terça-feira, 24 de fevereiro de 2009

Tom Waits - Train Song

Lembro-me perfeitamente do momento em que ouvi esta música pela primeira vez, há uns 15/16 anos atrás e a partir daí ficou impregnado o gosto pela música de Tom Waits.
Esta é uma das poucas músicas que me faz reflectir, sonhar, parar, relembrar, perspectivar, sempre que a ouço.

Well I broke down in E. St. Louis
On the Kansas City line
and I drunk up all my money
that I borrowed every time
and I fell down at the derby
and now the night's black as a crow
It was a train that took me away from here
but a train can't bring me home
What made my dreams so hollow
was standing at the depot
with a steeple full of swallows
that could never ring the bell
and I come ten thousand miles away
with not one thing to show
well it was a train that took me away from here
but a train can't bring me home
I remember when I left
without bothering to pack
you know I up and left with
just the clothes I had on my back
now I'm sorry for what I've done
and I'm out here on my own
well it was a train that took me away from here
but a train can't bring me home

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009

Travessa de Cedofeita

"A ruela esquecida da Baixa que se tornou num novo centro nocturno do Porto

Se ainda não ouviu falar do 77, é provável que não saia à noite no Porto. O café revolucionou a Travessa de Cedofeita, onde também está a Casa de Ló, sucessora da Casa Margaridense

À primeira vista, não há nada de particularmente recomendável na Travessa de Cedofeita, que liga a Rua de Cedofeita ao Largo Alberto Pimentel: o arruamento é estreito e sombrio, o empedrado está gasto, os passeios são irregulares e as paredes estão pejadas de graffiti anárquicos e outras pinturas. No entanto, com um olhar mais atento, é possível descobrir várias pérolas no arruamento. Ironicamente, pode começar-se pelas paredes: a sua análise pode dar origem a um verdadeiro estudo de semiótica (a disciplina que estuda a significação). E não é que encontramos mesmo uma análise na Internet? O texto, da autoria de António Preto, fala numa "exposição colectiva", repleta de sinais contestários. A título de exemplo, aqui fica uma das mensagens: "Procura-se/ Outro/ Ronaldo/ Templário/ Urrando/ Golos/ Acalmando/ Lobbies". Juntando as iniciais, lê-se "Portugal".
Porém, aquilo que mais transformou a travessa nos últimos dois anos foi um café que, à primeira vista, também passaria despercebido. À porta do Espaço 77, em qualquer noite de quinta-feira a sábado, concentram-se pequenas multidões (na rua passam poucos automóveis), geralmente com uma bebida na mão. Aqui há cervejas "minis" a 50 cêntimos, shots a um euro, baldes de cerveja de diferentes tamanhos entre um e quatro euros, panikes entre 90 cêntimos e 1,5 euros. A esplanada que os proprietários resolveram abrir nas traseiras, mesmo a tempo da entrada em vigor da Lei do Tabaco, também foi um golpe certeiro, e o Espaço 77 transformou-se numa espécie de "lado b" do Piolho, na Praça de Parada Leitão.
Mesmo ao lado do 77, a Casa de Ló é a mais recente novidade da artéria. Surgiu no espaço da mítica Casa Margaridense (fundada em 1880 e encerrada em 2007), famosa pelo seu pão-de-ló, marmelada e geleias, e juntou a componente de café-bar à venda destas iguarias (os chocolates, vinhos do Douro, livros e bolachas são uma novidade), preservando a traça original da loja. Na zona onde se confeccionavam os produtos está agora o salão de chá/bar (onde também se servem refeições ligeiras), animado por DJ convidados e concertos (o primeiro foi na sexta-feira) nas noites de fim-de-semana. Um pouco mais próximo da Rua de Cedofeita, o Mezopotamya fecha este mini-cluster com ligações à noite da Baixa. É um espaço dedicado ao döner kebab (o prato nacional turco, feito de carne assada num espeto vertical), onde a movida conforta a barriga durante a noite (está aberto todos os dias, das 19h às 2h). Aqui, é servido em duas variantes: sandes (por 2,90 euros) e rolo (3,50 euros).
Mas a Travessa de Cedofeita não é só feita de coisas novas: há habitantes mais antigos que resistem e até circulou um abaixo-assinado para tentar travar o barulho nocturno. Artur Ribeiro Taquinho, o "mais antigo adeleiro do Porto", instalado no número 46, não o assinou, porque "gosta da animação". O comerciante está há mais de 60 anos na rua (tem hoje 85 anos) e a sua história foi-nos contada pela filha Maria de Fátima Almeida e pelo genro José Carlos Almeida, agora à frente de um negócio em crise, porque as melhores peças "ficam para os leilões". Ainda assim, há mobiliário de todo o tipo e para várias bolsas no interior da loja, que é complementada pela arte sacra e decorativa de José dos Santos Galante, mesmo em frente.
Há mais. Por exemplo, a livraria Lumière, no número 64, compra e vende livros usados, mas também discos de vinil, banda desenhada e cadernetas de cromos antigos. Literatura portuguesa, história, teatro e poesia são as especialidades. A Blow Up Market é um bom local para encontrar roupas e acessórios em segunda mão. Na Goodvibes encontra-se vestuário, calçado e acessórios de cariz urbano e alternativo, de marcas como a própria Goodvibes (em exclusivo) e Gola. A Collectus é uma loja de colecções que tem sempre montras apelativas à vista, com moedas, notas, postais, selos, calendários, vinis e cartazes antigos. Uma viagem nesta artéria nunca poderia ficar completa sem referir a Love shop 68+1, na esquina com a Rua das Oliveiras. Chama-se Love shop porque a proprietária, Sónia Maia, aposta mais na vertente lúdica: aqui há lingerie comestível, artigos bondage e vibradores, mas não há filmes pornográficos. No seu lugar, estão muitos jogos de cariz erótico."

