Vem, Chuva, Vem
Molhar os meus sentidos
Ressentidos da poluição
Vem, Chuva, Vem
Leva-me do peito a saudade
E a solidão
Vem, Chuva, Vem
Lavar os meus cabelos
E os dedos amarelos do fumo
Vem, Chuva, Vem
Encher a maré
Dar movimento a este barco sem rumo
Haja o que houver
A chuva não há-de acabar
E seja lá como for
Este velho Mundo continua a girar
Vem, Chuva, Vem
Molhar os meus sentidos
Ressentidos da poluição
Vem, Chuva, Vem
Leva-me do peito a saudade
E a solidão
Vem, Chuva, Vem
Lavar os meus cabelos
E os dedos amarelos do fumo
Vem, Chuva, Vem
Encher a maré
Dar movimento a este barco sem rumo
Espaços sem fim
Mudanças na palma da mão
Para alguns é fácil voar, é
Outros, por mais que tentem, nunca saem do chão
Vem, Chuva, Vem
Molhar os meus sentidos
Ressentidos da poluição
Vem, Chuva, Vem
Leva-me do peito a saudade
E a solidão
Vem, Chuva, Vem
Lavar os cabelos
E os dedos amarelos do fumo
Vem, Chuva, Vem
Encher a maré
Dar movimento a este barco sem rumo
in Acto Contínuo (1982)
sábado, 31 de janeiro de 2009
sábado, 24 de janeiro de 2009
Rua Nova da Alfândega
"Esta rua podia chamar-se " Rua da Poesia"
As palavras de Cesariny ou de Eugénio de Andrade dão o mote a uma artéria onde há bares, restaurantes, artesanato português e muita cultura despretensiosa.
Não se sabe bem como, mas o vírus da poesia parece ter contagiado toda a Rua Nova da Alfândega. Senão, vejamos: aqui temos o Clube Literário do Porto, onde há vários eventos ligados à arte de fazer versos, e as noites poéticas do bar Púcaros e do Clube das Avós. Para além disso, o café Porto Rosa e a loja de artesanato português Coração Habitado devem pelo menos o nome à poesia. Antes que o portuense mais atento comece a abanar a cabeça com um ar reprovador, assumimos a batota: neste texto, "anexamos" a Rua de Miragaia e o Largo da Alfândega. Não nos parece nada disparatado: foi a abertura da Rua Nova da Alfândega (entre 1869 e 1871), necessária para a ligação do edifício ao centro da cidade, que desenhou a actual configuração da Rua de Miragaia. Agora, é uma espécie de cave, amparada por um muro e dividida a meio pelo Largo da Alfândega.
A área geográfica aqui abordada, dividida entre as freguesias de São Nicolau e de Miragaia, é uma das mais rústicas da cidade e mantém um ambiente de bairro. "Ainda se ouvem as mães à janela a chamar os miúdos", nota Maria Inês Castanheira, programadora do Clube Literário do Porto. São esses mesmos miúdos que andam pendurados no eléctrico da Linha 1 - "o condutor até pára o veículo para lhes ralhar" - e que descem a vizinha Rua do Comércio do Porto de bicicleta, a alta velocidade, sem muita preocupação pelos transeuntes. Jorge Andrade, proprietário do atelier de escultura e cerâmica Arcos de Miragaia, prefere destacar que os habitantes são "pobres, mas solidários". No seu espaço, recebe crianças da zona ou dos problemáticos bairros do Aleixo e do Lagarteiro, especialmente durante o Verão, e também vende as suas obras, a partir de 10 euros. Até 2001, Jorge Andrade nunca tinha modelado uma única peça, mas um curso desenvolvido no âmbito da extinta Fundação para o Desenvolvimento da Zona Histórica do Porto despertou-lhe a curiosidade. No entanto, confessa que é o único dos 16 alunos, com "problemas de droga e marginalidade", que "sobreviveu" com os ensinamentos daí retirados. As suas curiosas e despretensiosas criações justificam uma visita.
A tertúlia mais antiga
A área geográfica aqui abordada, dividida entre as freguesias de São Nicolau e de Miragaia, é uma das mais rústicas da cidade e mantém um ambiente de bairro. "Ainda se ouvem as mães à janela a chamar os miúdos", nota Maria Inês Castanheira, programadora do Clube Literário do Porto. São esses mesmos miúdos que andam pendurados no eléctrico da Linha 1 - "o condutor até pára o veículo para lhes ralhar" - e que descem a vizinha Rua do Comércio do Porto de bicicleta, a alta velocidade, sem muita preocupação pelos transeuntes. Jorge Andrade, proprietário do atelier de escultura e cerâmica Arcos de Miragaia, prefere destacar que os habitantes são "pobres, mas solidários". No seu espaço, recebe crianças da zona ou dos problemáticos bairros do Aleixo e do Lagarteiro, especialmente durante o Verão, e também vende as suas obras, a partir de 10 euros. Até 2001, Jorge Andrade nunca tinha modelado uma única peça, mas um curso desenvolvido no âmbito da extinta Fundação para o Desenvolvimento da Zona Histórica do Porto despertou-lhe a curiosidade. No entanto, confessa que é o único dos 16 alunos, com "problemas de droga e marginalidade", que "sobreviveu" com os ensinamentos daí retirados. As suas curiosas e despretensiosas criações justificam uma visita.
A tertúlia mais antiga
Mas retomemos o tema principal, a poesia, pelo exemplo do Clube Literário do Porto. Pertença da Fundação Luís Araújo, e inaugurado em 2005, este é um espaço multifuncional que combina livraria, piano-bar, duas galerias, auditório e uma agenda cultural diversificada e de entrada gratuita. Às sextas e sábados à noite, há música clássica ou jazz e os eventos poéticos permanentes são mensais: a tertúlia Quartas mal ditas, na última semana de cada mês, e Poesia de choque. Nestes eventos, cruzam-se alguns dos nomes que fazem a mais famosa noite de poesia do Porto: é no bar Púcaros, nas arcadas da Rua de Miragaia, e dá-se religiosamente às quartas-feiras, depois do toque de uma sineta, para lá das 23h00. De acordo com o proprietário, Carlos Pinto, trata-se da "tertúlia poética ininterrupta mais antiga da cidade", levando já 12 anos. Os novatos que queiram declamar são sempre bem-vindos. Para ajudar a descontrair, o ex libris é a sangria, servida nos púcaros que dão o nome à casa. Para terminar, há o Clube das Avós, que na primeira sexta-feira de cada mês organiza sessões de poesia, na Junta de Freguesia de São Nicolau. O evento é aberto ao público em geral.
