrias da cidade. Para lá de caipirinhas, mojitos, cervejas Guinness e irish coffees também há petiscos recomendáveis, como fatias de pizza e bola caseira. Merece ainda destaque a Vinhos de Quinta, um espaço da Associação dos Viticultores e Engarrafadores dos Vinhos do Porto e Douro, que reúne pequenos produtores independentes. Aqui, num espaço acolhedor, é possível adquirir ou degustar vinhos a preços de quinta, incluindo reservas e colheitas seleccionadas.
A Rua da Fonte Taurina é um exemplo da beleza do Porto mais sombrio - há quem a considere, por graça, a mais fria da cidade - e tradicional. No dia em que os automóveis deixem de ocupar metade da sua largura, essa condição será ainda mais evidente."

Artigo de João Pedro Barros in Público


Nota: muitas, muitas, muitas noites bem passadas no Está-se Bem!

segunda-feira, 25 de maio de 2009

Rua do Almada


"Passou a moda, mas ficou muita música


A antiga rua do comércio de ferragens renovou-se com o aparecimento de várias lojas alternativas e dedicadas à cultura urbana. Porém, o processo tem sofrido alguma estagnação.

"A Rua do Almada já não é o que era." Eis uma frase que ouvimos aos comerciantes tradicionais, maioritariamente dedicados às ferragens e afins, e aos jovens que aqui abriram negócios alternativos nos últimos anos que coexistem saudavelmente, e em complementaridade com os espaços mais antigos. Obviamente, os lojistas mais recentes proferem aquela frase com um sentido diferente: depois da moda da Rua do Almada ter atingido o auge há três anos, com a abertura de vários espaços, a agitação abrandou. Por exemplo, fechou o Espaço 555, que funcionava primordialmente como galeria de arte e cafetaria. Até a atenção da comunicação social diminuiu. "Houve uma altura em que vinham fazer reportagens quase todos os dias", disse-nos Mariana Faria, da Zona 6, o único local do país onde se pode gravar vinil à unidade, a partir de um suporte digital.
No entanto, o clima não é depressivo, porque ainda acontecem aqui muitas coisas, especialmente no campo da música. Nesta artéria há quatro lojas de discos e dois estabelecimentos (Casa Guimarães e Castanheira) dedicados aos instrumentos musicais, que convertem a rua num centro inevitável para os melómanos e artistas da cidade.
De resto, a Rua do Almada sempre teve um cunho progressista: o seu nome deve-se a João de Almada e Melo, governador do Porto que liderou uma revolução urbanística durante o século XVIII. Após a sua morte, em Outubro de 1786, o seu filho Francisco de Almada tomaria as rédeas, prosseguindo a modernização.
Os Almadas foram responsáveis pelo primeiro arranjo urbanístico e viário da cidade e pela sua expansão para norte, na qual se inseriu a Rua do Almada. A artéria, que surgiu como continuação da anterior Rua das Hortas e começou a ser construída em 1761, é considerada a primeira grande rua aberta fora das muralhas. Tornou-se depois centro de comércio e lugar de habitação de famílias aristocráticas, tendo nela vivido Ana Plácido, a mulher que levou Camilo Castelo Branco à prisão.
No presente, a história da rua também é a história de Miguel Barbosa, que a conhece desde miúdo, quando vinha "comprar ferragens". Muitos anos depois de ter começado a desenhar e construir peças em acrílico, criou aqui o seu atelier e elogia o "espírito de aldeia" reinante entre vizinhos.
Comecemos uma visita guiada no sentido ascendente, da Rua dos Clérigos até à Praça da República. No número 63 está, desde a década de 1940, a fábrica da confeitaria Arcádia. Na sua entrada funciona uma loja onde as amêndoas de várias formas e feitios e as clássicas línguas de gato de chocolate são dois ex-líbris. Mais acima está o supermercado Troika, que vende vários produtos do leste da Europa, desde conservas ate matrioskas, as tradicionais bonecas russas.

O império do vinil

Quase em frente está a loja de discos Louie Louie, que divide o espaço com a Embaixada Lomográfica. Num antigo local de trabalho de ferreiros - onde ainda funciona um carrinho que se move sobre carris, entre as traseiras e a porta da loja -, misturam-se as exposições fotográficas e a música. Os CD usados e em nice price (entre 5 e 10 euros) são a maior aposta, ao lado do vinil, formato em que a Louie Louie disponibiliza as últimas novidades.
O vinil, cuja importância tem vindo a ressurgir, é uma das marcas da artéria. O expoente máximo é a Zona 6, que funciona ainda como loja de discos (focando-se no drum & bass, dubstep e reggae) e de equipamento e acessórios para DJ. A Lost Underground é outra alternativa onde o suporte vinil tem bastante peso. Aqui também se compram e vendem artigos usados, sendo que os géneros mais representados, no âmbito de um catálogo generalista, são o metal, o punk e o rock & roll. Já perto da Praça da República, a Retroparadise tem uma extensa oferta, exclusivamente em vinil, focando-se no soul, funk e jazz dos anos 60 e 70. A principal área de negócio era a roupa em segunda mão, mas agora só é possível visitar o armazém por marcação. Em jeito telegráfico, refira-se a Maria Vai com as Outras (com exposições, eventos, livros e artesanato), a Casa Almada (dedicada a móveis, iluminação e objectos de design dos anos 1950-70, mas também com roupa e acessórios no piso superior) e as francesinhas do Café Pontual, das mais elogiadas da cidade.
Dissemos que não têm aberto muitos estabelecimentos nos últimos tempos, mas há pelo menos uma novidade: a Retrato do Que Vejo, no número 415, tem cerca de quatro meses. Aqui encontra-se artesanato urbano - por exemplo, bonecas de trapo - e vestuário diversificado. Mais uma prova de que há muito para descobrir na artéria é o evento Alma da Rua, que se realizou pela primeira vez no ano passado e que terá nova edição a 20 de Junho. Durante esse dia, as lojas ditas modernas mantêm-se abertas entre as 12h e as 24h, com promoções e actividades culturais."

Artigo de João Pedro Barros in Público