Artigo de João Pedro Barros, in Público

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009

Final Fantasy



Desde há muito me habituei a ler e ouvir as opiniões musicais do Nuno Galopim, e de facto raramente me desiludo.
Há uns anos, num debate na Feira do Livro do Porto, com a presença de Sérgio Godinho, Jorge Palma, Álvaro Costa e Nuno Galopim, lá para o final, citou este nome, Final Fantasy, violinista dos Arcade Fire. Passado uns tempos, pude confirmar a beleza da música deste intérprete num concerto na Casa das Artes de Famalicão com a sua "orquestra de câmara" a partir de um só violino...fabuloso.

domingo, 15 de fevereiro de 2009

Rua das Flores

"Ourives, alfarrabistas e berbequins na mais tripeira das ruas do Porto

Na Rua das Flores, outrora famosa pelas ourivesarias e lojas de têxteis, é a reabilitação urbana promovida pela Porto Vivo que hoje chama a atenção. Uma rua à procura de residentes.

A Não conseguimos descobrir como nasceu o epíteto, mas é um facto que chamam à Rua das Flores "a mais tripeira das ruas do Porto". É provável que esta alcunha tenha sido inspirada pelos notáveis edifícios dos séculos XVI e seguintes que a dominam e que dão um forte argumento aos defensores de uma artéria pedonal. Isto porque quem a percorre com olhos de ver tem de se deter no meio da faixa de rodagem para apreciar as varandas, os trabalhos em ferro forjado ou os vários exemplos de arte antiga que clamam por atenção. Mas, por estes dias, um passeio sossegado pode ser perturbado pelo barulho dos berbequins ou dos martelos, vindo dos edifícios que estão a ser intervencionados no âmbito dos projectos da sociedade de reabilitação urbana Porto Vivo. Foi nesta artéria, em 2006, que a entidade completou a sua primeira promoção própria, no edifício onde funcionava a Papelaria Reis e onde hoje está a Cidade das Profissões, que se dedica à informação e aconselhamento profissional. Seis T2 foram comercializados através de concurso, com grande procura. A esperança de que a Rua das Flores retome a sua raiz residencial passa por aqui.
Carlos Oliveira, de 78 anos, é um dos moradores que resistem: habita o mesmo prédio dos joalheiros Eduardo Carneiro, onde trabalha desde 1946. "Antigamente as casas estavam todos habitadas e geralmente os donos dos estabelecimentos moravam por cima", relembra. O portuense ainda viveu o período áureo daquela que foi considerada, desde meados do século XVII, como a "Rua dos Ourives" ou "Rua do Ouro" do Porto. Os estabelecimentos do género chegaram a ser mais de 20, mas, em 2009, o PÚBLICO contou apenas sete, que ainda assim oferecem um considerável leque de escolhas. Mas Carlos Oliveira ainda tem outras histórias: lembra-se dos carros de bois que subiam desde a Ribeira até à Praça de Almeida Garrett e das famílias que no final das tardes de domingo percorriam a rua com um sável na mão, vindo directamente do rio. A alfândega era o ponto de onde partia todo o comércio da cidade e a sua progressiva desactivação teve muita influência na perda de movimento da rua.
Mandada abrir pelo rei D. Manuel I, em 1518, e calcetada em 1542, a Rua das Flores (cujo perfil original está quase intacto) tornou-se desde logo numa das principais vias da cidade, razão pela qual muitos nobres e burgueses construíram aqui os seus palacetes. Podemos destacar alguns: a Casa dos Maias ou dos Ferrazes Bravos (números 31 a 39, onde deve surgir um hotel de charme, em 2010), a dos Cunhas Pimentéis (na esquina com o Largo de São Domingos) ou a Casa da Companhia (número 69). A Igreja da Misericórdia, actualmente encerrada para obras (poderá reabrir no Verão), é outro ponto de interesse: a sua fachada, em estilo barroco, é da autoria de Nicolau Nasoni, datando de meados do século XVIII. No edifício da Misericórdia do Porto pode visitar--se um pequeno núcleo museológico (por 1,5 euros), onde se destaca a pintura Fons Vitae, uma alegoria à fundação das misericórdias, de princípios do século XVI, em que figuram os membros da família real, no tempo de D. Manuel I. O cartaz cultural poderá ficar enriquecido com o Museu do Teatro de Marionetas do Porto, que vai funcionar no número 22 e onde devem ser exibidas 1200 peças. No final de Fevereiro ficam completas as obras do segundo piso, que vai ser aberto a visitas de estudo, mas falta financiamento para o resto da obra.