Mas a torrente poética não acaba aqui. O café Porto Rosa, no Largo da Alfândega, tem nos vidros dois dos versos mais famosos de Mário Cesariny: "Queria de ti um país de bondade e de bruma/ queria de ti o mar de uma rosa de espuma". Lá dentro, há serviço de cafetaria e pratos do dia, com alguma sofisticação, ao almoço. Perto do Clube Literário, temos a Corações Habitados, designação inspirada no poema Coração Habitado, de Eugénio de Andrade. A proprietária, Isabel Dores, fez uma pesquisa por todo o país, em busca de objectos de artesão portugueses, desde os tradicionais aos mais urbanos. Aqui há livros, produtos gourmet, vestuário e sabonetes da Ach. Brito ou Confiança.
O Rádio Bar é uma alternativa no capítulo da noite. É um sítio pequeno, com paredes de pedra, calmo durante a semana, animado e mais electrónico nas noites de sexta-feira e sábado. O Giroflée, no número 1 da rua, é o espaço de restauração mais requintado das redondezas, sem ter um preço exorbitante (uma média de 20 euros por pessoa). A cozinha é de raiz portuguesa, mas com uma apresentação contemporânea. Se estiver numa de tapas, o La Pausa, uns passos à frente, é mais económico.
Falta falar do edifício que dá o nome à rua: a Alfandega Nova, construída sobre estacaria no antigo areal de Miragaia, e inaugurada em 1869. Em 1993, foi restaurada para instalar o Museu dos Transportes e Comunicações, de acordo com um projecto do arquitecto Souto Moura. Por 3 euros, é possível visitar duas exposições permanentes (O Automóvel no Espaço e no Tempo e o Museu das Alfândegas) e a temporária Duas Arquitecturas Alemãs: 1949-1989, até 5 de Fevereiro. Aqui também há uma bela e pouco conhecida biblioteca, onde é possível estudar com o rio Douro como pano de fundo."
Artigo de João Pedro Barros, in Público
segunda-feira, 19 de janeiro de 2009
sábado, 17 de janeiro de 2009
Rua Adolfo Casais Monteiro
"O espírito da Rua Miguel Bombarda está a alastrar para uma das perpendiculares.
A loja/atelier de Nuno Gama é a nova "estrela" da Rua Adolfo Casais Monteiro, onde têm nascido novos espaços de comércio. Mas nesta viagem também olhámos para o passado.
Numa cidade, os efeitos de contágio são frequentes. De forma virtuosa ou viciosa, hábitos, actividades e camadas sociais vão ocupando certas zonas do espaço urbano, espalhando-se como um vírus. É isto que está a acontecer na Rua Adolfo Casais Monteiro: a proximidade com as galerias de arte e as lojas de comércio alternativo da Rua Miguel Bombarda, que a cruza, tem alterado a face da artéria. Curiosamente, o escritor portuense Adolfo Casais Monteiro (1908-1972) nasceu precisamente em Miguel Bombarda, numa casa com um jardim ligado ao arruamento que viria a ter o seu nome (era então a Rua do Pombal).
Nos últimos anos, esta rua parece ter recuperado alguns habitantes, especialmente jovens. Uma das pessoas que nos ajudaram a perceber esta evolução reside aqui há 37 anos, e sempre viveu nas imediações. Adosinda de Sousa é uma das proprietárias da Da Vinci, uma loja de molduras que ocupa o espaço do antigo bar Aria, e onde pinturas de diferentes estilos ocupam agora as paredes. Hoje, com 59 anos, confirma que a maior parte dos seus vizinhos são jovens, mas lembra-se da rua, na sua infância, como uma zona habitacional de "gente humilde". Mas a recordação mais forte é da Padaria Independente, cujo grande letreiro em azulejo ainda se mantém. "O pão era uma delícia, dos melhores do Porto. Por alturas do São João, a vizinhança ia até lá com a sua assadeira em barro, para meter o cabrito com batata no forno. Parece que ainda sinto o cheiro", descreve.Voltemos ao presente pela porta da antiga Padaria Independente, que é agora um dos pólos ocupados pela Galeria Fernando Santos, uma das pioneiras na Miguel Bombarda. Mesmo ao lado, foi inaugurada em Setembro a loja e atelier do estilista Nuno Gama, que anteriormente estava estabelecido na Foz. A mudança trouxe-lhe mais espaço, mas também lhe permitiu integrar as vertentes criativa e comercial num ambiente "mais intimista", desenhado pelo arquitecto Rodrigo Patrício, explicou o criador ao PÚBLICO. O estabelecimento foi notícia, em Dezembro, por ter sido alvo de um assalto que levou cerca de 200 peças, incluindo a colecção Outono/Inverno 2008. Mais de um mês depois, a loja está recomposta. Uns passos ao lado, na esquina com a Rua Miguel Bombarda, vai nascer a nova loja/atelier do decorador Miguel Costa Cabral.
O único restaurante da rua, inaugurado em 2006, é o Artemísia (um género de plantas a que pertence o absinto ou o estragão), que também funciona como café e bar. O interior, concebido pela arquitecta Ana Costa, denuncia desde logo que se trata de um local requintado: o espaço tem uma forma irregular, e é dominado por tons castanhos. Há sofás e mesas espaçosas, que lhe conferem um ambiente caseiro. Numa das paredes, alguns nichos albergam obras cedidas pela loja de artesanato urbano Águas Furtadas, que se situa no Centro Comercial Bombarda. Uma refeição média ronda os 30 euros, mas o almoço pode ser bem mais económico, já que há três menus executivo, entre os 6,5 e os 13,5 euros. As ervas aromáticas e as especiarias desempenham um papel fundamental na oferta da casa, que tem uma carta variada, com carne, peixe, pratos vegetarianos, massas e risottos. Provámos o tiramisu e podemos recomendá-lo vivamente para a sobremesa.
