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terça-feira, 5 de maio de 2009

Rua de Mouzinho da Silveira

"A artéria que os turistas percorrem a caminho da Ribeira do Porto


Os visitantes estrangeiros são a principal fonte de animação da rua e é a eles que são dedicadas as várias lojas de artesanato e recordações da zona


Não vale a pena escondê-lo: a Rua de Mouzinho da Silveira é uma sombra do que já foi. Por entre belas fachadas do século XIX, há prédios devolutos e lojas fechadas. Porém, até meados do século XX, este era um dos principais núcleos comerciais do Porto, no tempo em que a actividade comercial estava virada para o rio. Aliás, a sua abertura, em 1875, deveu-se precisamente ao intenso tráfego que se registava entre a zona ribeirinha e o centro da cidade, que tinha como alternativa a paralela (e mais estreita) Rua das Flores. Mais de 80 parcelas de habitações, incluindo algumas de herança medieval, foram demolidas. Para se perceber a dimensão da mudança urbanística, refira-se que foram arrasadas duas capelas, vestígios da antiga muralha fernandina e até pontes. Não parece, mas por baixo da artéria há água a correr: as obras conduziram ao encanamento do rio da Vila, ainda hoje presente na toponímia da zona.

Nos dias de hoje, são os turistas quem mais calcorreia a rua, no inevitável percurso rumo à zona histórica da Ribeira. Por isso, uma parte do comércio adaptou--se às suas necessidades e as lojas de artesanato e pequenas recordações têm vindo a crescer.A Prometeu é a mais interessante: o tecto está coberto de desenhos de flores e todo o espaço evidencia um colorido contagiante.Aqui há artesanato português, especialmente do Alentejo e do Norte do país: presépios, azulejos, porta-retratos, brincos, colares e louça são alguns dos artigos. Em Dezembro, no número 112, abriu a 3Pro, onde há desde t-shirts humorísticas a guardanapos com a face de Barack Obama estampada numa nota de dólar.
Ao longo do século XX, esta rua teve grande importância no abastecimento das áreas rurais circundantes, nomeadamente em termos de sementes e equipamentos agrícolas. A explicação para tal é simples: os lavradores deslocavam-se de comboio até ao Porto, pelo que as imediações da Estação de São Bento eram a localização ideal. Desses tempos, ainda restam estabelecimentos como a Alípio Dias & Irmão, também denominada A Sementeira. É um negócio familiar, que abrange desde árvores de fruto a artigos de jardinagem. Para Victor Dias, um dos sócios, são os conhecimentos dos funcionários que garantem a prosperidade: "A nossa sorte é que nas grandes superfícies ninguém percebe nada disto". A Moysés Cardoso & C.ª é outra casa histórica no ramo da batata de semente e dos produtos fitofarmacêuticos.
Ainda mais antiga (data de 1850) é a Casa das Rolhas, especializada em produtos de cortiça. A Galerias de Vandoma, dedicada à compra e venda, leilão e avaliação de antiguidades está presente na rua desde 1974. Ana Luz, gerente e única pregoeira mulher em Portugal, representa a quarta geração da família no ramo. No meio de tanta história, também há um sector cosmopolita e moderno, já perto da Rua do Infante Dom Henrique, que inclui as lojas Causaefeito, de decoração de interiores, e WESC, Icon e Paula Costa, dedicadas ao vestuário.
O passeio gastronómico na artéria começa no restaurante Arroz de Forno, no número 203, dedicado à cozinha tradicional portuguesa. O ex-líbris é o cabrito - com o obrigatório arroz de forno -, preparado à moda do Alto Douro. Descendo para a Ribeira, segue-se o Solar do Pátio (uma casa restaurada do século XVII), que fica no bem conservado Pátio de São Salvador. A ementa limita-se a quatro pratos: bacalhau espiritual, bacalhau com broa, arroz de pato e rosbife, aquele que merece a nossa recomendação. O ambiente é familiar (cabem no máximo 40 pessoas) e, por vezes, há música ao vivo. Mais abaixo, o Grémio dos Leitões serve os bácoros assados em forno a lenha, entre outros pratos.
O segredo mais bem guardado desta rua é a Capela do Senhor Salvador do Mundo. A sua origem remonta ao final do século XVI, mas a capela passa quase despercebida, devido à arquitectura modesta da fachada. A entrada está habitualmente encerrada e o espaço serve principalmente de capela mortuária à Igreja de São Nicolau.
A atribuição do nome de Mouzinho da Silveira a esta artéria foi uma homenagem da autarquia ao reformador liberal e herói do Cerco do Porto (1832-1833). Agora, a maior batalha a travar é a da reabilitação urbana, e nem por acaso está aqui a sede da sociedade Porto Vivo. Para além da recuperação, em curso, de vários edifícios, também se falou na reintrodução do eléctrico, ligando a linha 1 até à Estação de São Bento. Por ora, é preciso descer até à Igreja de São Francisco para o ver passar."

Artigo de João Pedro Barros in Público

segunda-feira, 27 de abril de 2009

Teatro Sá da Bandeira à venda



Já ando para dissertar sobre isto há algum tempo e não passa de hoje:

Desde há 3 ou 4 meses que o Teatro Sá da Bandeira no Porto, um dos mais antigos da cidade, está à venda. A grande surpresa é que poderá ser vendido para qualquer fim!! Ou seja, pode vir a ser um edifício de escritórios, bloco de apartamentos, hotel...etc e tal...desde que, se mantenha a fachada! Não querendo dizer que a fachada deve vir abaixo, entendo eu que a mesma é o que menos interessa. Tendo em conta o contexto, é mais que óbvio que a fachada deve ser património a proteger, mas mais património ainda será o INTERIOR e aquele magnífico teatro " à italiana".
Na comunicação social pouco tenho lido e visto sobre o assunto, por responsáveis políticos...ZERO...por personalidades da cidade...quase nada. Estou para ver se quando efectivamente for vendido para algum fim que não seja o natural (teatro, cinema, dança), alguém acorde para o absurdo da situação...eventualmente tarde demais, como se a cidade tivesse um excesso de espaços com esta importância
A solução poderia ser bastante "simples": o senhor La Féria desamparava a loja do Rivoli, e o Rivoli voltava a ter a função de teatro municipal, onde o Estado cumpriria a sua função de assumir uma programação abrangente e diversificada, albergando várias formas de artes performativas em vez da programação monotemática, e o La Féria gastava dinheiro do seu bolso, comprando o Sá da Bandeira, requalificando-o, à semelhança do que se passou com o Politeama em Lisboa (bem, a meu ver). Claro que idealmente, dispensava que o La Féria fosse para o Sá da Bandeira, mas antes isso do que a demolição que parece ser uma forte possibilidade.
Já agora, seria interessante saber o que a candidata do PS à Câmara Municipal do Porto tem a dizer sobre o assunto, se é que já pensou sobre ele.
Para concluir, e voltando atrás, como é possível que legalmente haja a possibilidade de mandar abaixo aquele teatro? (ok...a fachada fica...)

segunda-feira, 20 de abril de 2009

Rua da Torrinha

"Há novidades para descobrir por entre as várias lojas de antiguidades

Os jogos da Devir Arena, os bolos do Doce Ritual e a bijutaria da Tempo solto vieram animar uma artéria tradicional do Porto cheia de histórias para contar

A Rua da Torrinha é tipicamente portuense: estreita, algo sombria, até íngreme. Há décadas que é um dos principais pólos de aglutinação de antiquários na cidade: contámos sete lojas do género, a que temos que juntar mais algumas dedicadas ao mobiliário contemporâneo. Por isso, podemos considerá-la a versão portuense da lisboeta Rua de São Bento. No passado, a artéria teve outras actividades: durante o Cerco do Porto (1832-1833), os paços do concelho foram transferidos para o número 35 e nesta zona habitavam grande parte dos "bravos do Mindelo", entre os quais o próprio D. Pedro IV. Aqui também cresceu um dos pólos da industrialização portuense, nomeadamente no sector têxtil: a Fábrica de Asneiros, fundada em 1850, terá sido a mais célebre. No século XVII, há ainda registo de uma praça de touros no arruamento. De acordo com a Toponímia Portuense de Eugénio Andrea da Cunha Freitas, a Rua da Torrinha começou a ser rasgada no princípio do século XIX, em terrenos de um casal com esse nome, mencionado em registos paroquiais a partir de 1625.
Nos dias de hoje, há uma curiosa mistura de novo e velho na artéria. Por exemplo, no número 37 está o tradicional Colégio Liverpool, propriedade da Congregação das Religiosas Missionárias de S. Domingos, cuja existência data de 1937. A Telmo & Diegues, há quase 40 anos no número 148, é um dos estabelecimentos mais curiosos: é uma oficina de reparação de electrodomésticos, especialmente televisões, que tem na montra um velho modelo reduzido ao ecrã e ao cinescópio, plenamente funcional. Aqui tanto se reparam modernos LCD como televisores (e rádios) com mais de 20 ou 30 anos. Poderíamos pensar que ninguém os quereria, mas afinal há muita gente com um carinho especial por velhos aparelhos com história familiar. Se se quiser livrar do seu velho televisor pode deixá-lo aqui, porque pode ter peças úteis a futuras reparações.
Depois, temos as casas dedicadas às antiguidades e velharias, que são, de uma forma geral, generalistas. É que o mercado portuense não permite uma maior generalização e, diz Pedro Santos, da Dickson Antiguidades, "há uma grande desunião" entre os proprietários. "Devíamos ter uma dinamização conjunta, como na Rua Miguel Bombarda", acrescenta. Ainda assim, o número de lojas até tem vindo a crescer nos últimos anos. A Dickson é uma das casas com uma oferta mais cuidada, destacando-se pelas faianças, porcelanas e arte sacra dos séculos XVII, XVIII e XIX, e alargando o seu raio de acção até ao século XX no caso da pintura e das pratas. Os antiquários Caco Velho, Ângelo Neto, Tempos Antigos e Carlos Cunha são alternativas.
Quase no cruzamento com a Rua da Boa Hora está a Vinhático, propriedade do decorador João Madureira, um dos sócios do Café Lusitano, na Rua José Falcão. O mobiliário em estilo vitoriano inglês foi o ponto de partida, mas encontrámos mais mobiliário nórdico, dos anos 50 e 60, na nossa visita à loja. Também há objectos orientais e pintura, que João Madureira usa nos seus trabalhos de decoração. Ao lado, a Casa Leal conta com quase 40 anos de actividade, mas acompanha o espírito do tempo: adopta agora a designação "design and furniture" e vende mobiliário de traços contemporâneos, cujo acabamento é feito numa oficina nas traseiras.
Quanto às novidades: Comecemos pela Devir Arena, uma loja especializada em cartas coleccionáveis, banda desenhada (portuguesa e importada, sobretudo dos Estados Unidos), jogos de tabuleiro e miniaturas. Na cave, há uma sala onde se realizam torneios e partidas informais de jogos como Magic: The Gathering. O calendário de eventos está em arenaporto.blogspot.com. Entre a Rua da Boa Hora e a Rua de Cedofeita está o Doce Ritual, que se dedica ao tríptico sabores, arte e leitura. É o primeiro item que se destaca: o bolo de chocolate é um ex-líbris, mas há outras especialidades caseiras, doces regionais e biscoitos, bem como uma alargada selecção de chás. Os menus de almoço são centrados nas massas e legumes. Aqui há sempre uma exposição para visitar e a componente de leitura reflecte-se nos poemas colocados nas mesas e nos livros e jornais à disposição. Mais acima, a Temposolto apresenta sugestões de pequenas prendas artesanais, com destaque para a bijutaria da criadora Ana Alves. Além disso, tem livros (infantis e best-sellers), carteiras, sais, velas e sabonetes.
A rua, onde está também a sede distrital do Bloco de Esquerda, já fez parte do roteiro nocturno do Porto, até há cerca de dois anos. Aos fins-de-semana, a Casa da Madeira do Norte transformava-se num bar onde não faltava a cerveja Coral e a também regional poncha. Problemas com a vizinhança puseram fim ao que seria agora uma descontraída alternativa para a movida da Baixa."