Alfarrabistas com história

Os alfarrabistas da Rua das Flores, Chaminé da Mota e João Soares, também são um bom motivo para uma visita. No primeiro, respira-se um ambiente solene (o facto de a Antena 2 ser a "rádio oficial" ajuda) e há uma série de antiguidades expostas, que incluem duas caixas de disco, de fabrico alemão, de finais do século XIX. Uma delas toca a Marselhesa, a outra A Internacional. O alfarrabista João Soares é mais descontraído: por exemplo, diz que a sua livraria (onde há muitas pechinchas) está organizada segundo uma "desordem ordenada". Era bancário, mas foi juntando tantos livros que percebeu que os podia vender num espaço próprio. Hoje está reformado e diz que não se importa de facturar "20 ou 30 euros por dia": "Os custos são baixos e estou aqui com boa música, no meio dos livros".Outro destaque da rua é a mercearia fina A Pérola da Índia, no número 220. Foi fundada em 1934, mas mudou bastante nos últimos anos, de forma a cativar o comprador de passagem e o turista que desce até à marginal do Douro. Agora, a aposta centra--se na garrafeira e em produtos como bacalhau, presunto ou alheiras, com qualidade e a preços competitivos. A Memórias, dedicada ao artesanato português e decoração, é um belo recanto cheio de bordados, cerâmica e azulejos vindos de todo o país. Para algo completamente diferente, também se pode encontrar roupa gótica e alternativa na Oblivion. De resto, há aqui várias lojas de vestuário e armazéns de tecidos, reminiscências do tempo em que a artéria era também o centro dos têxteis na cidade."

Artigo de João Pedro Barros, in Público

sábado, 14 de fevereiro de 2009

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009

Rua do Rosário

"O local onde o comércio tradicional convive pacificamente com propostas alternativas

Pode ver-se uma drogaria ou uma mercearia ao lado de uma casa de artigos japoneses e de uma loja de produtos biológicos. A variedade é apreciada por todos.

Até aos anos 80, período em que se acentuou a desertificação da Baixa do Porto, o perfil da Rua do Rosário era eminentemente residencial. Disso mesmo se lembra Fernando Ribeiro, hoje com 77 anos, 44 deles passados atrás do balcão da Drogaria Marília: "Antigamente, toda a gente queria um andar aqui e não conseguia. Hoje não faltam casas abandonadas", descreve. Porém, na presente década, têm vindo a surgir novos negócios nesta transversal da Rua Miguel Bombarda (a artéria das galerias de arte), maioritariamente conduzidos por jovens e com um espírito tendencialmente alternativo. O comércio tradicional (a mercearia, o sapateiro, a peixaria) que resistiu ao decréscimo populacional e à concorrência das grandes superfícies mantém uma relação de proximidade como os recentes vizinhos. "Espero que esta convivência não se perca, que seja esse o dinamismo futuro da rua", diz Ana Rita Cameira, do Muuda, um espaço multidisciplinar que se rege pelo tríptico arte, sabores e design.
Comecemos por aqui a nossa viagem. No Muuda há exposições de arte (até 28 de Fevereiro, André Magalhães expõe 315 desenhos A4), refeições (para grupos, através de reserva), workshops (no dia 18, a partir das 20h, há um de sushi), peças de estilistas como Nuno Baltazar e Katty Xiomara e diversas iniciativas. Uma delas é o Muuda de Mãos, destinada a quem quer vender artigos em segunda mão. Um pouco ao lado está a primeira loja japonesa da cidade, a Kuri Kuri (significa "que amoroso"). Quando abriu, em Novembro, circulava entre a vizinhança que era um sítio onde "se botavam cartas", mas, apesar da diversidade da oferta, não há aqui nada de místico. Há, isso sim, artigos para pessoas dos "oito aos 80 anos", como diz Ana Cancela, a proprietária: roupa, livros sobre sushi, papel para origami (a arte de dobrar papel), refrigerantes e cervejas, doces típicos e alguma manga (banda desenhada nipónica).
No número 177 temos o Quintal, uma loja e mercearia de produtos biológicos. O estabelecimento, onde já se vendem produtos de homeopatia, naturopatia, cosmética natural (sem químicos) e limpeza, vai ter frutas e legumes a breve prazo. Nas traseiras, há um agradável salão de chá e uma esplanada. Quem quiser conhecer este estilo de vida tem ao dispor revistas, livros e workshops regulares. Para outras leituras, desloque-se ao Gato Vadio, uma livraria com destaque para poesia, filosofia ou teatro que também é café-bar e local de eventos e sessões de cinema. Se politicamente se situa à direita, não chegue nem perto.
Na rua, também há um conjunto de lojas dedicadas a antiguidades e decoração. A mais recente, de Ana Gisela Cerqueira, é dedicada ao mobiliário dos anos 20 e 50 do século XX e à pintura contemporânea. Na Pedaços de Arte e na Né Arts desenvolvem-se projectos de interiores, algo que também acontece na FMO, loja/atelier de Fernando Marques de Oliveira, que dá ainda destaque às antiguidades e aos tecidos e papéis de parede. No número 147 está o atelier e show-room do Cirurgias Urbanas, empresa ligada à arquitectura, arboricultura, paisagismo e mobiliário.