Música alternativa
De barriga cheia, podemos seguir para a zona da artéria que fica mais perto da Rua D. Manuel II. É aqui, no número 71, que está a nossa sugestão para tomar um copo: o Lobby. Trata-se de um café-bar acolhedor, que até há algumas semanas estava aberto durante a tarde, mas que restringiu o seu horário de funcionamento ao período 21h-2h. A música tem um cariz consideravelmente alternativo, e nas traseiras há um belo pátio, aberto quando as condições climatéricas assim o permitem. No número 63 fica um dos estabelecimentos que nos fazem perceber porque é que Nuno Gama diz que quem se desloca a esta rua procura "alternativas ao déjà vu da cidade": o hair designer Freaks é um dos locais mais famosos do Porto para quem pretende mudar de visual. "A nossa filosofia é fazer um corte bom, que dure, que possa ser mantido em casa. Nós não alteramos a textura dos cabelos", explica o proprietário, Francisco Carvalho. No mesmo edifício, está a loja da marca afilhadedeus, um projecto de vestuário e acessórios fundado por dois artistas plásticos portugueses com formação em pintura, Catarina Enes e Bruno Alves. Todas as peças são únicas ou séries limitadas.
A última sugestão que deixamos é a loja da Cruz Vermelha Portuguesa, no número 37. Trata-se de um bom local para encontrar pechinchas, já que a maioria dos produtos (roupa, sapatos, brinquedos ou loiças) é em segunda-mão. Para além disso, qualquer compra é uma forma de ajudar a instituição humanitária."
Artigo de João Pedro Barros, in Público
quinta-feira, 15 de janeiro de 2009
Jorge Palma - Cantiga do Zé
O Zé não sabe onde pôr as mãos
E está farto de as ter no ar
Não teve sorte com os padrinhos
Nem tem jeito para roubar
O Zé podia arranjar emprego
E matar-se a trabalhar
Mas olha em volta e o que vê
Não o pode entusiasmar
E a cidade cá está para o entreter
Indiferente e fria, disposta a esquecer
Que a ansiedade é um minotauro
Que se alimenta de solidão
E que a ternura é uma bruxa
Que faz milagres
Se a mente a deixar ser
O Zé está vivo e é das tais pessoas
Que sentem prazer em rir
Mas tenho visto ultimamente
Esse gosto diminuir
O Zé experimenta um certo vazio
Comum a uma geração
Que despertou da adolescência
Com "vivas" à revolução
E a cidade cá está para o entreter
Indiferente e fria, disposta a esquecer
Que a ansiedade é um minotauro
Que se alimenta de solidão
E que a ternura é uma bruxa
Que faz milagres
Se a mente a deixar ser
E está farto de as ter no ar
Não teve sorte com os padrinhos
Nem tem jeito para roubar
O Zé podia arranjar emprego
E matar-se a trabalhar
Mas olha em volta e o que vê
Não o pode entusiasmar
E a cidade cá está para o entreter
Indiferente e fria, disposta a esquecer
Que a ansiedade é um minotauro
Que se alimenta de solidão
E que a ternura é uma bruxa
Que faz milagres
Se a mente a deixar ser
O Zé está vivo e é das tais pessoas
Que sentem prazer em rir
Mas tenho visto ultimamente
Esse gosto diminuir
O Zé experimenta um certo vazio
Comum a uma geração
Que despertou da adolescência
Com "vivas" à revolução
E a cidade cá está para o entreter
Indiferente e fria, disposta a esquecer
Que a ansiedade é um minotauro
Que se alimenta de solidão
E que a ternura é uma bruxa
Que faz milagres
Se a mente a deixar ser
in Asas e Penas (1984)
quarta-feira, 14 de janeiro de 2009
quinta-feira, 25 de dezembro de 2008
sábado, 20 de dezembro de 2008
Air - Playground Love
Mais uma música linda com uns anitos! Em tempos arranjei uma versão feita pelos próprios Air para vibrafone, mas entretanto perdi-a...banda sonora de Virgens Suicidas, filme inesquecível de estreia como realizadora da Sofia Coppola, vi-o no já encerrado Nun'Álvares, numa das melhores noites que já tive.
segunda-feira, 15 de dezembro de 2008
Rua da Picaria
"Ainda se compram móveis aqui, mas a rua onde nasceu Sá Carneiro está a mudar
Nesta artéria conhecida pelas marcenarias já há um bar e uma galeria, e começam a chegar novos habitantes. Estará a nascer um novo centro cosmopolita?
Para a maior parte dos portuenses, a Rua da Picaria é sinónimo de móveis. A carpintaria e a marcenaria, a par da venda de mobiliário, ainda é a actividade dominante, mas o negócio atravessa um período de acentuada decadência. Ao mesmo tempo, sente-se nesta rua um sopro de modernidade que promete mudar a sua face nos próximos anos.
O expoente máximo desta renovação é a galeria de ilustração e desenho Dama Aflita, que abriu em Novembro. O espaço é pequeno, mas suficiente para albergar obras nestes suportes. "Queremos fomentar coisas de bairro, criar situações de diálogo, por exemplo, com as lojas de mobiliário", adianta Júlio Dolbeth, ilustrador, docente universitário e um dos promotores. O artista madrileno Luís Urculo, com trabalhos em técnica mista, é o primeiro a expor na galeria, que é "pioneira em Portugal" na sua abordagem. Na sala das traseiras está a Cinbol, uma empresa de organização de eventos e consultoria, nomeadamente de imagem. Estará a rua a ser contaminada pelos ares cosmopolitas da vizinha José Falcão, ou mesmo de Miguel Bombarda? Inês Costa e Simão Bolívar, os dois sócios da Cinbol, e Júlio Dolbeth, todos moradores na Baixa do Porto, acham que sim, e que as indústrias criativas vão dar cartas.
Nas lojas de móveis, o sentimento é distinto. O PÚBLICO visitou algumas (garantiram-nos que há seis em actividade, mas nem todas estavam abertas) e percebeu que está a terminar um ciclo. Há falta de condições de estacionamento e a maioria das peças tem um design datado. A actividade sobrevive graças a um punhado de clientes fiéis e de meia-idade. Os comerciantes resignam-se e também aceitam culpas: "Nunca estivemos unidos, e há coisas que não se pode mudar sozinho", admite José Carvalho, da Carvalho & Cunha, Lda.
Rua de "boas famílias"
Quem chegou a prometer mudar o país foi a mais célebre personalidade nascida nesta artéria íngreme, em 1934: Francisco Sá Carneiro. O primeiro presidente do PSD cresceu no número 49, uma casa ampla e própria de uma família burguesa, e montou ainda, do outro lado da rua, o seu escritório de advocacia. Hoje, é Miguel Veiga, também ele fundador do partido, que exerce a actividade na Picaria.