Artigo de João Pedro Barros in Público

domingo, 12 de abril de 2009

Rua da Fábrica

"O Grande Hotel de Paris ainda é a sala de visitas da artéria dos livreiros

O mítico café Estrela d'Ouro também está de volta à rua que os turistas e a "movida" da Baixa do Porto (re)descobriram. As livrarias continuam por aqui, mas as vendas diminuíram

Há duas ou três décadas, o regresso às aulas de qualquer aluno do Grande Porto implicava uma visita quase obrigatória às papelarias e editoras da Rua da Fábrica. Hoje, os livreiros da artéria - que forma com a Praça de Carlos Alberto e a Rua dos Mártires da Liberdade o triângulo de maior densidade do sector no Porto - garantem que o título de centro do livro no Norte ainda se mantém, embora as vendas já não sejam as mesmas, face à concorrência das grandes superfícies. Muitos clientes das independentes Livraria de José Alves, Sousa & Almeida e Editora Educação Nacional vêm especificamente à procura daquilo que não encontram nas lojas dos centros comerciais. A "gigante" Porto Editora também está presente e a rua até tem significado histórico para o grupo editorial. A sua primeira livraria/papelaria foi inaugurada aqui, em 1944. A loja actual data de 1966 e tem um cariz generalista. Bem mais antigo é o Grande Hotel de Paris, inaugurado em 1888, e que pode ser considerado a sala de visitas da rua, com um passado de hóspedes notáveis, de Camilo Castelo Branco a Eça de Queirós.
Antes de prosseguirmos, debrucemo-nos um pouco sobre a toponímia do arruamento, que se deve à Real Fábrica do Tabaco, cuja prosperidade chegou a ser considerável no século XVIII. No século XXI, os noctívagos da vizinha zona das Carmelitas não descem até aqui à procura de cigarros, mas sim das cervejas e das sandes de presunto da típica mercearia Casa S. Jorge, aberta pela noite fora. O Royal Kebab, mais abaixo, é alternativa.
Voltemos às livrarias, para perceber os diferentes conceitos. A Livraria de José Alves, na esquina com a Rua de Aviz, sucedeu à antiga ASA e especializou-se em livros técnicos, de engenharia, economia ou informática. A Sousa & Almeida vem de 1952 e continua a ser gerida por um dos fundadores, Joaquim de Almeida. As áreas fortes são História, Arqueologia, Arte Portuguesa e Etnografia, bem como os livros antigos seleccionados. Também há uma secção de livros galegos e de temas africanos. Na Editora Educação Nacional, que chegou a ser uma das mais relevantes do país em termos de ensino básico, a oferta concentra-se nos guias turísticos, livros escolares do primeiro ciclo e literatura infanto--juvenil. Todos os estabelecimentos se queixam do mesmo: da falta de estacionamento e das obras prolongadas de requalificação, realizadas no âmbito da Porto 2001 Capital Europeia da Cultura. "A rua ficou bonita, mas foi a machadada final, nunca mais houve retoma", sublinha José Alves.
Ao Grande Hotel de Paris ninguém tira o título de estabelecimento com mais história da rua. Foi fundado em 1888, mas o antecessor Hotel Francês tem referências muito anteriores.

O hotel de Camilo

Entre outras curiosidades, diz-se que o Grande Hotel foi o primeiro no Porto a ter água quente nos quartos. Em 1849, albergou o escritor Camilo Castelo Branco. Em 1999, a unidade passou para a actual gerência, de David Ferreira, que procedeu a obras de recuperação, mantendo a traça e os objectos antigos. Os 42 quartos costumam estar ocupados por turistas "europeus, jovens e que não querem um hotel standard", revela David Ferreira. No salão de refeições, só se servem agora os pequenos-almoços, de base tradicional portuguesa.
Há aqui outro estabelecimento mítico: o Estrela d'Ouro, que faz parte da linhagem de cafés que moldaram, durante muitos anos, a vida académica e social do Porto. "Quando reabrimos, muita gente entrava cá para nos dizer que tinha começado aqui o namoro, estudado por cá", contou-nos Fernando Martins, o actual proprietário. Pedro Homem de Mello, Eugénio de Andrade e Óscar Lopes são algumas das figuras do mundo literário associadas à tertúlia que aí se reunia.
A decadência dos últimos anos foi interrompida em 2007, com obras profundas, que alteraram por completo a decoração, sem quaisquer traços do passado. Agora, a cafetaria tem pouco peso, sendo o piso térreo essencialmente dedicado a almoços (com pratos do dia) e jantares. A ementa concentra-se nas pizzas (há rodízio por 12,90 euros) e no serviço de grill. No primeiro andar, estão seis bilhares, enquadrados num espaço de bar, aberto pela noite dentro (a cozinha funciona até às 2h00). Nas quartas-feiras académicas, o fino é a um euro.
No outro lado da rua, o restaurante Companhia dos Morfes assentou arraiais no número 34, depois de mais de uma década na Foz do Douro. A cozinha também fecha apenas às 2h00, aos fins-de--semana, sendo que os lombinhos de porco preto são o ex-líbris deste local requintado. O menu em inglês denuncia o óbvio: os turistas andam por aqui e são um dos alvos."

Artigo de João Pedro Barros, in Público

segunda-feira, 6 de abril de 2009

Rua das Carmelitas

"A movida nocturna instalou-se à porta da mítica e centenária Livraria Lello

O Era Uma Vez no Porto, o mais recente bar da Baixa, está desde há uma semana mesmo ao lado do famoso estabelecimento, que atrai milhares de turistas todos os dias

Em Janeiro de 1906, a inauguração da Livraria Lello & Irmão (que então se chamava Chadron) atraiu a atenção de figuras como o poeta Guerra Junqueiro, o líder republicano Afonso Costa e Aurélio da Paz dos Reis, o pioneiro do cinema em Portugal. Mais de 100 anos depois, os flashes das máquinas fotográficas dos turistas são a imagem mais comum à entrada deste edifício classificado e ícone do Porto. Antero Braga, um dos sócios da Prólogo Livreiros, que detém a Lello desde 1994, estima que mais de 1000 estrangeiros por dia façam compras na livraria, entre os meses de Maio e Agosto. A Rua das Carmelitas está também no epicentro do movimento nocturno da Baixa, dando acesso às concorridas ruas Galeria de Paris e Cândido dos Reis. Por isso, não é coincidência que aqui tenha aberto um novo bar: o Era Uma Vez no Porto "transferiu-se" do Passeio Alegre há pouco mais de uma semana.
Mas voltemos uns séculos atrás: por que o arruamento recebeu o nome dos Carmelitas? A explicação é simples: aqui existiu, entre os séculos XVIII e XIX, um convento dos Carmelitas Descalços, extinto em 1833, depois da vitória do regime liberal. Hoje, não resta qualquer vestígio do edifício, que deu lugar, em 1903, à construção do chamado bairro das Carmelitas (entre a Praça Guilherme Gomes Fernandes e as ruas de Santa Teresa e Conde de Vizela).
De regresso ao presente, falemos da actual orientação da livraria Lello, considerada pelo jornal britânico The Guardian como a terceira mais bela do mundo. O título deve-se não só à fachada (entre a Arte Nova e o neo-gótico), mas também ao seu interior, que se destaca pela escadaria e pelo amplo vitral no tecto, para além da presença de bustos de escritores como Eça de Queirós, Camilo Castelo Branco ou Antero de Quental. O atendimento especializado e os livros de autores portugueses em língua estrangeira, destinados maioritariamente aos turistas, são os grandes orgulhos da actual gerência, que passa "ao lado da crise". No piso superior há ainda uma vertente de galeria de arte, com obras de pintura e escultura, e um pequeno bar, limitado a bebidas.
Porém, a Lello não é a única livraria histórica da Rua das Carmelitas. No lado oposto está a Livraria Fernando Machado, fundada em 1922, cujo período áureo se deu nas décadas de 1940 e 1950, quando se assumiu como uma das mais importantes editoras portuguesas na área do livro técnico. Por este antigo espaço de tertúlia de médicos, juristas e opositores ao Estado Novo passaram ainda quatro exemplares da primeira edição de Os Lusíadas. Em 2006, com a fachada de talha de madeira e vidro recuperada, reabriu pela mão de Paulo Samuel, responsável pela editora Caixotim e livraria homónima, na Rua dos Clérigos. No entanto, passados três meses, a Fernando Machado voltou a encerrar, devido a um processo de insolvência em que Paulo Samuel foi uma vítima colateral. "Se houver condições, gostava muito de retomar o projecto", contou ao PÚBLICO.

Era uma vez na Baixa

O mais recente bar da Baixa chama-se Era Uma Vez no Porto e está no primeiro andar do número 162, na porta da Ourivesaria dos Clérigos. O espaço está aberto todos os dias à noite (a partir da próxima semana, a abertura é antecipada para as 15h), destacando-se pela sua varanda, com uma vista que abrange a Praça de Lisboa (ainda encerrada, à espera da prometida requalificação), a Torre dos Clérigos e a Praça dos Leões. Nos próximos meses deve surgir a loja Gira Discos, numa sala contígua, com CD, vinis e livros. O indie rock vai ser dominante na selecção musical do bar, que não tem consumo obrigatório.
A artéria também é conhecida pelo comércio, com destaque para os Armazéns Marques Soares, a caminho dos 50 anos. Tudo começou no número 92, com 150 metros quadrados. Agora, através da aquisição de vários imóveis, ligados de forma labiríntica, os armazéns têm mais de 10.000 metros quadrados, distribuídos por cinco pisos, onde já se nota o passar dos anos. A oferta abrange roupa de homem, senhora e criança, estofos e decorações, cristais, relojoaria e até uma secção de tamanhos grandes.
Os Armazéns da Capela, ou A Pompadour, são um estabelecimento centenário, com um belo pára-sol de ferro e vidro. A mais antiga loja portuense da Vista Alegre está na esquina com a Rua Cândido dos Reis. E a Fernandes, Mattos & Ca., mais acima, merece uma visita mesmo sem compras: as velhas colunas em ferro fundido (da Fundição do Ouro), as bancadas em madeira e os vitrais levam-nos numa viagem até 1886, data de abertura desta antiga casa de tecidos, agora dedicada aos pequenos objectos do lar e artesanato português. Segundo nos contou o gerente, Paulo Fernandes, Marques da Silva foi um dos arquitectos."