Refeições em conta

O próximo parágrafo é dedicado à comida. Podemos começar por recomendar o Café Célia, no cruzamento com a Rua Miguel Bombarda: os pratos são bons e baratos (a partir dos 3 euros) e a decoração não deixa de ser cuidada (Roy Lichtenstein, Andy Warhol ou Keith Haring são presença nas paredes). O arroz de pato e a tarte alemã, para sobremesa, são os destaques. O Zé de Braga, uma casa familiar e centenária, onde um almoço completo pode rondar os cinco euros, é uma alternativa. Para algo mais sofisticado, temos o restaurante/bar/galeria de arte 110. Abre de manhã, disponibiliza menus completos ao almoço (por 7,5 euros) e vai até ao jantar, em que se servem tapas com base na cozinha portuguesa (exemplos: polvo com molho verde, rojões e costeletinhas de porco preto). Falemos também de potenciais pechinchas noutras áreas: na Just Girl há vestuário feminino entre 3,5 e 12,5 euros, dada a rebaixa por motivo de obras; no número 141, no segundo andar, há um stock off de decoração; na Momenti Rari, há prendas para convidados de comunhões, casamentos e baptizados, entre um e cinco euros.
Já perto do Hospital de Santo António fica a sede do Cineclube do Porto, com o seu museu e biblioteca de arte cinematográfica. O edifício tem uma longa história: aí esteve instalado o Hotel do Louvre, uma unidade de luxo que recebeu, em 1872, o Imperador do Brasil, D. Pedro II. Ainda no século XIX, albergou uma das primeiras clínicas particulares da cidade. Uma placa assinala um assalto da PIDE, polícia política do Estado Novo, à então sede da organização oposicionista MUD (Movimento de Unidade Democrática), em 1946. Estas são histórias do passado, mas no presente nem tudo é renovação: o estilista Pedro Mourão encerrou o seu atelier/loja na rua, porque "para comércio ela não dá". Os criadores que se mantêm ali vão indicar para que lado pende o futuro da rua."

Artigo de João Pedro Barros, in Público

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009

Incatalogável



Ora, nestes últimos meses larguíssimos tenho posto em prática a negação de mim mesmo ( a frase que mais tenho ouvido por quem me rodeia é " não te reconheço")..ou seja, sempre me dispersei por milhentas pequenas coisas como ir a concertos, teatro, estar com pessoas, ir ao café,ler q.b., procurar viajar muito pelos cantos e recantos que nos rodeiam, sempre com vontade de conhecer e aprender mais e mais.Tenho feito exactamente o contrário, salvo raríssimas excepções que na altura me sabem bem mas que não funcionam mesmo como factor para me fazer "acordar" novamente.
Após a última saída cá da terrinha até terras galegas em final de Agosto com a grande amiga M. não me pus mais ao caminho, mas com a certeza que algo agendado vinha por aí: a ida até Salamanca visitar a M., a mais recente habitante daquela cidade fantástica e a partir daí irmos dar umas voltas porreiras. Eis se não quando, dou por mim com a impossibilidade de ir até lá nos próximos tempos largos, e desta vez não por falta de vontade mas "traído" pelo meu belo pé em estado lastimoso!
Resumindo e concluindo, espero que esta impossibilidade me faça acordar de vez e quando voltar a estar "operacional" (o que não será tão cedo), não desperdiçar tempo fechado no bunker com um número infindável de experiências e momentos que fazem tudo valer a pena, lá fora à minha espera! (ou não!)

sábado, 7 de fevereiro de 2009

domingo, 1 de fevereiro de 2009

"Reaproveitar a história para dar identidade a novos negócios

A antiga Casa Margaridense é agora um espaço de lazer multiusos. Na Baixa, há vários antigos espaços de comércio e indústria com nova vida