Ao andar de porta em porta, encontrámos o cicerone ideal para conhecer a história da vizinhança: Reinaldo Pereira, gerente de O Ernesto, restaurante de cozinha tradicional portuguesa, no número 85. O actual proprietário tomou conta do negócio em 1990, depois de o herdar do seu pai, Ernesto Pereira, que comprou o estabelecimento em 1968. Reinaldo Pereira viveu na Picaria desde os 14 anos, mesmo por cima do restaurante, e fala de uma rua de "boas famílias", onde antigamente "até vinha gente de Lisboa" comprar mobiliário. Do passado, guarda um episódio marcante: o dia da morte de Sá Carneiro, quando a massa humana que aguardava o comício em que o político deveria estar presente, no Coliseu, se dirigiu para a rua, após a notícia do acidente em Camarate. "Isto estava cheio de gente aos gritos, a gritar contra os comunistas. Era de arrepiar", relembra. Quanto ao restaurante, não se deixe enganar pelos azulejos datados da entrada: eles são o que resta dos distantes anos 60, porque agora O Ernesto tem duas acolhedoras salas (e até um pátio) nas traseiras, com uma pequena cascata e quadros de Henrique do Vale e Augusto Canedo. A comida é tradicional e de sabor caseiro e um cliente ponderado até pode sair de lá com uma conta de apenas dez euros.
Onde também há quadros nas paredes é na Moldursant, uma loja de molduras e materiais para Belas-Artes que já data de 1917. Esta casa é uma das referências do Porto para artistas e estudantes da área e consegue escapar à crise mais profunda dos "vizinhos" do mobiliário. Obras de artistas como Sobral Centeno e Júlio Resende foram sendo doadas à gerência e servem agora de decoração à loja. Alguns jovens artistas também deixam trabalhos em exposição na Moldursant, o que a torna numa espécie de galeria. Continuando nas artes, acrescente-se que o Teatro Art'Imagem tem aqui instalações. E resta-nos falar do Rosa Escura (o nome vem do seu papel de parede), por ora o único bar da rua. Só abre à noite, e o ambiente é calmo e acolhedor. Nesta antiga loja de bicicletas, há sempre peças de joalharia, quadros e esculturas em exposição.
Para quem se questiona sobre a origem do nome da rua, aqui vai a resposta: falar em picaria é o mesmo que falar em equitação e sabe-se que a artéria tinha várias actividades relacionadas com os cavalos, até ao primeiro quartel do século XX. Depois vieram os móveis. Estaremos na fase da transição para uma nova Picaria? Reinaldo Pereira julga que sim, e garante que um prédio recentemente recuperado tem os seus sete apartamentos "já alugados", e que se fala em mais projectos de reabilitação.
O PÚBLICO pôde verificar obras em pelo menos um imóvel. A Picaria parece estar a recuperar alguns moradores, principalmente jovens, depois de um processo de desertificação iniciado nos anos oitenta."
Artigo de João Pedro Barros, in Público
Nesta artéria conhecida pelas marcenarias já há um bar e uma galeria, e começam a chegar novos habitantes. Estará a nascer um novo centro cosmopolita?
Para a maior parte dos portuenses, a Rua da Picaria é sinónimo de móveis. A carpintaria e a marcenaria, a par da venda de mobiliário, ainda é a actividade dominante, mas o negócio atravessa um período de acentuada decadência. Ao mesmo tempo, sente-se nesta rua um sopro de modernidade que promete mudar a sua face nos próximos anos.
O expoente máximo desta renovação é a galeria de ilustração e desenho Dama Aflita, que abriu em Novembro. O espaço é pequeno, mas suficiente para albergar obras nestes suportes. "Queremos fomentar coisas de bairro, criar situações de diálogo, por exemplo, com as lojas de mobiliário", adianta Júlio Dolbeth, ilustrador, docente universitário e um dos promotores. O artista madrileno Luís Urculo, com trabalhos em técnica mista, é o primeiro a expor na galeria, que é "pioneira em Portugal" na sua abordagem. Na sala das traseiras está a Cinbol, uma empresa de organização de eventos e consultoria, nomeadamente de imagem. Estará a rua a ser contaminada pelos ares cosmopolitas da vizinha José Falcão, ou mesmo de Miguel Bombarda? Inês Costa e Simão Bolívar, os dois sócios da Cinbol, e Júlio Dolbeth, todos moradores na Baixa do Porto, acham que sim, e que as indústrias criativas vão dar cartas.
Nas lojas de móveis, o sentimento é distinto. O PÚBLICO visitou algumas (garantiram-nos que há seis em actividade, mas nem todas estavam abertas) e percebeu que está a terminar um ciclo. Há falta de condições de estacionamento e a maioria das peças tem um design datado. A actividade sobrevive graças a um punhado de clientes fiéis e de meia-idade. Os comerciantes resignam-se e também aceitam culpas: "Nunca estivemos unidos, e há coisas que não se pode mudar sozinho", admite José Carvalho, da Carvalho & Cunha, Lda.
Rua de "boas famílias"
Quem chegou a prometer mudar o país foi a mais célebre personalidade nascida nesta artéria íngreme, em 1934: Francisco Sá Carneiro. O primeiro presidente do PSD cresceu no número 49, uma casa ampla e própria de uma família burguesa, e montou ainda, do outro lado da rua, o seu escritório de advocacia. Hoje, é Miguel Veiga, também ele fundador do partido, que exerce a actividade na Picaria.
Ao andar de porta em porta, encontrámos o cicerone ideal para conhecer a história da vizinhança: Reinaldo Pereira, gerente de O Ernesto, restaurante de cozinha tradicional portuguesa, no número 85. O actual proprietário tomou conta do negócio em 1990, depois de o herdar do seu pai, Ernesto Pereira, que comprou o estabelecimento em 1968. Reinaldo Pereira viveu na Picaria desde os 14 anos, mesmo por cima do restaurante, e fala de uma rua de "boas famílias", onde antigamente "até vinha gente de Lisboa" comprar mobiliário. Do passado, guarda um episódio marcante: o dia da morte de Sá Carneiro, quando a massa humana que aguardava o comício em que o político deveria estar presente, no Coliseu, se dirigiu para a rua, após a notícia do acidente em Camarate. "Isto estava cheio de gente aos gritos, a gritar contra os comunistas. Era de arrepiar", relembra. Quanto ao restaurante, não se deixe enganar pelos azulejos datados da entrada: eles são o que resta dos distantes anos 60, porque agora O Ernesto tem duas acolhedoras salas (e até um pátio) nas traseiras, com uma pequena cascata e quadros de Henrique do Vale e Augusto Canedo. A comida é tradicional e de sabor caseiro e um cliente ponderado até pode sair de lá com uma conta de apenas dez euros.