Artigo de João Pedro Barros, in Público

segunda-feira, 30 de março de 2009

Rua do Ouro

"A marginal onde as pizzas valem mais

Com a Ponte da Arrábida como "padroeira", a Rua do Ouro oferece um surpreendente leque de restauração, diversão nocturna e lojas de gama média-alta

A marginal ribeirinha do Porto é marcada pelos contrastes: a proximidade do rio Douro levou à construção de zonas residenciais e comerciais de luxo, mas subsistem populações ligadas à pesca. No Cais da Arrábida, há pequenas embarcações ancoradas e ainda se podem ver pescadores a consertar as redes. Em volta do Cais do Bicalho, domina a pesca recreativa, auxiliada por uma máquina "única no país", instalada na fachada do Bibá Pesca. É em tudo idêntica às que vendem sandes ou chocolates, mas aqui compra-se isco, por 2,5 euros. "Tivemos de a alterar completamente para servir os clientes, quando estamos fechados", explicou-nos Nélson Pereira, funcionário da loja de artigos de pesca. Apesar do relevo da inovação, arriscamos dizer que o actual ex-líbris da Rua do Ouro está nas pizzas: as melhores da cidade.
A nossa atenção centra-se em dois restaurantes: Casad'oro e Nhac! Nhac! O primeiro tem um bónus considerável: ocupa o antigo Pavilhão de Fiscalização da Construção da Ponte da Arrábida (conhecido como a "Casa dos Engenheiros"), da autoria do arquitecto José Galhoz. A partir do Casad'oro, a vista para a ponte e para a foz é privilegiadíssima, especialmente a partir da esplanada. No interior, o restaurante divide-se em dois: no piso -1, o ambiente é formal e há uma selecção de pratos de carne, peixe e massas; no primeiro andar, está a pizzaria, com mesas e bancos corridos. O preço das pizzas varia entre os 6,5 e os 11,5 euros e os ingredientes são importados de Itália.
Também de massa muito fina, as pizzas do pequeno Nhac! Nhac! são igualmente recomendáveis. Existem cerca de 20 variedades, sempre a rondar os 10 euros e preparadas à vista do cliente. Outra sugestão, no âmbito da comida italiana, é o Lancelot, no piso um do Condomínio Douro Foz. No número 133, numa casa amarela, está o Peixes & Companhia, onde o nome diz tudo: é o peixe fresco, acompanhado de legumes e batatas a murro, que domina o menu. O Morfeu na Marginal, no número 400, tem pratos tradicionais portugueses e peixes do dia.
O carro do rei D. Carlos
Mas deixemos a comida e passemos para a M Colecção Automóvel, com entrada pela Rua de João do Carmo, junto ao antigo River Caffé: aqui estão 25 dos 110 automóveis antigos do falecido empresário famalicense António Magalhães. Dos veículos em exposição, destaca-se um Minervette, de 1904, propriedade do rei D. Carlos, que o tinha estacionado em Vidago, para quando visitava o Palace Hotel. Há ainda um Minerva de 1914, exemplar único no mundo, e, para lá de marcas míticas como Ferrari, Jaguar e Rolls-Royce, também há um carro da... Singer! O enquadramento da mostra é modesto, mas o neto Manuel Magalhães diz que a actual sala deve ser apenas "um começo".
Na Rua do Ouro situa-se a loja da estilista Fátima Lopes (no número 418), um cluster de estabelecimentos de arquitectura, design e decoração (composto por Edição Limitada, Casa d'Arte, Miguel Laia e À Procura da Arte), e as joalharias Júlia Ribas e Monseo, no antigo Armazém Frigorífico da Comissão Reguladora do Comércio de Bacalhau, uma construção mercantil do Estado Novo, datada de 1939. Agora chama-se Douro's Place e é um moderno bloco de 31 apartamentos e seis lojas.O interesse nocturno da Rua do Ouro está concentrado em pleno rio, pouco depois da Ponte da Arrábida. A primeira embarcação visível chama-se Gandufe, alberga o Porto-Rio e é um dos espaços mais alternativos do Porto. O seu leme é o calendário de eventos (www.porto-rio.com), geralmente concentrado nas noites de fim--de-semana, oscilando entre os concertos de rock & roll mais marginal e as sessões de disco-jockeys, com destaque para o drum & bass. Ao lado está o Maré Alta, onde as after-hours de domingo são a imagem de marca. O horário de funcionamento, limitado às noites de sexta-feira e sábado, vai ser alargado, até Maio, para todo o dia. Ao almoço, haverá pratos do dia e os jantares serão em regime buffet. O Zoo Lounge seria a terceira opção "flutuante", mas está encerrado para obras, devendo reabrir na Primavera. As esplanadas junto ao Condomínio Douro Foz podem ser uma alternativa tranquila.
Se a passagem do eléctrico número 1 nos remete para o passado, há que referir que o Estaleiro do Ouro, transformado em cemitério de barcos, tem ainda mais para contar. Aqui terão sido construídas, pelo menos parcialmente, as embarcações da armada de Ceuta e as naus que participaram na primeira viagem marítima à Índia, de Vasco da Gama."

Artigo de João Pedro Barros, in Público

Ora, a rua do Ouro já não é propriamente na baixa, mas de qualquer forma...também achei que valia a pena! e o Nhac Nhac..bem fixe...e pode-se fumar!!

domingo, 15 de março de 2009

Rua de Cedofeita

Numa rua de comércio tradicional, também há ofertas alternativas

Há lojas que pararam no tempo, mas a Jo-Jo's investe e vai ter em Maio um auditório com showcases. Visitar o Centro Comercial de Cedofeita dá direito a conhecer o "lado b" do Porto

A 9 de Julho de 1832, as tropas liberais de D. Pedro entraram no Porto pela Rua de Cedofeita, dando início a um período de mais de um ano de cerco da cidade pelas forças absolutistas de D. Miguel. D. Pedro começou por estabelecer o seu quartel-general no Palácio das Carrancas (agora Museu de Soares dos Reis), mas, para evitar o fogo dos miguelistas (a partir de Gaia), teve de se refugiar num edifício da... Rua de Cedofeita. O histórico imóvel, entre os números 393 e 399, ainda está de pé, e foi recentemente restaurado. No século XXI, naquele que é considerado o segundo arruamento comercial do Porto (a seguir à Rua de Santa Catarina), não há nenhuma guerra civil, mas há baixas entre o comércio tradicional. Em compensação, surgem novos negócios, alguns deles com cariz alternativo.
Há anos que um projecto de cobertura para a rua, do arquitecto Germano de Castro Pinheiro, é discutido, mas não sai do papel. "Não tem havido grande renovação" reconhece Jorge Coelho, da Casa dos Forros. O estabelecimento, há 42 anos no local, é um dos que tentam acompanhar novas tendências e vende agora alguns elementos de retrosaria mais modernos. Porém, não vale a pena pintar um cenário negro, porque há mais casas que acompanham o ritmo dos tempos e se dirigem a públicos mais específicos: por exemplo, a loja de roupa Me Allegro, orientada para as classes alta e média-alta, com cinco pisos de marcas de prestígio. Para o sexo feminino, o pronto-a-vestir Flagra, já fora da zona pedonal, representa uma alternativa à massificação dos centros comerciais. Bem mais antigas são a Antiqualha, fundada em 1923, que se dedica ao restauro e comércio de antiguidades (especialmente em madeira), e a Vilarinha, no ramo do mobiliário artístico e antiguidades desde 1876.
Um dos ex-líbris da artéria é a Jo-Jo's, uma loja de discos que começou por se localizar no Centro Comercial de Cedofeita (CCC), no final da década de 70, mas que funciona desde 1999 num edifício tradicional do século passado. O seu proprietário, António Ribeiro, nunca "dormiu em serviço". Hoje, a facturação vem primordialmente da loja on-line cdgo.com (com mais de 800.000 títulos), mas o espaço físico vai ganhar, em Maio, mais um andar, com vinil, CD usados, livros (não só de música, mas também best-sellers e obras de Direito), merchandising e um auditório para showcases. Foi a música alternativa/independente a "dar nome" à casa, mas a selecção é ecléctica: "Temos desde a Floribella ao John Cage", brinca António Ribeiro.
Já que falámos no CCC, façamos uma viagem até este centro comercial da "primeira geração", contemporâneo do Brasília. A partir dos anos 90, o abandono foi uma dominante e o cabeleireiro de homens Luís Lourenço (que se mantém graças aos "doutores e engenheiros" que lhe são fiéis desde os tempos de estudante) é uma das testemunhas, desde 1980: viu passar "altas individualidades" para o restaurante "vizinho", o Cantinho da Teresinha, que agora tem como cartão de visita a música de baile (e as noites de fado, às quartas-feiras). Apesar do abandono, o CCC acabou por não parar no tempo e reunir alternativas para públicos minoritários: a growshop A Loja da Maria (que concentra tudo o que é necessário para fazer uma planta crescer), Lionheart e Elfic (vestuário e acessórios alternativos), Factory Tattoo Studio, Circos (artigos de malabarismo, equilíbrio, acrobacia e magia), Forever Ultra (material relativo a claques de futebol e streetwear) e a loja de roupa e acessórios das irmãs góticas Castilho, personagens míticas da zona. A Hélice é um ponto de encontro indispensável para coleccionistas, especialmente de brinquedos e de objectos ligados à política e ao futebol. Em termos de restauração, o panorama não é brilhante. Salva-se o Pimenta & Chocolate, já depois do cruzamento com a Rua de Álvares Cabral, em que a cozinha tradicional portuguesa é a base dos pratos. O ambiente é acolhedor e os preços moderados (a rondar os 15 euros por pessoa). Para refeições rápidas e cafetaria, recomendamos o VeraCruz, com uma enorme variedade de chás e cafés, que também se podem levar ao quilo para casa.
Na noite, a Rua de Cedofeita não é um grande centro. Apenas há a referir o Altar, café-concerto que surgiu em Janeiro de 2008, e cujo programa inclui reggae às terças--feiras, música pimba às quartas e rock dos anos 70 e 80 às quintas. Aos sábados à noite, há concertos e os domingos são ocasionalmente reservados a matinés hardcore-punk."

Artigo de João Pedro Barros, in Público

domingo, 8 de março de 2009

Rua do Breyner

"Aqui há cosmopolitismo, mesmo que seja preciso olhar duas vezes


O Breyner 85, projecto a meio caminho entre um clube ao estilo inglês e uma academia cultural, é a nova estrela de uma rua que parece ter despertado da letargia


No início da década, a Rua do Breyner parecia votada ao abandono e a uma atmosfera sombria e semi-industrial. Mesmo quando a paralela Miguel Bombarda se tornou um viveiro de galerias, o arruamento continuou ensimesmado, como uma espécie de parente pobre. Nos últimos dois anos, as coisas têm vindo a mudar, com novos habitantes e alguns investimentos diversificados, de tal forma que um olhar atento revela um inesperado cosmopolitismo. Até uma residência para idosos do grupo Montepio reconverteu uma antiga unidade fabril.

Quando divagávamos pela rua, uma conversa em português com forte sotaque italiano chamou-nos a atenção. Ficámos a conhecer o maquetista de arquitectura Alvaro Negrello, natural de Locarno, na Suíça de língua oficial italiana. No Porto desde 1993, Negrello tem clientes como Alcino Soutinho, Álvaro Siza Vieira e Eduardo Souto Moura e internacionais como David Chipperfield e Frank Gehry. O suíço, que tem atelier e residência no mesmo edifício, diz que a rua tem mudado muito. "Noutras cidades europeias, casas como estas custam milhões e aqui ainda é possível comprá-las a um preço acessível. Só agora é que muita gente se está a aperceber disso", conta. A sua casa, com 110 anos, tem um extenso logradouro, uma característica típica da rua, que também está presente no edifício Breyner, uma nova construção topo de gama já em comercialização. Ao apreciar as obras, o PÚBLICO foi de imediato abordado por um mediador imobiliário, que nos disse que "todos os jovens" querem agora morar na Baixa. Duas das habitações já estão vendidas e os preços não são brincadeira: entre 250.000 e 430.000 euros.