Quando era criança, Sara Pinto era uma das muitas clientes da Casa Margaridense. Agora, aos 35 anos, lança-se na aventura de retomar parte do espírito que fez do espaço da Travessa da Cedofeita, no Porto, uma referência histórica no fabrico e venda de pão-de-ló e outras iguarias. O número 21 da travessa acolhe agora a Casa de Ló (a abertura oficial é na próxima quarta-feira), que recupera a antiga loja e junta-lhe uma cafetaria, salão de chá e um bar, para satisfação dos muitos curiosos que, durante as obras, espreitavam pelas janelas.
É o último caso de uma tendência recente e que promete continuar: a transformação de espaços com tradição na vida económica do Porto - fábricas, armazéns, livrarias - em sítios de lazer, com forte actividade nocturna. A precariedade laboral e a vontade de criar projectos pessoais são alguns dos motores do surgimento destes projectos. Foi assim também na Casa de Ló, cujas responsáveis quiseram "mudar de vida".
A tabuleta "Aluga-se" na porta da Margaridense, fundada em 1880 e encerrada em 2007, tornou mais fácil a decisão de Sara Pinto, que dá formação profissional, e da amiga e sócia Adriana Rocha. Procuravam um espaço para começar um negócio pessoal. "A nossa ideia teve que se adequar ao espaço. Esta loja tem uma vida própria", conta Adriana Rocha, de 46 anos, professora na Escola Artística Soares dos Reis, no Porto.
Sara e Adriana aplicaram as suas poupanças na recuperação do espaço. Mantiveram a loja quase intacta: estão lá os balcões, as prateleiras com os produtos tradicionais que popularizaram a casa (pão-de-ló, marmelada, geleia de marmelo, cavacas, suspiros, entre outros), o cofre onde se guardavam as medidas secretas de cada ingrediente. O pão-de-ló que popularizou a casa já não será produzido ali (nem nenhum dos produtos, aliás), mas virá de uma fábrica de Margaride, freguesia de Felgueiras de onde eram originários os primeiros proprietários da Margaridense.À tradição, Sara e Adriana juntaram novidades: chocolate, vinho, cadernos, livros e produtos de autor, uma esplanada nas traseiras (pedras do antigo forno são agora bancos), e, na zona onde antes laboravam os fornos a carqueja, noites com concertos e DJ, exposições, refeições ligeiras durante o dia e, possivelmente, projecções de filmes. Esta mistura entre o tradicional e o contemporâneo tem como objectivo "chegar a todas a idades" e tipos de pessoas, diz Sara Pinto. O horário da Casa de Ló, das 10h00 às 2h00, condiz com a estratégia.

O "regresso" dos armazéns

A tendência de transformar espaços antigos da Baixa em locais de lazer está intimamente ligada à dinâmica que esta zona tem apresentado nos últimos anos, sobretudo à noite. Depois da abertura de bares pioneiros, como o Passos Manuel, o Maus Hábitos e o Café Lusitano, um conjunto de novos empresários apostou na Baixa para instalar os seus negócios. Boa parte dos espaços mantém a traça arquitectónica e parte da imagem antiga dos espaços, construindo a sua identidade a partir desse passado. Segundo disseram vários empresários do sector ao PÚBLICO, há já projectos para novos estabelecimentos com características semelhantes.
As ruas da Galeria de Paris e Cândido dos Reis, outrora conhecidas pelos seus amplos armazéns de tecidos, são o centro da nova vida boémia da cidade. O restaurante e bar Galeria de Paris e o Plano B, situados nessas ruas, aproveitaram antigos armazéns. Não muito longe dali, na Rua de José Falcão, dois café-bares - o Café Lusitano e o Armazém do Chá - ocupam, respectivamente, os espaços que pertenceram a um armazém de moagens do início do século passado e um outro de torrefacção de chá.
Trata-se de "usar o passado para construir o futuro", diz Filipe Teixeira, um dos responsáveis pelo bar Plano B, aberto em Dezembro de 2006. Procuravam um espaço nas redondezas da Torre dos Clérigos e encontraram um edifício de 1909, "versátil", com "carácter" e com o bónus de ter sido desenhado pelo importante arquitecto portuense José Marques da Silva (responsável, por exemplo, pelo desenho da Estação de S. Bento e o Teatro Nacional São João), por encomenda do conde de Vizela. "Estava em mau estado, com o soalho e as escadas podres", recorda. Ninguém diria, mas "era muito fácil voltar a parecer um armazém".
José Pedro Maia e Pedro Trindade, da Casa do Livro, na Rua da Galeria de Paris, descobriram o espaço ideal para o bar que abriram em Junho de 2007. Já idealizavam um sítio com uma presença forte dos livros; o que não sabiam era que ali tinha funcionado uma livraria. "Chamava-se precisamente Casa do Livro. Mal se lia o nome na fachada", recorda José Pedro Maia. Acabaram por adoptar o nome e a escolha faz todo o sentido: nas paredes, há centenas de livros, em sintonia com o ambiente intimista do bar, que abre ao final da tarde.
Manter um espaço com estas características "dá muito trabalho, mas faz-se tudo com prazer", diz David Castro, gerente do Lusitano, um recatado café com serviço de catering durante o dia e um bar à noite, que se assume como gay-friendly. Quando abriu, há quatro anos, o antigo armazém, que estava desactivado há dez anos, "foi inteiramente recuperado", com algumas adaptações à nova função.
Do outro lado da rua, no Armazém do Chá, aberto em Abril de 2008, ainda se encontra cerca de uma tonelada e meia de folhas de chá, distribuída por sacos de serapilheira, sinal de um passado não muito longínquo com funções muito distantes das actuais. O espaço, com 700 metros quadrados, não foi a primeira opção de Rui Silva e Sérgio Ribeiro (queriam montar um bar que apostasse no vinho a copo e com uma agenda de concertos muito preenchida), mas a sua história acabou por modificar um pouco a ementa do espaço, que conta com diversos chás. "Vendemos muito chá à noite. Até eu fico surpreendido", diz Rui Silva. Para José Pedro Maia, da Casa do Livro, estas opções revelam "inteligência" por parte dos empresários: "Há espaços lindíssimos. É uma tendência natural pela Europa fora. Só não era no Porto."
Segundo o arquitecto Nuno Grande, as obras de requalificação transformaram as ruas em espaços mais atractivos."
Artigo de Pedro Rios, in Público