Onde também há quadros nas paredes é na Moldursant, uma loja de molduras e materiais para Belas-Artes que já data de 1917. Esta casa é uma das referências do Porto para artistas e estudantes da área e consegue escapar à crise mais profunda dos "vizinhos" do mobiliário. Obras de artistas como Sobral Centeno e Júlio Resende foram sendo doadas à gerência e servem agora de decoração à loja. Alguns jovens artistas também deixam trabalhos em exposição na Moldursant, o que a torna numa espécie de galeria. Continuando nas artes, acrescente-se que o Teatro Art'Imagem tem aqui instalações. E resta-nos falar do Rosa Escura (o nome vem do seu papel de parede), por ora o único bar da rua. Só abre à noite, e o ambiente é calmo e acolhedor. Nesta antiga loja de bicicletas, há sempre peças de joalharia, quadros e esculturas em exposição.
Para quem se questiona sobre a origem do nome da rua, aqui vai a resposta: falar em picaria é o mesmo que falar em equitação e sabe-se que a artéria tinha várias actividades relacionadas com os cavalos, até ao primeiro quartel do século XX. Depois vieram os móveis. Estaremos na fase da transição para uma nova Picaria? Reinaldo Pereira julga que sim, e garante que um prédio recentemente recuperado tem os seus sete apartamentos "já alugados", e que se fala em mais projectos de reabilitação.
O PÚBLICO pôde verificar obras em pelo menos um imóvel. A Picaria parece estar a recuperar alguns moradores, principalmente jovens, depois de um processo de desertificação iniciado nos anos oitenta."
Artigo de João Pedro Barros, in Público
quinta-feira, 11 de dezembro de 2008
Podem Falar
A coisa assim não dá, disse-me um dia o meu pai
Tu vives em sociedade e tens que perceber
Que as regras são para se cumprir... não sei se tu estás a ver, pá...
Ah, ah! - disse eu - Estou a ver muito bem...
Mas já agora diz lá que culpa tenho eu
Que no teu jogo existam cartas que não fazem sentido no meu...
Tu vives em sociedade e tens que perceber
Que as regras são para se cumprir... não sei se tu estás a ver, pá...
Ah, ah! - disse eu - Estou a ver muito bem...
Mas já agora diz lá que culpa tenho eu
Que no teu jogo existam cartas que não fazem sentido no meu...
Podem falar, podem falar,
Que o meu lugar é andar e o meu passo é correr
De vez em quando a cantar de vez em quando a sofrer.
Podem falar, podem falar,
Mas estão a perder tempo se pensam que um dia me hão-de amarrar.
Que o meu lugar é andar e o meu passo é correr
De vez em quando a cantar de vez em quando a sofrer.
Podem falar, podem falar,
Mas estão a perder tempo se pensam que um dia me hão-de amarrar.
As principais capitais aprendi eu no liceu,
Vi retratos de reis em tronos de ouro e marfim,
Mas ninguém me ensinou a nadar no rio que nasce dentro de mim.
Um dia pus-me a lutar, com as minhas contradições
Estive quase a morrer, mas acabei por escapar.
Para quem ama a liberdade o importante é nunca parar
Vi retratos de reis em tronos de ouro e marfim,
Mas ninguém me ensinou a nadar no rio que nasce dentro de mim.
Um dia pus-me a lutar, com as minhas contradições
Estive quase a morrer, mas acabei por escapar.
Para quem ama a liberdade o importante é nunca parar
Podem falar, podem falar,
Que o meu lugar é andar e o meu passo é correr
De vez em quando a cantar de vez em quando a sofrer.
Podem falar, podem falar,
Mas estão a perder tempo se pensam que um dia me hão-de amarrar.
Que o meu lugar é andar e o meu passo é correr
De vez em quando a cantar de vez em quando a sofrer.
Podem falar, podem falar,
Mas estão a perder tempo se pensam que um dia me hão-de amarrar.
Já vi muita gente a tentar agradar
A todo o gajo que pensa que nasceu para mandar,
Mas tenho visto muita gente que está só, a morrer devagar,
E a distância que existe entre o não ser e o ser
É uma questão de não se ter medo de ir longe demais.
O que ainda não tem preço é sempre o que vale mais.
Podem falar, podem falar,A todo o gajo que pensa que nasceu para mandar,
Mas tenho visto muita gente que está só, a morrer devagar,
E a distância que existe entre o não ser e o ser
É uma questão de não se ter medo de ir longe demais.
O que ainda não tem preço é sempre o que vale mais.
Que o meu lugar é andar e o meu passo é correr
De vez em quando a cantar, de vez em quando a sofrer.
Podem falar, podem falar,
Mas estão a perder tempo se pensam que um dia me hão-de amarrar.
in 'Té Já (1979)
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Incatalogável,
Jorge Palma,
Música
domingo, 7 de dezembro de 2008
Rua do Bonjardim
" Na rua onde nasceu a francesinha, é a degradação que hoje mais ordena
Na rua do Bonjardim, há de tudo, muitas casas desabitadas e muita tristeza. Mas, numa rua onde o tempo parou, também encontramos coisas boas
A "Esta deve ser a pior rua do Porto, em termos de piso, casas e frequência." O aviso é feito pelo advogado Coutinho Ribeiro, que há quase 20 anos tem escritório montado na vizinha Rua de Fernandes Tomás, e que todos os dias percorre parte da artéria a pé. A história da Rua do Bonjardim tem muito de bas fond.
Aqui se concentram trabalhadoras do sexo e muitos dos bares de alterne e striptease da cidade. "As prostitutas são muito simpáticas, até parecem ter vergonha de existir, mas nos últimos anos são mais novas e mais agressivas, pedem cigarros ou uma moeda para comer um bolo", conta o jurista. As zaragatas são, ainda assim, ocasionais: "Fazem uma gritaria e puxam o cabelo umas às outras, mas passa depressa." Ao lado, quando o dia corre mal no Bolhão, há vendedoras com cestos de hortaliças ou meias.