Passemos ao cerne do artigo: aquilo que, de facto, se pode fazer aqui. E, neste campo, o Breyner 85 (a meio caminho entre um clube ao estilo inglês, onde todos os dias acontece qualquer coisa, e uma academia cultural) é a grande novidade. Para já, o corpo docente está virado para a música, mas o leque de oferta formativa deverá ser alargado às artes dramáticas e à dança. Aqui pode-se aprender, criar, mostrar e editar e, para tal, há um estúdio de gravação no piso inferior e várias salas de ensaios. Para o visitante ocasional, a componente de bar/espectáculos será a mais interessante: no piso térreo há uma cafetaria, cuja decoração traz à memória o período entre os séculos XIX e XX (a casa data de 1906); no piso superior está o café-concerto, com um pequeno mas bem equipado palco; nas traseiras, o logradouro funcionará, no Verão, como esplanada e já lá está instalado um palco. O Breyner 85 estará aberto todos os dias, das 10h às 2h, e exigiu um investimento de cerca de um milhão de euros.

Mais à frente está o British Council, cuja missão é difundir o conhecimento da língua inglesa. Para lá dos diferentes cursos e exames que se realizam aqui, há um grupo de leitura que se reúne uma vez por mês para conversar sobre uma obra em inglês (a entrada é gratuita). Para uma artéria que parece anónima à primeira vista não estamos mal, mas há mais (e vamos ter de passar para o modo telegráfico). Já perto do Largo da Maternidade de Júlio Dinis está o restaurante vegetariano Nakité, cujas especialidades são a francesinha vegetariana, as lasanhas e os cogumelos Portobello salteados. Ao almoço, há um menu por 4,90 euros: sopa, entrada, pão e café. No número 43 está a Takechance; loja de roupas de marca de segunda mão. Do outro lado, o atelier de conservação e restauro Cotonete & Bisturi especializou-se em pintura sobre tela, escultura, talha e cerâmica.

A rua onde funcionaram o Instituto Industrial do Porto (actual ISEP) e a Faculdade de Letras da Universidade do Porto deve o seu nome a Pedro de Mello Breyner, que, na segunda metade do século XVIII, desempenhou diversos cargos públicos. Morreu em 1828, encarcerado pelos miguelistas. Não foi a tempo de assistir à vitória dos liberais, mas hoje, na "sua" rua, não há dúvida de que triunfaram as "tropas" progressistas."


Artigo de João Pedro Barros, in Público

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009

Travessa de Cedofeita

"A ruela esquecida da Baixa que se tornou num novo centro nocturno do Porto

Se ainda não ouviu falar do 77, é provável que não saia à noite no Porto. O café revolucionou a Travessa de Cedofeita, onde também está a Casa de Ló, sucessora da Casa Margaridense

À primeira vista, não há nada de particularmente recomendável na Travessa de Cedofeita, que liga a Rua de Cedofeita ao Largo Alberto Pimentel: o arruamento é estreito e sombrio, o empedrado está gasto, os passeios são irregulares e as paredes estão pejadas de graffiti anárquicos e outras pinturas. No entanto, com um olhar mais atento, é possível descobrir várias pérolas no arruamento. Ironicamente, pode começar-se pelas paredes: a sua análise pode dar origem a um verdadeiro estudo de semiótica (a disciplina que estuda a significação). E não é que encontramos mesmo uma análise na Internet? O texto, da autoria de António Preto, fala numa "exposição colectiva", repleta de sinais contestários. A título de exemplo, aqui fica uma das mensagens: "Procura-se/ Outro/ Ronaldo/ Templário/ Urrando/ Golos/ Acalmando/ Lobbies". Juntando as iniciais, lê-se "Portugal".
Porém, aquilo que mais transformou a travessa nos últimos dois anos foi um café que, à primeira vista, também passaria despercebido. À porta do Espaço 77, em qualquer noite de quinta-feira a sábado, concentram-se pequenas multidões (na rua passam poucos automóveis), geralmente com uma bebida na mão. Aqui há cervejas "minis" a 50 cêntimos, shots a um euro, baldes de cerveja de diferentes tamanhos entre um e quatro euros, panikes entre 90 cêntimos e 1,5 euros. A esplanada que os proprietários resolveram abrir nas traseiras, mesmo a tempo da entrada em vigor da Lei do Tabaco, também foi um golpe certeiro, e o Espaço 77 transformou-se numa espécie de "lado b" do Piolho, na Praça de Parada Leitão.
Mesmo ao lado do 77, a Casa de Ló é a mais recente novidade da artéria. Surgiu no espaço da mítica Casa Margaridense (fundada em 1880 e encerrada em 2007), famosa pelo seu pão-de-ló, marmelada e geleias, e juntou a componente de café-bar à venda destas iguarias (os chocolates, vinhos do Douro, livros e bolachas são uma novidade), preservando a traça original da loja. Na zona onde se confeccionavam os produtos está agora o salão de chá/bar (onde também se servem refeições ligeiras), animado por DJ convidados e concertos (o primeiro foi na sexta-feira) nas noites de fim-de-semana. Um pouco mais próximo da Rua de Cedofeita, o Mezopotamya fecha este mini-cluster com ligações à noite da Baixa. É um espaço dedicado ao döner kebab (o prato nacional turco, feito de carne assada num espeto vertical), onde a movida conforta a barriga durante a noite (está aberto todos os dias, das 19h às 2h). Aqui, é servido em duas variantes: sandes (por 2,90 euros) e rolo (3,50 euros).
Mas a Travessa de Cedofeita não é só feita de coisas novas: há habitantes mais antigos que resistem e até circulou um abaixo-assinado para tentar travar o barulho nocturno. Artur Ribeiro Taquinho, o "mais antigo adeleiro do Porto", instalado no número 46, não o assinou, porque "gosta da animação". O comerciante está há mais de 60 anos na rua (tem hoje 85 anos) e a sua história foi-nos contada pela filha Maria de Fátima Almeida e pelo genro José Carlos Almeida, agora à frente de um negócio em crise, porque as melhores peças "ficam para os leilões". Ainda assim, há mobiliário de todo o tipo e para várias bolsas no interior da loja, que é complementada pela arte sacra e decorativa de José dos Santos Galante, mesmo em frente.
Há mais. Por exemplo, a livraria Lumière, no número 64, compra e vende livros usados, mas também discos de vinil, banda desenhada e cadernetas de cromos antigos. Literatura portuguesa, história, teatro e poesia são as especialidades. A Blow Up Market é um bom local para encontrar roupas e acessórios em segunda mão. Na Goodvibes encontra-se vestuário, calçado e acessórios de cariz urbano e alternativo, de marcas como a própria Goodvibes (em exclusivo) e Gola. A Collectus é uma loja de colecções que tem sempre montras apelativas à vista, com moedas, notas, postais, selos, calendários, vinis e cartazes antigos. Uma viagem nesta artéria nunca poderia ficar completa sem referir a Love shop 68+1, na esquina com a Rua das Oliveiras. Chama-se Love shop porque a proprietária, Sónia Maia, aposta mais na vertente lúdica: aqui há lingerie comestível, artigos bondage e vibradores, mas não há filmes pornográficos. No seu lugar, estão muitos jogos de cariz erótico."

Artigo de João Pedro Barros, in Público

domingo, 15 de fevereiro de 2009

Rua das Flores

"Ourives, alfarrabistas e berbequins na mais tripeira das ruas do Porto

Na Rua das Flores, outrora famosa pelas ourivesarias e lojas de têxteis, é a reabilitação urbana promovida pela Porto Vivo que hoje chama a atenção. Uma rua à procura de residentes.

A Não conseguimos descobrir como nasceu o epíteto, mas é um facto que chamam à Rua das Flores "a mais tripeira das ruas do Porto". É provável que esta alcunha tenha sido inspirada pelos notáveis edifícios dos séculos XVI e seguintes que a dominam e que dão um forte argumento aos defensores de uma artéria pedonal. Isto porque quem a percorre com olhos de ver tem de se deter no meio da faixa de rodagem para apreciar as varandas, os trabalhos em ferro forjado ou os vários exemplos de arte antiga que clamam por atenção. Mas, por estes dias, um passeio sossegado pode ser perturbado pelo barulho dos berbequins ou dos martelos, vindo dos edifícios que estão a ser intervencionados no âmbito dos projectos da sociedade de reabilitação urbana Porto Vivo. Foi nesta artéria, em 2006, que a entidade completou a sua primeira promoção própria, no edifício onde funcionava a Papelaria Reis e onde hoje está a Cidade das Profissões, que se dedica à informação e aconselhamento profissional. Seis T2 foram comercializados através de concurso, com grande procura. A esperança de que a Rua das Flores retome a sua raiz residencial passa por aqui.
Carlos Oliveira, de 78 anos, é um dos moradores que resistem: habita o mesmo prédio dos joalheiros Eduardo Carneiro, onde trabalha desde 1946. "Antigamente as casas estavam todos habitadas e geralmente os donos dos estabelecimentos moravam por cima", relembra. O portuense ainda viveu o período áureo daquela que foi considerada, desde meados do século XVII, como a "Rua dos Ourives" ou "Rua do Ouro" do Porto. Os estabelecimentos do género chegaram a ser mais de 20, mas, em 2009, o PÚBLICO contou apenas sete, que ainda assim oferecem um considerável leque de escolhas. Mas Carlos Oliveira ainda tem outras histórias: lembra-se dos carros de bois que subiam desde a Ribeira até à Praça de Almeida Garrett e das famílias que no final das tardes de domingo percorriam a rua com um sável na mão, vindo directamente do rio. A alfândega era o ponto de onde partia todo o comércio da cidade e a sua progressiva desactivação teve muita influência na perda de movimento da rua.
Mandada abrir pelo rei D. Manuel I, em 1518, e calcetada em 1542, a Rua das Flores (cujo perfil original está quase intacto) tornou-se desde logo numa das principais vias da cidade, razão pela qual muitos nobres e burgueses construíram aqui os seus palacetes. Podemos destacar alguns: a Casa dos Maias ou dos Ferrazes Bravos (números 31 a 39, onde deve surgir um hotel de charme, em 2010), a dos Cunhas Pimentéis (na esquina com o Largo de São Domingos) ou a Casa da Companhia (número 69). A Igreja da Misericórdia, actualmente encerrada para obras (poderá reabrir no Verão), é outro ponto de interesse: a sua fachada, em estilo barroco, é da autoria de Nicolau Nasoni, datando de meados do século XVIII. No edifício da Misericórdia do Porto pode visitar--se um pequeno núcleo museológico (por 1,5 euros), onde se destaca a pintura Fons Vitae, uma alegoria à fundação das misericórdias, de princípios do século XVI, em que figuram os membros da família real, no tempo de D. Manuel I. O cartaz cultural poderá ficar enriquecido com o Museu do Teatro de Marionetas do Porto, que vai funcionar no número 22 e onde devem ser exibidas 1200 peças. No final de Fevereiro ficam completas as obras do segundo piso, que vai ser aberto a visitas de estudo, mas falta financiamento para o resto da obra.

Alfarrabistas com história

Os alfarrabistas da Rua das Flores, Chaminé da Mota e João Soares, também são um bom motivo para uma visita. No primeiro, respira-se um ambiente solene (o facto de a Antena 2 ser a "rádio oficial" ajuda) e há uma série de antiguidades expostas, que incluem duas caixas de disco, de fabrico alemão, de finais do século XIX. Uma delas toca a Marselhesa, a outra A Internacional. O alfarrabista João Soares é mais descontraído: por exemplo, diz que a sua livraria (onde há muitas pechinchas) está organizada segundo uma "desordem ordenada". Era bancário, mas foi juntando tantos livros que percebeu que os podia vender num espaço próprio. Hoje está reformado e diz que não se importa de facturar "20 ou 30 euros por dia": "Os custos são baixos e estou aqui com boa música, no meio dos livros".Outro destaque da rua é a mercearia fina A Pérola da Índia, no número 220. Foi fundada em 1934, mas mudou bastante nos últimos anos, de forma a cativar o comprador de passagem e o turista que desce até à marginal do Douro. Agora, a aposta centra--se na garrafeira e em produtos como bacalhau, presunto ou alheiras, com qualidade e a preços competitivos. A Memórias, dedicada ao artesanato português e decoração, é um belo recanto cheio de bordados, cerâmica e azulejos vindos de todo o país. Para algo completamente diferente, também se pode encontrar roupa gótica e alternativa na Oblivion. De resto, há aqui várias lojas de vestuário e armazéns de tecidos, reminiscências do tempo em que a artéria era também o centro dos têxteis na cidade."