sábado, 31 de janeiro de 2009

Vem, Chuva, Vem

Vem, Chuva, Vem
Molhar os meus sentidos
Ressentidos da poluição

Vem, Chuva, Vem
Leva-me do peito a saudade
E a solidão

Vem, Chuva, Vem
Lavar os meus cabelos
E os dedos amarelos do fumo

Vem, Chuva, Vem
Encher a maré
Dar movimento a este barco sem rumo

Haja o que houver
A chuva não há-de acabar
E seja lá como for
Este velho Mundo continua a girar

Vem, Chuva, Vem
Molhar os meus sentidos
Ressentidos da poluição

Vem, Chuva, Vem
Leva-me do peito a saudade
E a solidão

Vem, Chuva, Vem
Lavar os meus cabelos
E os dedos amarelos do fumo

Vem, Chuva, Vem
Encher a maré
Dar movimento a este barco sem rumo

Espaços sem fim
Mudanças na palma da mão
Para alguns é fácil voar, é
Outros, por mais que tentem, nunca saem do chão

Vem, Chuva, Vem
Molhar os meus sentidos
Ressentidos da poluição

Vem, Chuva, Vem
Leva-me do peito a saudade
E a solidão

Vem, Chuva, Vem
Lavar os cabelos
E os dedos amarelos do fumo

Vem, Chuva, Vem

Encher a maré
Dar movimento a este barco sem rumo



in Acto Contínuo (1982)

sábado, 24 de janeiro de 2009

Rua Nova da Alfândega

"Esta rua podia chamar-se " Rua da Poesia"
As palavras de Cesariny ou de Eugénio de Andrade dão o mote a uma artéria onde há bares, restaurantes, artesanato português e muita cultura despretensiosa.
Não se sabe bem como, mas o vírus da poesia parece ter contagiado toda a Rua Nova da Alfândega. Senão, vejamos: aqui temos o Clube Literário do Porto, onde há vários eventos ligados à arte de fazer versos, e as noites poéticas do bar Púcaros e do Clube das Avós. Para além disso, o café Porto Rosa e a loja de artesanato português Coração Habitado devem pelo menos o nome à poesia. Antes que o portuense mais atento comece a abanar a cabeça com um ar reprovador, assumimos a batota: neste texto, "anexamos" a Rua de Miragaia e o Largo da Alfândega. Não nos parece nada disparatado: foi a abertura da Rua Nova da Alfândega (entre 1869 e 1871), necessária para a ligação do edifício ao centro da cidade, que desenhou a actual configuração da Rua de Miragaia. Agora, é uma espécie de cave, amparada por um muro e dividida a meio pelo Largo da Alfândega.
A área geográfica aqui abordada, dividida entre as freguesias de São Nicolau e de Miragaia, é uma das mais rústicas da cidade e mantém um ambiente de bairro. "Ainda se ouvem as mães à janela a chamar os miúdos", nota Maria Inês Castanheira, programadora do Clube Literário do Porto. São esses mesmos miúdos que andam pendurados no eléctrico da Linha 1 - "o condutor até pára o veículo para lhes ralhar" - e que descem a vizinha Rua do Comércio do Porto de bicicleta, a alta velocidade, sem muita preocupação pelos transeuntes. Jorge Andrade, proprietário do atelier de escultura e cerâmica Arcos de Miragaia, prefere destacar que os habitantes são "pobres, mas solidários". No seu espaço, recebe crianças da zona ou dos problemáticos bairros do Aleixo e do Lagarteiro, especialmente durante o Verão, e também vende as suas obras, a partir de 10 euros. Até 2001, Jorge Andrade nunca tinha modelado uma única peça, mas um curso desenvolvido no âmbito da extinta Fundação para o Desenvolvimento da Zona Histórica do Porto despertou-lhe a curiosidade. No entanto, confessa que é o único dos 16 alunos, com "problemas de droga e marginalidade", que "sobreviveu" com os ensinamentos daí retirados. As suas curiosas e despretensiosas criações justificam uma visita.