O retrato é sombrio, mas é muito difícil pintá-lo de outra cor. O PÚBLICO percorreu os mais de 1,5 quilómetros do arruamento, desde a Rua de Sá da Bandeira até ao Marquês, e encontrou um universo que vai escurecendo à medida que se avança. Até às traseiras do Palácio dos Correios, a reabilitação urbana da Porto 2001 "lavou a cara" da rua, mas a partir daí quase só se vêem "pedras sujas e gastas", como canta Rui Veloso em Porto sentido. Para lá do cruzamento com a Rua de Gonçalo Cristóvão, o panorama chega a ser aterrador: parece que se sai da cidade e se entra numa aldeia desabitada, de casas em ruínas, onde sobrevivem velhas tascas com sardinhas fritas e couratos expostos nas montras e cafés onde se jogam cartas às escuras "para poupar na luz". A reabilitação urbana está a anos-luz de distância da antiga estrada de Guimarães, durante décadas uma das principais saídas da cidade.
Mas também há histórias mais alegres para contar. A mais conhecida de todas é a do nascimento da francesinha, no restaurante Regaleira, no pequeno troço da artéria que fica entre a Rua de Sá da Bandeira e a Rua do dr. Magalhães Lemos.
A autoria desta criação pode não ser tão debatida como a da Ilíada, mas aqui o Homero é Daniel David Silva, um ex-emigrante que pegou na tradição da tosta francesa (ou croque-monsieur), adicionando-lhe molho, e criando uma iguaria que rapidamente ganhou fama. Corria o ano de 1953 e um dos actuais sócios, Augusto Marinho, era então seu ajudante. Hoje, guarda consigo o segredo do molho (que é bem picante), e mantém a tradição de usar carne assada entre fatias de pão de bijou, o que lhe permite dizer que a sua francesinha é "única". Como os juízos de valor são complicados, só podemos garantir que, por ser tão purista, se trata de uma versão diferente. Augusto Marinho ironiza: "Se tivesse registado a patente, agora éramos donos do mundo."
O charme d'A Brasileira
A Regaleira é um restaurante para encher a barriga, sem grandes luxos, à imagem da rua. Porém, a poucos metros, há algo completamente diferente: o Caffé di Roma, que ocupa a "sala pequena" do antigo e centenário café A Brasileira, faz do charme a sua grande arma. Quase em frente à Regaleira, há o Rei dos Queijos, outro local onde impera a tradição.
Aberto em 1933, é actualmente um pequeno café/pastelaria que continua a ter o queijo da Serra de marca própria, feito de leite de ovelha bordaleira, como o grande expoente. Depois, há pequenas delícias como os pastéis de Tentúgal e de feijão ou queijadas. Tudo o que experimentámos mereceu aprovação. Mais sugestões gastronómicas: as bifanas da Conga e a comida regional do Ginjal do Porto e do mítico Antunes.
Mudando de assunto, falemos de mercearias finas, à imagem de outros tempos. Acima do cruzamento com Fernandes Tomás, há duas que respiram saúde: a Feira do Bacalhau (aberta desde 1925, promete "o melhor bacalhau da cidade") e o Pretinho do Japão. Para comprar livros, duas sugestões: a Livros Bonjardim, no número 398, um alfarrabista com um gigantesco armazém; para banda desenhada, há a Central Comics.
Voltemos ao lado negro, num tom humorístico: no segmento mais obscuro da rua, há uma série de estabelecimentos que disputam o título de nome mais cómico da cidade. Os candidatos são o restaurante Sai Cão, o salão Beleza Rara e o night club Ana Paula. Não entrámos em nenhum destes sítios, mas ficámos a conhecer o Pride Bar, quase junto ao Marquês. Faz parte do roteiro gay da cidade, e tem espectáculos com travestis, strip-tease ocasional e pista de dança. É um dos locais da cidade com as portas abertar até mais tarde.
Descendo um pouco, até ao número 1254, encontra-se um belíssimo palacete abandonado, engolido pelas silvas, e mesmo em frente à Rua do Paraíso há um fontanário em pedra, a Fonte de Villa Parda, que data de 1859 e está agora sem água.
São duas belas metáforas de uma rua marcada em quase toda a sua extensão por "polidores de esquinas", reformados em passeio higiénico, cafés onde gente sem trabalho beberica um fino a meio da tarde. Em muitos momentos, parece que aqui se parou no tempo."
Na rua do Bonjardim, há de tudo, muitas casas desabitadas e muita tristeza. Mas, numa rua onde o tempo parou, também encontramos coisas boas
A "Esta deve ser a pior rua do Porto, em termos de piso, casas e frequência." O aviso é feito pelo advogado Coutinho Ribeiro, que há quase 20 anos tem escritório montado na vizinha Rua de Fernandes Tomás, e que todos os dias percorre parte da artéria a pé. A história da Rua do Bonjardim tem muito de bas fond.
Aqui se concentram trabalhadoras do sexo e muitos dos bares de alterne e striptease da cidade. "As prostitutas são muito simpáticas, até parecem ter vergonha de existir, mas nos últimos anos são mais novas e mais agressivas, pedem cigarros ou uma moeda para comer um bolo", conta o jurista. As zaragatas são, ainda assim, ocasionais: "Fazem uma gritaria e puxam o cabelo umas às outras, mas passa depressa." Ao lado, quando o dia corre mal no Bolhão, há vendedoras com cestos de hortaliças ou meias.
O retrato é sombrio, mas é muito difícil pintá-lo de outra cor. O PÚBLICO percorreu os mais de 1,5 quilómetros do arruamento, desde a Rua de Sá da Bandeira até ao Marquês, e encontrou um universo que vai escurecendo à medida que se avança. Até às traseiras do Palácio dos Correios, a reabilitação urbana da Porto 2001 "lavou a cara" da rua, mas a partir daí quase só se vêem "pedras sujas e gastas", como canta Rui Veloso em Porto sentido. Para lá do cruzamento com a Rua de Gonçalo Cristóvão, o panorama chega a ser aterrador: parece que se sai da cidade e se entra numa aldeia desabitada, de casas em ruínas, onde sobrevivem velhas tascas com sardinhas fritas e couratos expostos nas montras e cafés onde se jogam cartas às escuras "para poupar na luz". A reabilitação urbana está a anos-luz de distância da antiga estrada de Guimarães, durante décadas uma das principais saídas da cidade.