Artigo de João Pedro Barros, in Público

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009

Rua do Rosário

"O local onde o comércio tradicional convive pacificamente com propostas alternativas

Pode ver-se uma drogaria ou uma mercearia ao lado de uma casa de artigos japoneses e de uma loja de produtos biológicos. A variedade é apreciada por todos.

Até aos anos 80, período em que se acentuou a desertificação da Baixa do Porto, o perfil da Rua do Rosário era eminentemente residencial. Disso mesmo se lembra Fernando Ribeiro, hoje com 77 anos, 44 deles passados atrás do balcão da Drogaria Marília: "Antigamente, toda a gente queria um andar aqui e não conseguia. Hoje não faltam casas abandonadas", descreve. Porém, na presente década, têm vindo a surgir novos negócios nesta transversal da Rua Miguel Bombarda (a artéria das galerias de arte), maioritariamente conduzidos por jovens e com um espírito tendencialmente alternativo. O comércio tradicional (a mercearia, o sapateiro, a peixaria) que resistiu ao decréscimo populacional e à concorrência das grandes superfícies mantém uma relação de proximidade como os recentes vizinhos. "Espero que esta convivência não se perca, que seja esse o dinamismo futuro da rua", diz Ana Rita Cameira, do Muuda, um espaço multidisciplinar que se rege pelo tríptico arte, sabores e design.
Comecemos por aqui a nossa viagem. No Muuda há exposições de arte (até 28 de Fevereiro, André Magalhães expõe 315 desenhos A4), refeições (para grupos, através de reserva), workshops (no dia 18, a partir das 20h, há um de sushi), peças de estilistas como Nuno Baltazar e Katty Xiomara e diversas iniciativas. Uma delas é o Muuda de Mãos, destinada a quem quer vender artigos em segunda mão. Um pouco ao lado está a primeira loja japonesa da cidade, a Kuri Kuri (significa "que amoroso"). Quando abriu, em Novembro, circulava entre a vizinhança que era um sítio onde "se botavam cartas", mas, apesar da diversidade da oferta, não há aqui nada de místico. Há, isso sim, artigos para pessoas dos "oito aos 80 anos", como diz Ana Cancela, a proprietária: roupa, livros sobre sushi, papel para origami (a arte de dobrar papel), refrigerantes e cervejas, doces típicos e alguma manga (banda desenhada nipónica).
No número 177 temos o Quintal, uma loja e mercearia de produtos biológicos. O estabelecimento, onde já se vendem produtos de homeopatia, naturopatia, cosmética natural (sem químicos) e limpeza, vai ter frutas e legumes a breve prazo. Nas traseiras, há um agradável salão de chá e uma esplanada. Quem quiser conhecer este estilo de vida tem ao dispor revistas, livros e workshops regulares. Para outras leituras, desloque-se ao Gato Vadio, uma livraria com destaque para poesia, filosofia ou teatro que também é café-bar e local de eventos e sessões de cinema. Se politicamente se situa à direita, não chegue nem perto.
Na rua, também há um conjunto de lojas dedicadas a antiguidades e decoração. A mais recente, de Ana Gisela Cerqueira, é dedicada ao mobiliário dos anos 20 e 50 do século XX e à pintura contemporânea. Na Pedaços de Arte e na Né Arts desenvolvem-se projectos de interiores, algo que também acontece na FMO, loja/atelier de Fernando Marques de Oliveira, que dá ainda destaque às antiguidades e aos tecidos e papéis de parede. No número 147 está o atelier e show-room do Cirurgias Urbanas, empresa ligada à arquitectura, arboricultura, paisagismo e mobiliário.

Refeições em conta

O próximo parágrafo é dedicado à comida. Podemos começar por recomendar o Café Célia, no cruzamento com a Rua Miguel Bombarda: os pratos são bons e baratos (a partir dos 3 euros) e a decoração não deixa de ser cuidada (Roy Lichtenstein, Andy Warhol ou Keith Haring são presença nas paredes). O arroz de pato e a tarte alemã, para sobremesa, são os destaques. O Zé de Braga, uma casa familiar e centenária, onde um almoço completo pode rondar os cinco euros, é uma alternativa. Para algo mais sofisticado, temos o restaurante/bar/galeria de arte 110. Abre de manhã, disponibiliza menus completos ao almoço (por 7,5 euros) e vai até ao jantar, em que se servem tapas com base na cozinha portuguesa (exemplos: polvo com molho verde, rojões e costeletinhas de porco preto). Falemos também de potenciais pechinchas noutras áreas: na Just Girl há vestuário feminino entre 3,5 e 12,5 euros, dada a rebaixa por motivo de obras; no número 141, no segundo andar, há um stock off de decoração; na Momenti Rari, há prendas para convidados de comunhões, casamentos e baptizados, entre um e cinco euros.
Já perto do Hospital de Santo António fica a sede do Cineclube do Porto, com o seu museu e biblioteca de arte cinematográfica. O edifício tem uma longa história: aí esteve instalado o Hotel do Louvre, uma unidade de luxo que recebeu, em 1872, o Imperador do Brasil, D. Pedro II. Ainda no século XIX, albergou uma das primeiras clínicas particulares da cidade. Uma placa assinala um assalto da PIDE, polícia política do Estado Novo, à então sede da organização oposicionista MUD (Movimento de Unidade Democrática), em 1946. Estas são histórias do passado, mas no presente nem tudo é renovação: o estilista Pedro Mourão encerrou o seu atelier/loja na rua, porque "para comércio ela não dá". Os criadores que se mantêm ali vão indicar para que lado pende o futuro da rua."

Artigo de João Pedro Barros, in Público

domingo, 1 de fevereiro de 2009

"Reaproveitar a história para dar identidade a novos negócios

A antiga Casa Margaridense é agora um espaço de lazer multiusos. Na Baixa, há vários antigos espaços de comércio e indústria com nova vida

Quando era criança, Sara Pinto era uma das muitas clientes da Casa Margaridense. Agora, aos 35 anos, lança-se na aventura de retomar parte do espírito que fez do espaço da Travessa da Cedofeita, no Porto, uma referência histórica no fabrico e venda de pão-de-ló e outras iguarias. O número 21 da travessa acolhe agora a Casa de Ló (a abertura oficial é na próxima quarta-feira), que recupera a antiga loja e junta-lhe uma cafetaria, salão de chá e um bar, para satisfação dos muitos curiosos que, durante as obras, espreitavam pelas janelas.
É o último caso de uma tendência recente e que promete continuar: a transformação de espaços com tradição na vida económica do Porto - fábricas, armazéns, livrarias - em sítios de lazer, com forte actividade nocturna. A precariedade laboral e a vontade de criar projectos pessoais são alguns dos motores do surgimento destes projectos. Foi assim também na Casa de Ló, cujas responsáveis quiseram "mudar de vida".
A tabuleta "Aluga-se" na porta da Margaridense, fundada em 1880 e encerrada em 2007, tornou mais fácil a decisão de Sara Pinto, que dá formação profissional, e da amiga e sócia Adriana Rocha. Procuravam um espaço para começar um negócio pessoal. "A nossa ideia teve que se adequar ao espaço. Esta loja tem uma vida própria", conta Adriana Rocha, de 46 anos, professora na Escola Artística Soares dos Reis, no Porto.
Sara e Adriana aplicaram as suas poupanças na recuperação do espaço. Mantiveram a loja quase intacta: estão lá os balcões, as prateleiras com os produtos tradicionais que popularizaram a casa (pão-de-ló, marmelada, geleia de marmelo, cavacas, suspiros, entre outros), o cofre onde se guardavam as medidas secretas de cada ingrediente. O pão-de-ló que popularizou a casa já não será produzido ali (nem nenhum dos produtos, aliás), mas virá de uma fábrica de Margaride, freguesia de Felgueiras de onde eram originários os primeiros proprietários da Margaridense.À tradição, Sara e Adriana juntaram novidades: chocolate, vinho, cadernos, livros e produtos de autor, uma esplanada nas traseiras (pedras do antigo forno são agora bancos), e, na zona onde antes laboravam os fornos a carqueja, noites com concertos e DJ, exposições, refeições ligeiras durante o dia e, possivelmente, projecções de filmes. Esta mistura entre o tradicional e o contemporâneo tem como objectivo "chegar a todas a idades" e tipos de pessoas, diz Sara Pinto. O horário da Casa de Ló, das 10h00 às 2h00, condiz com a estratégia.

O "regresso" dos armazéns

A tendência de transformar espaços antigos da Baixa em locais de lazer está intimamente ligada à dinâmica que esta zona tem apresentado nos últimos anos, sobretudo à noite. Depois da abertura de bares pioneiros, como o Passos Manuel, o Maus Hábitos e o Café Lusitano, um conjunto de novos empresários apostou na Baixa para instalar os seus negócios. Boa parte dos espaços mantém a traça arquitectónica e parte da imagem antiga dos espaços, construindo a sua identidade a partir desse passado. Segundo disseram vários empresários do sector ao PÚBLICO, há já projectos para novos estabelecimentos com características semelhantes.
As ruas da Galeria de Paris e Cândido dos Reis, outrora conhecidas pelos seus amplos armazéns de tecidos, são o centro da nova vida boémia da cidade. O restaurante e bar Galeria de Paris e o Plano B, situados nessas ruas, aproveitaram antigos armazéns. Não muito longe dali, na Rua de José Falcão, dois café-bares - o Café Lusitano e o Armazém do Chá - ocupam, respectivamente, os espaços que pertenceram a um armazém de moagens do início do século passado e um outro de torrefacção de chá.
Trata-se de "usar o passado para construir o futuro", diz Filipe Teixeira, um dos responsáveis pelo bar Plano B, aberto em Dezembro de 2006. Procuravam um espaço nas redondezas da Torre dos Clérigos e encontraram um edifício de 1909, "versátil", com "carácter" e com o bónus de ter sido desenhado pelo importante arquitecto portuense José Marques da Silva (responsável, por exemplo, pelo desenho da Estação de S. Bento e o Teatro Nacional São João), por encomenda do conde de Vizela. "Estava em mau estado, com o soalho e as escadas podres", recorda. Ninguém diria, mas "era muito fácil voltar a parecer um armazém".
José Pedro Maia e Pedro Trindade, da Casa do Livro, na Rua da Galeria de Paris, descobriram o espaço ideal para o bar que abriram em Junho de 2007. Já idealizavam um sítio com uma presença forte dos livros; o que não sabiam era que ali tinha funcionado uma livraria. "Chamava-se precisamente Casa do Livro. Mal se lia o nome na fachada", recorda José Pedro Maia. Acabaram por adoptar o nome e a escolha faz todo o sentido: nas paredes, há centenas de livros, em sintonia com o ambiente intimista do bar, que abre ao final da tarde.
Manter um espaço com estas características "dá muito trabalho, mas faz-se tudo com prazer", diz David Castro, gerente do Lusitano, um recatado café com serviço de catering durante o dia e um bar à noite, que se assume como gay-friendly. Quando abriu, há quatro anos, o antigo armazém, que estava desactivado há dez anos, "foi inteiramente recuperado", com algumas adaptações à nova função.
Do outro lado da rua, no Armazém do Chá, aberto em Abril de 2008, ainda se encontra cerca de uma tonelada e meia de folhas de chá, distribuída por sacos de serapilheira, sinal de um passado não muito longínquo com funções muito distantes das actuais. O espaço, com 700 metros quadrados, não foi a primeira opção de Rui Silva e Sérgio Ribeiro (queriam montar um bar que apostasse no vinho a copo e com uma agenda de concertos muito preenchida), mas a sua história acabou por modificar um pouco a ementa do espaço, que conta com diversos chás. "Vendemos muito chá à noite. Até eu fico surpreendido", diz Rui Silva. Para José Pedro Maia, da Casa do Livro, estas opções revelam "inteligência" por parte dos empresários: "Há espaços lindíssimos. É uma tendência natural pela Europa fora. Só não era no Porto."
Segundo o arquitecto Nuno Grande, as obras de requalificação transformaram as ruas em espaços mais atractivos."
Artigo de Pedro Rios, in Público