A tertúlia mais antiga

Mas retomemos o tema principal, a poesia, pelo exemplo do Clube Literário do Porto. Pertença da Fundação Luís Araújo, e inaugurado em 2005, este é um espaço multifuncional que combina livraria, piano-bar, duas galerias, auditório e uma agenda cultural diversificada e de entrada gratuita. Às sextas e sábados à noite, há música clássica ou jazz e os eventos poéticos permanentes são mensais: a tertúlia Quartas mal ditas, na última semana de cada mês, e Poesia de choque. Nestes eventos, cruzam-se alguns dos nomes que fazem a mais famosa noite de poesia do Porto: é no bar Púcaros, nas arcadas da Rua de Miragaia, e dá-se religiosamente às quartas-feiras, depois do toque de uma sineta, para lá das 23h00. De acordo com o proprietário, Carlos Pinto, trata-se da "tertúlia poética ininterrupta mais antiga da cidade", levando já 12 anos. Os novatos que queiram declamar são sempre bem-vindos. Para ajudar a descontrair, o ex libris é a sangria, servida nos púcaros que dão o nome à casa. Para terminar, há o Clube das Avós, que na primeira sexta-feira de cada mês organiza sessões de poesia, na Junta de Freguesia de São Nicolau. O evento é aberto ao público em geral.
Mas a torrente poética não acaba aqui. O café Porto Rosa, no Largo da Alfândega, tem nos vidros dois dos versos mais famosos de Mário Cesariny: "Queria de ti um país de bondade e de bruma/ queria de ti o mar de uma rosa de espuma". Lá dentro, há serviço de cafetaria e pratos do dia, com alguma sofisticação, ao almoço. Perto do Clube Literário, temos a Corações Habitados, designação inspirada no poema Coração Habitado, de Eugénio de Andrade. A proprietária, Isabel Dores, fez uma pesquisa por todo o país, em busca de objectos de artesão portugueses, desde os tradicionais aos mais urbanos. Aqui há livros, produtos gourmet, vestuário e sabonetes da Ach. Brito ou Confiança.
O Rádio Bar é uma alternativa no capítulo da noite. É um sítio pequeno, com paredes de pedra, calmo durante a semana, animado e mais electrónico nas noites de sexta-feira e sábado. O Giroflée, no número 1 da rua, é o espaço de restauração mais requintado das redondezas, sem ter um preço exorbitante (uma média de 20 euros por pessoa). A cozinha é de raiz portuguesa, mas com uma apresentação contemporânea. Se estiver numa de tapas, o La Pausa, uns passos à frente, é mais económico.
Falta falar do edifício que dá o nome à rua: a Alfandega Nova, construída sobre estacaria no antigo areal de Miragaia, e inaugurada em 1869. Em 1993, foi restaurada para instalar o Museu dos Transportes e Comunicações, de acordo com um projecto do arquitecto Souto Moura. Por 3 euros, é possível visitar duas exposições permanentes (O Automóvel no Espaço e no Tempo e o Museu das Alfândegas) e a temporária Duas Arquitecturas Alemãs: 1949-1989, até 5 de Fevereiro. Aqui também há uma bela e pouco conhecida biblioteca, onde é possível estudar com o rio Douro como pano de fundo."
Artigo de João Pedro Barros, in Público

segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

sábado, 17 de janeiro de 2009

Rua Adolfo Casais Monteiro

"O espírito da Rua Miguel Bombarda está a alastrar para uma das perpendiculares.
A loja/atelier de Nuno Gama é a nova "estrela" da Rua Adolfo Casais Monteiro, onde têm nascido novos espaços de comércio. Mas nesta viagem também olhámos para o passado.