Mas também há histórias mais alegres para contar. A mais conhecida de todas é a do nascimento da francesinha, no restaurante Regaleira, no pequeno troço da artéria que fica entre a Rua de Sá da Bandeira e a Rua do dr. Magalhães Lemos.
A autoria desta criação pode não ser tão debatida como a da Ilíada, mas aqui o Homero é Daniel David Silva, um ex-emigrante que pegou na tradição da tosta francesa (ou croque-monsieur), adicionando-lhe molho, e criando uma iguaria que rapidamente ganhou fama. Corria o ano de 1953 e um dos actuais sócios, Augusto Marinho, era então seu ajudante. Hoje, guarda consigo o segredo do molho (que é bem picante), e mantém a tradição de usar carne assada entre fatias de pão de bijou, o que lhe permite dizer que a sua francesinha é "única". Como os juízos de valor são complicados, só podemos garantir que, por ser tão purista, se trata de uma versão diferente. Augusto Marinho ironiza: "Se tivesse registado a patente, agora éramos donos do mundo."
O charme d'A Brasileira
A Regaleira é um restaurante para encher a barriga, sem grandes luxos, à imagem da rua. Porém, a poucos metros, há algo completamente diferente: o Caffé di Roma, que ocupa a "sala pequena" do antigo e centenário café A Brasileira, faz do charme a sua grande arma. Quase em frente à Regaleira, há o Rei dos Queijos, outro local onde impera a tradição.
Aberto em 1933, é actualmente um pequeno café/pastelaria que continua a ter o queijo da Serra de marca própria, feito de leite de ovelha bordaleira, como o grande expoente. Depois, há pequenas delícias como os pastéis de Tentúgal e de feijão ou queijadas. Tudo o que experimentámos mereceu aprovação. Mais sugestões gastronómicas: as bifanas da Conga e a comida regional do Ginjal do Porto e do mítico Antunes.
Mudando de assunto, falemos de mercearias finas, à imagem de outros tempos. Acima do cruzamento com Fernandes Tomás, há duas que respiram saúde: a Feira do Bacalhau (aberta desde 1925, promete "o melhor bacalhau da cidade") e o Pretinho do Japão. Para comprar livros, duas sugestões: a Livros Bonjardim, no número 398, um alfarrabista com um gigantesco armazém; para banda desenhada, há a Central Comics.
Voltemos ao lado negro, num tom humorístico: no segmento mais obscuro da rua, há uma série de estabelecimentos que disputam o título de nome mais cómico da cidade. Os candidatos são o restaurante Sai Cão, o salão Beleza Rara e o night club Ana Paula. Não entrámos em nenhum destes sítios, mas ficámos a conhecer o Pride Bar, quase junto ao Marquês. Faz parte do roteiro gay da cidade, e tem espectáculos com travestis, strip-tease ocasional e pista de dança. É um dos locais da cidade com as portas abertar até mais tarde.
Descendo um pouco, até ao número 1254, encontra-se um belíssimo palacete abandonado, engolido pelas silvas, e mesmo em frente à Rua do Paraíso há um fontanário em pedra, a Fonte de Villa Parda, que data de 1859 e está agora sem água.
São duas belas metáforas de uma rua marcada em quase toda a sua extensão por "polidores de esquinas", reformados em passeio higiénico, cafés onde gente sem trabalho beberica um fino a meio da tarde. Em muitos momentos, parece que aqui se parou no tempo."
Artigo de João Pedro Barros, in Público
De facto esta rua será provavelmente das que mais estranheza causará a quem percorre a cidade. Como é dito no artigo, apesar de ser bastante longa, funciona por pedaços descontínuos que fazem com que perdamos a noção de rua no seu todo.
Não posso deixar de acrescentar que a meio desta rua, algures entre o Marquês e a Trindade, em local semi-esncondido fica um restaurante bem simpático do qual já tenho bastantes saudades, a Taberna D. Castro,vale a pena!
De facto esta rua será provavelmente das que mais estranheza causará a quem percorre a cidade. Como é dito no artigo, apesar de ser bastante longa, funciona por pedaços descontínuos que fazem com que perdamos a noção de rua no seu todo.
Não posso deixar de acrescentar que a meio desta rua, algures entre o Marquês e a Trindade, em local semi-esncondido fica um restaurante bem simpático do qual já tenho bastantes saudades, a Taberna D. Castro,vale a pena!
sábado, 6 de dezembro de 2008
sexta-feira, 5 de dezembro de 2008
Pianos
Aos oito anitos, estava ainda praticamente a dar os primeiros passos no piano, os meus pais ofereceram-me um piano vertical, que ainda está lá por casa, apesar do pouco uso vergonhamente dado por mim. Passados vinte e dois anos, resolvi oferecer-me de prenda das três décadas um piano digital cá para o meu cantito..digital para gáudio da vizinha de baixo...se ela ouvisse uma tecla cairia o carmo e a trindade certamente!!! E chega mesmo no dia! amanhã de manhã já chega! Agora resta dar rentabilidade ao investimento e aparvalhar quanto baste ao piano.
domingo, 30 de novembro de 2008
Rua de Passos Manuel

"A tradição e a vanguarda lado a lado naquela que já não é só "a rua do Coliseu
A Manuel da Silva Passos, ou Passos Manuel, é conhecido como um herói liberal, ligado à facção mais radical da revolução que mudou o país no século XIX. Porém, o político nascido em Guifões também revelou uma grande tendência para o consenso, na sua acção parlamentar e governativa. Na rua a que deu nome, e que começou a ser aberta em 1874, também convivem, em grande harmonia, conceitos tradicionais e vanguardistas. Aqui há lojas e restaurantes cheios de história, mas também locais de cultura e diversão que primam pelo cosmopolitismo.
Comecemos precisamente pela cultura, e pela referência obrigatória que é o Coliseu do Porto. Salvo, em 1995, de ser sala de culto da Igreja Universal do Reino de Deus, o espaço, com marcas de Art Déco, é actualmente um lugar de acolhimento de espectáculos, sem grande critério artístico. Por isso, as notícias de vanguardismo vêm de outros locais. Em 2001, abriu o Maus Hábitos, um café-bar e espaço de intervenção cultural, mesmo em frente ao Coliseu. Em 2004, o antigo cinema Passos Manuel reabriu como bar e sala de espectáculos. Desde 2006, há ainda o Pitch Club, que combina o bar do primeiro andar com a pista de dança do piso inferior, ao estilo dos clubs ingleses. Desde que abriu, tornou-se um dos locais da moda da noite portuense, dentro de uma gama média-alta. Por isso, há consumo obrigatório, que costuma rondar os 5-10 euros, dependendo dos DJ convidados. A estrela nacional é DJ Kitten, e o seu Cherry Bomb Club, com disco, punk e rock & roll. Aos fins-de-semana, muita gente acaba aqui a noite.