sábado, 24 de janeiro de 2009

Rua Nova da Alfândega

"Esta rua podia chamar-se " Rua da Poesia"
As palavras de Cesariny ou de Eugénio de Andrade dão o mote a uma artéria onde há bares, restaurantes, artesanato português e muita cultura despretensiosa.
Não se sabe bem como, mas o vírus da poesia parece ter contagiado toda a Rua Nova da Alfândega. Senão, vejamos: aqui temos o Clube Literário do Porto, onde há vários eventos ligados à arte de fazer versos, e as noites poéticas do bar Púcaros e do Clube das Avós. Para além disso, o café Porto Rosa e a loja de artesanato português Coração Habitado devem pelo menos o nome à poesia. Antes que o portuense mais atento comece a abanar a cabeça com um ar reprovador, assumimos a batota: neste texto, "anexamos" a Rua de Miragaia e o Largo da Alfândega. Não nos parece nada disparatado: foi a abertura da Rua Nova da Alfândega (entre 1869 e 1871), necessária para a ligação do edifício ao centro da cidade, que desenhou a actual configuração da Rua de Miragaia. Agora, é uma espécie de cave, amparada por um muro e dividida a meio pelo Largo da Alfândega.
A área geográfica aqui abordada, dividida entre as freguesias de São Nicolau e de Miragaia, é uma das mais rústicas da cidade e mantém um ambiente de bairro. "Ainda se ouvem as mães à janela a chamar os miúdos", nota Maria Inês Castanheira, programadora do Clube Literário do Porto. São esses mesmos miúdos que andam pendurados no eléctrico da Linha 1 - "o condutor até pára o veículo para lhes ralhar" - e que descem a vizinha Rua do Comércio do Porto de bicicleta, a alta velocidade, sem muita preocupação pelos transeuntes. Jorge Andrade, proprietário do atelier de escultura e cerâmica Arcos de Miragaia, prefere destacar que os habitantes são "pobres, mas solidários". No seu espaço, recebe crianças da zona ou dos problemáticos bairros do Aleixo e do Lagarteiro, especialmente durante o Verão, e também vende as suas obras, a partir de 10 euros. Até 2001, Jorge Andrade nunca tinha modelado uma única peça, mas um curso desenvolvido no âmbito da extinta Fundação para o Desenvolvimento da Zona Histórica do Porto despertou-lhe a curiosidade. No entanto, confessa que é o único dos 16 alunos, com "problemas de droga e marginalidade", que "sobreviveu" com os ensinamentos daí retirados. As suas curiosas e despretensiosas criações justificam uma visita.

A tertúlia mais antiga

Mas retomemos o tema principal, a poesia, pelo exemplo do Clube Literário do Porto. Pertença da Fundação Luís Araújo, e inaugurado em 2005, este é um espaço multifuncional que combina livraria, piano-bar, duas galerias, auditório e uma agenda cultural diversificada e de entrada gratuita. Às sextas e sábados à noite, há música clássica ou jazz e os eventos poéticos permanentes são mensais: a tertúlia Quartas mal ditas, na última semana de cada mês, e Poesia de choque. Nestes eventos, cruzam-se alguns dos nomes que fazem a mais famosa noite de poesia do Porto: é no bar Púcaros, nas arcadas da Rua de Miragaia, e dá-se religiosamente às quartas-feiras, depois do toque de uma sineta, para lá das 23h00. De acordo com o proprietário, Carlos Pinto, trata-se da "tertúlia poética ininterrupta mais antiga da cidade", levando já 12 anos. Os novatos que queiram declamar são sempre bem-vindos. Para ajudar a descontrair, o ex libris é a sangria, servida nos púcaros que dão o nome à casa. Para terminar, há o Clube das Avós, que na primeira sexta-feira de cada mês organiza sessões de poesia, na Junta de Freguesia de São Nicolau. O evento é aberto ao público em geral.
Mas a torrente poética não acaba aqui. O café Porto Rosa, no Largo da Alfândega, tem nos vidros dois dos versos mais famosos de Mário Cesariny: "Queria de ti um país de bondade e de bruma/ queria de ti o mar de uma rosa de espuma". Lá dentro, há serviço de cafetaria e pratos do dia, com alguma sofisticação, ao almoço. Perto do Clube Literário, temos a Corações Habitados, designação inspirada no poema Coração Habitado, de Eugénio de Andrade. A proprietária, Isabel Dores, fez uma pesquisa por todo o país, em busca de objectos de artesão portugueses, desde os tradicionais aos mais urbanos. Aqui há livros, produtos gourmet, vestuário e sabonetes da Ach. Brito ou Confiança.
O Rádio Bar é uma alternativa no capítulo da noite. É um sítio pequeno, com paredes de pedra, calmo durante a semana, animado e mais electrónico nas noites de sexta-feira e sábado. O Giroflée, no número 1 da rua, é o espaço de restauração mais requintado das redondezas, sem ter um preço exorbitante (uma média de 20 euros por pessoa). A cozinha é de raiz portuguesa, mas com uma apresentação contemporânea. Se estiver numa de tapas, o La Pausa, uns passos à frente, é mais económico.
Falta falar do edifício que dá o nome à rua: a Alfandega Nova, construída sobre estacaria no antigo areal de Miragaia, e inaugurada em 1869. Em 1993, foi restaurada para instalar o Museu dos Transportes e Comunicações, de acordo com um projecto do arquitecto Souto Moura. Por 3 euros, é possível visitar duas exposições permanentes (O Automóvel no Espaço e no Tempo e o Museu das Alfândegas) e a temporária Duas Arquitecturas Alemãs: 1949-1989, até 5 de Fevereiro. Aqui também há uma bela e pouco conhecida biblioteca, onde é possível estudar com o rio Douro como pano de fundo."
Artigo de João Pedro Barros, in Público

sábado, 17 de janeiro de 2009

Rua Adolfo Casais Monteiro

"O espírito da Rua Miguel Bombarda está a alastrar para uma das perpendiculares.
A loja/atelier de Nuno Gama é a nova "estrela" da Rua Adolfo Casais Monteiro, onde têm nascido novos espaços de comércio. Mas nesta viagem também olhámos para o passado.

Numa cidade, os efeitos de contágio são frequentes. De forma virtuosa ou viciosa, hábitos, actividades e camadas sociais vão ocupando certas zonas do espaço urbano, espalhando-se como um vírus. É isto que está a acontecer na Rua Adolfo Casais Monteiro: a proximidade com as galerias de arte e as lojas de comércio alternativo da Rua Miguel Bombarda, que a cruza, tem alterado a face da artéria. Curiosamente, o escritor portuense Adolfo Casais Monteiro (1908-1972) nasceu precisamente em Miguel Bombarda, numa casa com um jardim ligado ao arruamento que viria a ter o seu nome (era então a Rua do Pombal).
Nos últimos anos, esta rua parece ter recuperado alguns habitantes, especialmente jovens. Uma das pessoas que nos ajudaram a perceber esta evolução reside aqui há 37 anos, e sempre viveu nas imediações. Adosinda de Sousa é uma das proprietárias da Da Vinci, uma loja de molduras que ocupa o espaço do antigo bar Aria, e onde pinturas de diferentes estilos ocupam agora as paredes. Hoje, com 59 anos, confirma que a maior parte dos seus vizinhos são jovens, mas lembra-se da rua, na sua infância, como uma zona habitacional de "gente humilde". Mas a recordação mais forte é da Padaria Independente, cujo grande letreiro em azulejo ainda se mantém. "O pão era uma delícia, dos melhores do Porto. Por alturas do São João, a vizinhança ia até lá com a sua assadeira em barro, para meter o cabrito com batata no forno. Parece que ainda sinto o cheiro", descreve.Voltemos ao presente pela porta da antiga Padaria Independente, que é agora um dos pólos ocupados pela Galeria Fernando Santos, uma das pioneiras na Miguel Bombarda. Mesmo ao lado, foi inaugurada em Setembro a loja e atelier do estilista Nuno Gama, que anteriormente estava estabelecido na Foz. A mudança trouxe-lhe mais espaço, mas também lhe permitiu integrar as vertentes criativa e comercial num ambiente "mais intimista", desenhado pelo arquitecto Rodrigo Patrício, explicou o criador ao PÚBLICO. O estabelecimento foi notícia, em Dezembro, por ter sido alvo de um assalto que levou cerca de 200 peças, incluindo a colecção Outono/Inverno 2008. Mais de um mês depois, a loja está recomposta. Uns passos ao lado, na esquina com a Rua Miguel Bombarda, vai nascer a nova loja/atelier do decorador Miguel Costa Cabral.
O único restaurante da rua, inaugurado em 2006, é o Artemísia (um género de plantas a que pertence o absinto ou o estragão), que também funciona como café e bar. O interior, concebido pela arquitecta Ana Costa, denuncia desde logo que se trata de um local requintado: o espaço tem uma forma irregular, e é dominado por tons castanhos. Há sofás e mesas espaçosas, que lhe conferem um ambiente caseiro. Numa das paredes, alguns nichos albergam obras cedidas pela loja de artesanato urbano Águas Furtadas, que se situa no Centro Comercial Bombarda. Uma refeição média ronda os 30 euros, mas o almoço pode ser bem mais económico, já que há três menus executivo, entre os 6,5 e os 13,5 euros. As ervas aromáticas e as especiarias desempenham um papel fundamental na oferta da casa, que tem uma carta variada, com carne, peixe, pratos vegetarianos, massas e risottos. Provámos o tiramisu e podemos recomendá-lo vivamente para a sobremesa.
Música alternativa
De barriga cheia, podemos seguir para a zona da artéria que fica mais perto da Rua D. Manuel II. É aqui, no número 71, que está a nossa sugestão para tomar um copo: o Lobby. Trata-se de um café-bar acolhedor, que até há algumas semanas estava aberto durante a tarde, mas que restringiu o seu horário de funcionamento ao período 21h-2h. A música tem um cariz consideravelmente alternativo, e nas traseiras há um belo pátio, aberto quando as condições climatéricas assim o permitem. No número 63 fica um dos estabelecimentos que nos fazem perceber porque é que Nuno Gama diz que quem se desloca a esta rua procura "alternativas ao déjà vu da cidade": o hair designer Freaks é um dos locais mais famosos do Porto para quem pretende mudar de visual. "A nossa filosofia é fazer um corte bom, que dure, que possa ser mantido em casa. Nós não alteramos a textura dos cabelos", explica o proprietário, Francisco Carvalho. No mesmo edifício, está a loja da marca afilhadedeus, um projecto de vestuário e acessórios fundado por dois artistas plásticos portugueses com formação em pintura, Catarina Enes e Bruno Alves. Todas as peças são únicas ou séries limitadas.
A última sugestão que deixamos é a loja da Cruz Vermelha Portuguesa, no número 37. Trata-se de um bom local para encontrar pechinchas, já que a maioria dos produtos (roupa, sapatos, brinquedos ou loiças) é em segunda-mão. Para além disso, qualquer compra é uma forma de ajudar a instituição humanitária."
Artigo de João Pedro Barros, in Público

segunda-feira, 15 de dezembro de 2008

Rua da Picaria

"Ainda se compram móveis aqui, mas a rua onde nasceu Sá Carneiro está a mudar

Nesta artéria conhecida pelas marcenarias já há um bar e uma galeria, e começam a chegar novos habitantes. Estará a nascer um novo centro cosmopolita?



Para a maior parte dos portuenses, a Rua da Picaria é sinónimo de móveis. A carpintaria e a marcenaria, a par da venda de mobiliário, ainda é a actividade dominante, mas o negócio atravessa um período de acentuada decadência. Ao mesmo tempo, sente-se nesta rua um sopro de modernidade que promete mudar a sua face nos próximos anos.
O expoente máximo desta renovação é a galeria de ilustração e desenho Dama Aflita, que abriu em Novembro. O espaço é pequeno, mas suficiente para albergar obras nestes suportes. "Queremos fomentar coisas de bairro, criar situações de diálogo, por exemplo, com as lojas de mobiliário", adianta Júlio Dolbeth, ilustrador, docente universitário e um dos promotores. O artista madrileno Luís Urculo, com trabalhos em técnica mista, é o primeiro a expor na galeria, que é "pioneira em Portugal" na sua abordagem. Na sala das traseiras está a Cinbol, uma empresa de organização de eventos e consultoria, nomeadamente de imagem. Estará a rua a ser contaminada pelos ares cosmopolitas da vizinha José Falcão, ou mesmo de Miguel Bombarda? Inês Costa e Simão Bolívar, os dois sócios da Cinbol, e Júlio Dolbeth, todos moradores na Baixa do Porto, acham que sim, e que as indústrias criativas vão dar cartas.
Nas lojas de móveis, o sentimento é distinto. O PÚBLICO visitou algumas (garantiram-nos que há seis em actividade, mas nem todas estavam abertas) e percebeu que está a terminar um ciclo. Há falta de condições de estacionamento e a maioria das peças tem um design datado. A actividade sobrevive graças a um punhado de clientes fiéis e de meia-idade. Os comerciantes resignam-se e também aceitam culpas: "Nunca estivemos unidos, e há coisas que não se pode mudar sozinho", admite José Carvalho, da Carvalho & Cunha, Lda.
Rua de "boas famílias"
Quem chegou a prometer mudar o país foi a mais célebre personalidade nascida nesta artéria íngreme, em 1934: Francisco Sá Carneiro. O primeiro presidente do PSD cresceu no número 49, uma casa ampla e própria de uma família burguesa, e montou ainda, do outro lado da rua, o seu escritório de advocacia. Hoje, é Miguel Veiga, também ele fundador do partido, que exerce a actividade na Picaria.
Ao andar de porta em porta, encontrámos o cicerone ideal para conhecer a história da vizinhança: Reinaldo Pereira, gerente de O Ernesto, restaurante de cozinha tradicional portuguesa, no número 85. O actual proprietário tomou conta do negócio em 1990, depois de o herdar do seu pai, Ernesto Pereira, que comprou o estabelecimento em 1968. Reinaldo Pereira viveu na Picaria desde os 14 anos, mesmo por cima do restaurante, e fala de uma rua de "boas famílias", onde antigamente "até vinha gente de Lisboa" comprar mobiliário. Do passado, guarda um episódio marcante: o dia da morte de Sá Carneiro, quando a massa humana que aguardava o comício em que o político deveria estar presente, no Coliseu, se dirigiu para a rua, após a notícia do acidente em Camarate. "Isto estava cheio de gente aos gritos, a gritar contra os comunistas. Era de arrepiar", relembra. Quanto ao restaurante, não se deixe enganar pelos azulejos datados da entrada: eles são o que resta dos distantes anos 60, porque agora O Ernesto tem duas acolhedoras salas (e até um pátio) nas traseiras, com uma pequena cascata e quadros de Henrique do Vale e Augusto Canedo. A comida é tradicional e de sabor caseiro e um cliente ponderado até pode sair de lá com uma conta de apenas dez euros.
Onde também há quadros nas paredes é na Moldursant, uma loja de molduras e materiais para Belas-Artes que já data de 1917. Esta casa é uma das referências do Porto para artistas e estudantes da área e consegue escapar à crise mais profunda dos "vizinhos" do mobiliário. Obras de artistas como Sobral Centeno e Júlio Resende foram sendo doadas à gerência e servem agora de decoração à loja. Alguns jovens artistas também deixam trabalhos em exposição na Moldursant, o que a torna numa espécie de galeria. Continuando nas artes, acrescente-se que o Teatro Art'Imagem tem aqui instalações. E resta-nos falar do Rosa Escura (o nome vem do seu papel de parede), por ora o único bar da rua. Só abre à noite, e o ambiente é calmo e acolhedor. Nesta antiga loja de bicicletas, há sempre peças de joalharia, quadros e esculturas em exposição.
Para quem se questiona sobre a origem do nome da rua, aqui vai a resposta: falar em picaria é o mesmo que falar em equitação e sabe-se que a artéria tinha várias actividades relacionadas com os cavalos, até ao primeiro quartel do século XX. Depois vieram os móveis. Estaremos na fase da transição para uma nova Picaria? Reinaldo Pereira julga que sim, e garante que um prédio recentemente recuperado tem os seus sete apartamentos "já alugados", e que se fala em mais projectos de reabilitação.
O PÚBLICO pôde verificar obras em pelo menos um imóvel. A Picaria parece estar a recuperar alguns moradores, principalmente jovens, depois de um processo de desertificação iniciado nos anos oitenta."

Artigo de João Pedro Barros, in Público

domingo, 7 de dezembro de 2008

Rua do Bonjardim

" Na rua onde nasceu a francesinha, é a degradação que hoje mais ordena

Na rua do Bonjardim, há de tudo, muitas casas desabitadas e muita tristeza. Mas, numa rua onde o tempo parou, também encontramos coisas boas

A "Esta deve ser a pior rua do Porto, em termos de piso, casas e frequência." O aviso é feito pelo advogado Coutinho Ribeiro, que há quase 20 anos tem escritório montado na vizinha Rua de Fernandes Tomás, e que todos os dias percorre parte da artéria a pé. A história da Rua do Bonjardim tem muito de bas fond.
Aqui se concentram trabalhadoras do sexo e muitos dos bares de alterne e striptease da cidade. "As prostitutas são muito simpáticas, até parecem ter vergonha de existir, mas nos últimos anos são mais novas e mais agressivas, pedem cigarros ou uma moeda para comer um bolo", conta o jurista. As zaragatas são, ainda assim, ocasionais: "Fazem uma gritaria e puxam o cabelo umas às outras, mas passa depressa." Ao lado, quando o dia corre mal no Bolhão, há vendedoras com cestos de hortaliças ou meias.
O retrato é sombrio, mas é muito difícil pintá-lo de outra cor. O PÚBLICO percorreu os mais de 1,5 quilómetros do arruamento, desde a Rua de Sá da Bandeira até ao Marquês, e encontrou um universo que vai escurecendo à medida que se avança. Até às traseiras do Palácio dos Correios, a reabilitação urbana da Porto 2001 "lavou a cara" da rua, mas a partir daí quase só se vêem "pedras sujas e gastas", como canta Rui Veloso em Porto sentido. Para lá do cruzamento com a Rua de Gonçalo Cristóvão, o panorama chega a ser aterrador: parece que se sai da cidade e se entra numa aldeia desabitada, de casas em ruínas, onde sobrevivem velhas tascas com sardinhas fritas e couratos expostos nas montras e cafés onde se jogam cartas às escuras "para poupar na luz". A reabilitação urbana está a anos-luz de distância da antiga estrada de Guimarães, durante décadas uma das principais saídas da cidade.
Mas também há histórias mais alegres para contar. A mais conhecida de todas é a do nascimento da francesinha, no restaurante Regaleira, no pequeno troço da artéria que fica entre a Rua de Sá da Bandeira e a Rua do dr. Magalhães Lemos.
A autoria desta criação pode não ser tão debatida como a da Ilíada, mas aqui o Homero é Daniel David Silva, um ex-emigrante que pegou na tradição da tosta francesa (ou croque-monsieur), adicionando-lhe molho, e criando uma iguaria que rapidamente ganhou fama. Corria o ano de 1953 e um dos actuais sócios, Augusto Marinho, era então seu ajudante. Hoje, guarda consigo o segredo do molho (que é bem picante), e mantém a tradição de usar carne assada entre fatias de pão de bijou, o que lhe permite dizer que a sua francesinha é "única". Como os juízos de valor são complicados, só podemos garantir que, por ser tão purista, se trata de uma versão diferente. Augusto Marinho ironiza: "Se tivesse registado a patente, agora éramos donos do mundo."

O charme d'A Brasileira

A Regaleira é um restaurante para encher a barriga, sem grandes luxos, à imagem da rua. Porém, a poucos metros, há algo completamente diferente: o Caffé di Roma, que ocupa a "sala pequena" do antigo e centenário café A Brasileira, faz do charme a sua grande arma. Quase em frente à Regaleira, há o Rei dos Queijos, outro local onde impera a tradição.
Aberto em 1933, é actualmente um pequeno café/pastelaria que continua a ter o queijo da Serra de marca própria, feito de leite de ovelha bordaleira, como o grande expoente. Depois, há pequenas delícias como os pastéis de Tentúgal e de feijão ou queijadas. Tudo o que experimentámos mereceu aprovação. Mais sugestões gastronómicas: as bifanas da Conga e a comida regional do Ginjal do Porto e do mítico Antunes.
Mudando de assunto, falemos de mercearias finas, à imagem de outros tempos. Acima do cruzamento com Fernandes Tomás, há duas que respiram saúde: a Feira do Bacalhau (aberta desde 1925, promete "o melhor bacalhau da cidade") e o Pretinho do Japão. Para comprar livros, duas sugestões: a Livros Bonjardim, no número 398, um alfarrabista com um gigantesco armazém; para banda desenhada, há a Central Comics.
Voltemos ao lado negro, num tom humorístico: no segmento mais obscuro da rua, há uma série de estabelecimentos que disputam o título de nome mais cómico da cidade. Os candidatos são o restaurante Sai Cão, o salão Beleza Rara e o night club Ana Paula. Não entrámos em nenhum destes sítios, mas ficámos a conhecer o Pride Bar, quase junto ao Marquês. Faz parte do roteiro gay da cidade, e tem espectáculos com travestis, strip-tease ocasional e pista de dança. É um dos locais da cidade com as portas abertar até mais tarde.
Descendo um pouco, até ao número 1254, encontra-se um belíssimo palacete abandonado, engolido pelas silvas, e mesmo em frente à Rua do Paraíso há um fontanário em pedra, a Fonte de Villa Parda, que data de 1859 e está agora sem água.
São duas belas metáforas de uma rua marcada em quase toda a sua extensão por "polidores de esquinas", reformados em passeio higiénico, cafés onde gente sem trabalho beberica um fino a meio da tarde. Em muitos momentos, parece que aqui se parou no tempo."