O Maus Hábitos e o Passos Manuel têm outra filosofia, sem consumo obrigatório, em que os concertos e a produção artística são o grande objectivo, e o álcool paga as contas. O primeiro localiza-se no quarto andar de um edifício que serve de parque automóvel, banal à primeira vista, mas com uma larga história. Foi construído em 1938, para receber os carros dos visitantes do Coliseu, e tinha um conceito arrojado: era um centro de serviços com barbearia, tabacaria, uma zona de banhos públicos e, diz-se, até um bordel. O Maus Hábitos ocupa o espaço dos antigos escritórios, e a sua estrutura labiríntica alberga várias exposições. Entre as 12h30 e as 15h também há almoços. Do outro lado da rua, o Passos Manuel destaca-se pela programação do seu auditório - onde cabe música, cinema, teatro e performance -, porventura a mais ousada da cidade. O projecto de António Guimarães, um veterano da noite portuense, compreende ainda o bar de apoio e uma claustrofóbica cave/discoteca, um dos portos seguros da boémia na Invicta.
E, para algo completamente diferente, por que não um corte de cabelo? Os Anjos Urbanos (localizados na loja de entrada do Centro Comercial Invictos) têm a fama de ser um dos cabeleireiros mais arrojados da cidade, mas só levam a experiência até onde o cliente o desejar. Neste salão, frequentado por pessoas de todas as idades, não há revistas de coração espalhadas pelas mesas, e a música anda por territórios chill-out ou étnicos. O preço dos cortes é de 25-30 euros (homens) e 30-40 euros (mulheres).
Uma rua para bons garfos
O lado mais tradicional da artéria passa, essencialmente, pela restauração. A Casa das Tortas data de meados do século XIX e está instalada no número 181 da Passos Manuel há mais de 100 anos. Os pastéis de chaves (agora também em variante vegetariana) são a grande especialidade, e podem ser apreciados num aconchegante recanto em pedra, recentemente remodelado. Nas mãos do mesmo proprietário, Amarílio Barbosa, está também, há cerca de três anos, o restaurante Escondidinho, inaugurado em 1931. A lista de antigos clientes inclui o rei Juan Carlos de Espanha ou Mário Soares, e este era um dos locais de eleição de Francisco Sá Carneiro, que tinha mesa marcada no dia da sua morte. No interior, ao estilo das velhas casas solarengas do Norte de Portugal, há um relógio de cuco com cerca de 200 anos e valiosas faianças portuguesas. As especialidades são o bacalhau à Escondidinho, a lagosta gratinada, o entrecosto grelhado e a tarte de maçã, que chegou a merecer referência no Guia Michelin. Uma refeição completa ronda, pelo menos, os 20 euros, e quem quiser encontrar uma alternativa mais barata tem o poiso perfeito no Café Santiago. Parece um snack-bar vulgar, mas está aqui uma das melhores (senão a melhor) francesinhas do Grande Porto. O Santiago data de 1940, mas a actual proprietária, Isabel Ferreira, tomou conta do café em 1981.
Também há história no Bingo Olympia, um antigo cinema inaugurado em 1912, no Ateneu Comercial do Porto, e em estabelecimentos comerciais como a Casa Figueiredo (aberta em 1926), o Armazém dos Linhos ou a Central dos Forros, uma retrosaria à moda antiga. E fiquemos com uma última nota do passado: Daniel Pires, um dos sócios do Maus Hábitos, pesquisou a história do "seu" edifício e descobriu que o circo no Porto, desde o século XIX, se fazia na parte alta da Passos Manuel. Agora, está lá o Coliseu, e, porque há coisas que nunca mudam, o circo está de volta em Dezembro."
Artigo de João Pedro Barros, in Público
sábado, 29 de novembro de 2008
Magnólia
Vai sendo raro encontrar bons filmes na televisão portuguesa, mas volta e meia lá temos uma boa surpresa. Hoje, à meia noite, a RTP2 transmite o filme de P.T. Anderson, Magnólia. Uma história rebuscada e fabulosa com uma excelente banda sonora da autoria de Aimee Mann.
Mais um filme que vi num dos ciclos de cinema que se faziam no Teatro do Campo Alegre. Quando esteve em exibição comercial passou-me um bocado ao lado, mas ainda bem que o apanhei uns tempos mais tarde!
Mais um filme que vi num dos ciclos de cinema que se faziam no Teatro do Campo Alegre. Quando esteve em exibição comercial passou-me um bocado ao lado, mas ainda bem que o apanhei uns tempos mais tarde!
sexta-feira, 28 de novembro de 2008
Beck e Jane Birkin - L'anamour
Na continuidade da onda revivalista e na falta de algo inteligente para escrever, hoje fica este dueto muito curioso entre Beck e Jane Birkin, interpretando um original de Serge Gainsbourg e Jane Birkin.
terça-feira, 25 de novembro de 2008
Jorge Palma - À Espera do Fim
A ideia era só meter esta música simplesmente porque me apetece, mas como não sei inserir só música, cá fica este vídeo...foi o que se arranjou...
Sendo um dos mais fortes poemas do Jorge, não deixo de dar sempre por mim a pensar que reflecte apenas pequenos fragmentos de uma vida, estado de espírito e que passado algum tempo o lema volta sempre a ser " enquanto houver ventos e mar". Enquanto assim for, menos mal!
Sendo um dos mais fortes poemas do Jorge, não deixo de dar sempre por mim a pensar que reflecte apenas pequenos fragmentos de uma vida, estado de espírito e que passado algum tempo o lema volta sempre a ser " enquanto houver ventos e mar". Enquanto assim for, menos mal!
domingo, 23 de novembro de 2008
The Smashing Pumpkins - Disarm
E lá vai mais um fim de semana perfeitamente inútil sem nada para escrever, cá continua a onda revivalista...
quinta-feira, 20 de novembro de 2008
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