Artigo de João Pedro Barros, in Público

De facto esta rua será provavelmente das que mais estranheza causará a quem percorre a cidade. Como é dito no artigo, apesar de ser bastante longa, funciona por pedaços descontínuos que fazem com que perdamos a noção de rua no seu todo.
Não posso deixar de acrescentar que a meio desta rua, algures entre o Marquês e a Trindade, em local semi-esncondido fica um restaurante bem simpático do qual já tenho bastantes saudades, a Taberna D. Castro,vale a pena!

domingo, 30 de novembro de 2008

Rua de Passos Manuel


"A tradição e a vanguarda lado a lado naquela que já não é só "a rua do ColiseuA Rua de Passos Manuel tem boémia e algumas das propostas culturais mais arrojadas do Porto, mas também há francesinhas e tartes de maçã à moda das nossas avós.


A Manuel da Silva Passos, ou Passos Manuel, é conhecido como um herói liberal, ligado à facção mais radical da revolução que mudou o país no século XIX. Porém, o político nascido em Guifões também revelou uma grande tendência para o consenso, na sua acção parlamentar e governativa. Na rua a que deu nome, e que começou a ser aberta em 1874, também convivem, em grande harmonia, conceitos tradicionais e vanguardistas. Aqui há lojas e restaurantes cheios de história, mas também locais de cultura e diversão que primam pelo cosmopolitismo.
Comecemos precisamente pela cultura, e pela referência obrigatória que é o Coliseu do Porto. Salvo, em 1995, de ser sala de culto da Igreja Universal do Reino de Deus, o espaço, com marcas de Art Déco, é actualmente um lugar de acolhimento de espectáculos, sem grande critério artístico. Por isso, as notícias de vanguardismo vêm de outros locais. Em 2001, abriu o Maus Hábitos, um café-bar e espaço de intervenção cultural, mesmo em frente ao Coliseu. Em 2004, o antigo cinema Passos Manuel reabriu como bar e sala de espectáculos. Desde 2006, há ainda o Pitch Club, que combina o bar do primeiro andar com a pista de dança do piso inferior, ao estilo dos clubs ingleses. Desde que abriu, tornou-se um dos locais da moda da noite portuense, dentro de uma gama média-alta. Por isso, há consumo obrigatório, que costuma rondar os 5-10 euros, dependendo dos DJ convidados. A estrela nacional é DJ Kitten, e o seu Cherry Bomb Club, com disco, punk e rock & roll. Aos fins-de-semana, muita gente acaba aqui a noite.
O Maus Hábitos e o Passos Manuel têm outra filosofia, sem consumo obrigatório, em que os concertos e a produção artística são o grande objectivo, e o álcool paga as contas. O primeiro localiza-se no quarto andar de um edifício que serve de parque automóvel, banal à primeira vista, mas com uma larga história. Foi construído em 1938, para receber os carros dos visitantes do Coliseu, e tinha um conceito arrojado: era um centro de serviços com barbearia, tabacaria, uma zona de banhos públicos e, diz-se, até um bordel. O Maus Hábitos ocupa o espaço dos antigos escritórios, e a sua estrutura labiríntica alberga várias exposições. Entre as 12h30 e as 15h também há almoços. Do outro lado da rua, o Passos Manuel destaca-se pela programação do seu auditório - onde cabe música, cinema, teatro e performance -, porventura a mais ousada da cidade. O projecto de António Guimarães, um veterano da noite portuense, compreende ainda o bar de apoio e uma claustrofóbica cave/discoteca, um dos portos seguros da boémia na Invicta.
E, para algo completamente diferente, por que não um corte de cabelo? Os Anjos Urbanos (localizados na loja de entrada do Centro Comercial Invictos) têm a fama de ser um dos cabeleireiros mais arrojados da cidade, mas só levam a experiência até onde o cliente o desejar. Neste salão, frequentado por pessoas de todas as idades, não há revistas de coração espalhadas pelas mesas, e a música anda por territórios chill-out ou étnicos. O preço dos cortes é de 25-30 euros (homens) e 30-40 euros (mulheres).
Uma rua para bons garfos
O lado mais tradicional da artéria passa, essencialmente, pela restauração. A Casa das Tortas data de meados do século XIX e está instalada no número 181 da Passos Manuel há mais de 100 anos. Os pastéis de chaves (agora também em variante vegetariana) são a grande especialidade, e podem ser apreciados num aconchegante recanto em pedra, recentemente remodelado. Nas mãos do mesmo proprietário, Amarílio Barbosa, está também, há cerca de três anos, o restaurante Escondidinho, inaugurado em 1931. A lista de antigos clientes inclui o rei Juan Carlos de Espanha ou Mário Soares, e este era um dos locais de eleição de Francisco Sá Carneiro, que tinha mesa marcada no dia da sua morte. No interior, ao estilo das velhas casas solarengas do Norte de Portugal, há um relógio de cuco com cerca de 200 anos e valiosas faianças portuguesas. As especialidades são o bacalhau à Escondidinho, a lagosta gratinada, o entrecosto grelhado e a tarte de maçã, que chegou a merecer referência no Guia Michelin. Uma refeição completa ronda, pelo menos, os 20 euros, e quem quiser encontrar uma alternativa mais barata tem o poiso perfeito no Café Santiago. Parece um snack-bar vulgar, mas está aqui uma das melhores (senão a melhor) francesinhas do Grande Porto. O Santiago data de 1940, mas a actual proprietária, Isabel Ferreira, tomou conta do café em 1981.
Também há história no Bingo Olympia, um antigo cinema inaugurado em 1912, no Ateneu Comercial do Porto, e em estabelecimentos comerciais como a Casa Figueiredo (aberta em 1926), o Armazém dos Linhos ou a Central dos Forros, uma retrosaria à moda antiga. E fiquemos com uma última nota do passado: Daniel Pires, um dos sócios do Maus Hábitos, pesquisou a história do "seu" edifício e descobriu que o circo no Porto, desde o século XIX, se fazia na parte alta da Passos Manuel. Agora, está lá o Coliseu, e, porque há coisas que nunca mudam, o circo está de volta em Dezembro."

Artigo de João Pedro Barros, in Público

domingo, 2 de novembro de 2008

Rua José Falcão

A segunda vida da rua que se tornou num novo centro cosmopolita do Porto

O Café Lusitano chegou primeiro e, atrás dele, vieram outros empreendedores que descobriram o potencial de uma artéria que era quase só visitada pelos clientes das livrarias.

Muita coisa mudou na Rua de José Falcão, nos últimos anos. Por exemplo, Rogério, o acordeonista cego que animava a artéria quase diariamente, faleceu no ano passado. Quisemos saber mais: na estação de camionagem, a poucos passos de onde ganhava a vida, disseram-nos que andava na casa dos 60 anos e que tocava naquela rua há mais de 30, mesmo morando longe, perto de Vila do Conde. Depois, a conversa com o funcionário foi azedando: "Está aqui no nosso horário de trabalho, sem se identificar, a tirar dados...".
Interpelamos uma das poucas moradoras da rua, que apenas confirmou que a família afixou um cartaz na esquina onde tocava, a confirmar o falecimento, a 1 de Maio de 2007. Mas também não foi possível saber o nome desta fonte: "Isso não interessa nada".
Com esta introdução, pode parecer que a Rua de José Falcão é um segredo de Estado, mas a verdade é que ela está cada vez mais popular. O marco fundamental foi a abertura do Café Lusitano (a 4 de Fevereiro de 2005), que se tornou rapidamente num dos locais predilectos para o início da noite portuense, atraindo um público cosmopolita, dos 25 aos 55 anos. Hoje, em plena explosão do regresso da noite à Baixa, o Lusitano já tem a companhia do Armazém do Chá. Esta agitação convive lado a lado com uma indústria mais tradicional, a livreira. Nos pouco mais de 200 metros desta rua, há razões para acreditar que algo de bom está a acontecer no Porto.
Pode parecer um conto de fadas, mas atrás de cada porta descobrimos algo de criativo. Por exemplo, no número 199: o edifício de aspecto neo-árabe, revestido a azulejos e que muitos na cidade já davam por perdido, é há cerca de oito meses a sede de uma empresa de têxteis, a Fortiustex, que trabalha para a gama alta de mercado. "Precisávamos de um edifício que espelhasse dinâmica, criatividade, inovação", explica o dinamarquês Lars Eckardt, director-geral da empresa. No interior, tentou-se preservar ao máximo os materiais originais deste antigo armazém-mostruário da Fábrica de Cerâmica das Devesas, datado de cerca de 1890. O espaço não está aberto ao público, mas vale a pena observar a fachada, pensada para exibir a superioridade técnica da fábrica. E este não é caso único: do lado oposto da rua, a antiga sede da Associação de Futebol do Porto deu lugar à imobiliária Paçogeste, que recuperou o imóvel e que cede algumas salas a exposições da galeria Parábola, que se concentra nos novos valores. No piso térreo, está a loja do estilista setubalense Luís Buchinho. Nas traseiras, funciona o seu atelier, há cerca de um ano. Quase em frente, um grupo francês investe na reabilitação das antigas instalações da Associação Cristã da Mocidade, onde se vai instalar a Atelier des Créateurs, uma alfaiataria dedicada à gama média-alta e que vai alimentar lojas em Paris, contou ao PÚBLICO o administrador delegado, Ricardo Conceição.
A noite começa aqui
Poder-se-ia dizer que a Rua de José Falcão brilha mais à noite, se não fossem as queixas dos comerciantes sobre a falta de iluminação (e de limpeza). Os problemas começaram depois das obras na vizinha Rua de Ceuta, já concluídas: "A luz é a dos reclames do Banco Espírito Santo, do Lusitano e a nossa", queixa-se Sérgio Ribeiro, um dos proprietários do Armazém do Chá (juntamente com Rui Miguel Silva, conhecido por DJ Tilinhos). Inaugurado em Abril, é mais um farol do novo circuito de bares portuense: do primeiro andar, pode-se espreitar a rua e beber um copo de vinho ou um chá, acompanhado de umas bolachinhas.
Entre o Lusitano e o Armazém do Chá, encontram-se algumas semelhanças, a começar pelo passado dos respectivos espaços: o primeiro era uma venda de moagens (da qual se conserva parte do que é agora o balcão); no segundo, empacotava-se chá. No presente, aos fins-de-semana, ambos têm gente à porta e dão azo a um pé de dança. Porém, os dois espaços diferem no público nocturno alvo, mais velho no Lusitano, que tem a marca gay friendly. O bar de João Madureira, decorador de interiores, e de Mário Carvalho, proprietário da discoteca Indústria, também tem uma decoração mais clássica e acolhedora, mesclando objectos de influência oriental com outros dos séculos XVII ou XVIII. O Armazém do Chá aposta mais nos eventos (jam sessions e concertos ao vivo), enquanto o Lusitano opta por um registo musical relativamente conservador.
Durante o dia, vale a pena passar os olhos pelas estantes das livrarias Leitura, de âmbito generalista, e Britânica. Esta última até pondera abrir fora de horas, para aproveitar o movimento nocturno, e já tem um pequeno recanto em jeito de galeria de arte. Em Dezembro, à entrada do Centro Comercial Lumière, abriu a Era Uma Vez..., dedicada à literatura infanto-
-juvenil. E, voltando à noite, há ainda a referir que deve surgir na rua um novo bar, nos próximos meses. "Acho que já nem há mais espaços para alugar", conta Sérgio Ribeiro. Ao que parece, há mesmo algo a acontecer por aqui.

Artigo de João Pedro Barros, in Público