Numa cidade, os efeitos de contágio são frequentes. De forma virtuosa ou viciosa, hábitos, actividades e camadas sociais vão ocupando certas zonas do espaço urbano, espalhando-se como um vírus. É isto que está a acontecer na Rua Adolfo Casais Monteiro: a proximidade com as galerias de arte e as lojas de comércio alternativo da Rua Miguel Bombarda, que a cruza, tem alterado a face da artéria. Curiosamente, o escritor portuense Adolfo Casais Monteiro (1908-1972) nasceu precisamente em Miguel Bombarda, numa casa com um jardim ligado ao arruamento que viria a ter o seu nome (era então a Rua do Pombal).
Nos últimos anos, esta rua parece ter recuperado alguns habitantes, especialmente jovens. Uma das pessoas que nos ajudaram a perceber esta evolução reside aqui há 37 anos, e sempre viveu nas imediações. Adosinda de Sousa é uma das proprietárias da Da Vinci, uma loja de molduras que ocupa o espaço do antigo bar Aria, e onde pinturas de diferentes estilos ocupam agora as paredes. Hoje, com 59 anos, confirma que a maior parte dos seus vizinhos são jovens, mas lembra-se da rua, na sua infância, como uma zona habitacional de "gente humilde". Mas a recordação mais forte é da Padaria Independente, cujo grande letreiro em azulejo ainda se mantém. "O pão era uma delícia, dos melhores do Porto. Por alturas do São João, a vizinhança ia até lá com a sua assadeira em barro, para meter o cabrito com batata no forno. Parece que ainda sinto o cheiro", descreve.Voltemos ao presente pela porta da antiga Padaria Independente, que é agora um dos pólos ocupados pela Galeria Fernando Santos, uma das pioneiras na Miguel Bombarda. Mesmo ao lado, foi inaugurada em Setembro a loja e atelier do estilista Nuno Gama, que anteriormente estava estabelecido na Foz. A mudança trouxe-lhe mais espaço, mas também lhe permitiu integrar as vertentes criativa e comercial num ambiente "mais intimista", desenhado pelo arquitecto Rodrigo Patrício, explicou o criador ao PÚBLICO. O estabelecimento foi notícia, em Dezembro, por ter sido alvo de um assalto que levou cerca de 200 peças, incluindo a colecção Outono/Inverno 2008. Mais de um mês depois, a loja está recomposta. Uns passos ao lado, na esquina com a Rua Miguel Bombarda, vai nascer a nova loja/atelier do decorador Miguel Costa Cabral.
O único restaurante da rua, inaugurado em 2006, é o Artemísia (um género de plantas a que pertence o absinto ou o estragão), que também funciona como café e bar. O interior, concebido pela arquitecta Ana Costa, denuncia desde logo que se trata de um local requintado: o espaço tem uma forma irregular, e é dominado por tons castanhos. Há sofás e mesas espaçosas, que lhe conferem um ambiente caseiro. Numa das paredes, alguns nichos albergam obras cedidas pela loja de artesanato urbano Águas Furtadas, que se situa no Centro Comercial Bombarda. Uma refeição média ronda os 30 euros, mas o almoço pode ser bem mais económico, já que há três menus executivo, entre os 6,5 e os 13,5 euros. As ervas aromáticas e as especiarias desempenham um papel fundamental na oferta da casa, que tem uma carta variada, com carne, peixe, pratos vegetarianos, massas e risottos. Provámos o tiramisu e podemos recomendá-lo vivamente para a sobremesa.
Música alternativa
De barriga cheia, podemos seguir para a zona da artéria que fica mais perto da Rua D. Manuel II. É aqui, no número 71, que está a nossa sugestão para tomar um copo: o Lobby. Trata-se de um café-bar acolhedor, que até há algumas semanas estava aberto durante a tarde, mas que restringiu o seu horário de funcionamento ao período 21h-2h. A música tem um cariz consideravelmente alternativo, e nas traseiras há um belo pátio, aberto quando as condições climatéricas assim o permitem. No número 63 fica um dos estabelecimentos que nos fazem perceber porque é que Nuno Gama diz que quem se desloca a esta rua procura "alternativas ao déjà vu da cidade": o hair designer Freaks é um dos locais mais famosos do Porto para quem pretende mudar de visual. "A nossa filosofia é fazer um corte bom, que dure, que possa ser mantido em casa. Nós não alteramos a textura dos cabelos", explica o proprietário, Francisco Carvalho. No mesmo edifício, está a loja da marca afilhadedeus, um projecto de vestuário e acessórios fundado por dois artistas plásticos portugueses com formação em pintura, Catarina Enes e Bruno Alves. Todas as peças são únicas ou séries limitadas.
A última sugestão que deixamos é a loja da Cruz Vermelha Portuguesa, no número 37. Trata-se de um bom local para encontrar pechinchas, já que a maioria dos produtos (roupa, sapatos, brinquedos ou loiças) é em segunda-mão. Para além disso, qualquer compra é uma forma de ajudar a instituição humanitária."
Artigo de João Pedro Barros, in Público

quinta-feira, 15 de janeiro de 2009

Jorge Palma - Cantiga do Zé

O Zé não sabe onde pôr as mãos
E está farto de as ter no ar
Não teve sorte com os padrinhos
Nem tem jeito para roubar

O Zé podia arranjar emprego
E matar-se a trabalhar
Mas olha em volta e o que vê
Não o pode entusiasmar

E a cidade cá está para o entreter
Indiferente e fria, disposta a esquecer
Que a ansiedade é um minotauro
Que se alimenta de solidão
E que a ternura é uma bruxa
Que faz milagres
Se a mente a deixar ser

O Zé está vivo e é das tais pessoas
Que sentem prazer em rir
Mas tenho visto ultimamente
Esse gosto diminuir

O Zé experimenta um certo vazio
Comum a uma geração
Que despertou da adolescência
Com "vivas" à revolução

E a cidade cá está para o entreter
Indiferente e fria, disposta a esquecer
Que a ansiedade é um minotauro
Que se alimenta de solidão
E que a ternura é uma bruxa
Que faz milagres
Se a mente a deixar ser

in Asas e Penas (1984)

quarta-feira, 14 de janeiro de 2009

quinta-feira, 25 de dezembro de 2008

Fiona Apple - Extraordinary Machine



Há dias voltei a ouvir princesa Fiona ..e como soube beeem!

sábado, 20 de dezembro de 2008

Air - Playground Love



Mais uma música linda com uns anitos! Em tempos arranjei uma versão feita pelos próprios Air para vibrafone, mas entretanto perdi-a...banda sonora de Virgens Suicidas, filme inesquecível de estreia como realizadora da Sofia Coppola, vi-o no já encerrado Nun'Álvares, numa das melhores noites que já tive.

segunda-feira, 15 de dezembro de 2008

Rua da Picaria

"Ainda se compram móveis aqui, mas a rua onde nasceu Sá Carneiro está a mudar

Nesta artéria conhecida pelas marcenarias já há um bar e uma galeria, e começam a chegar novos habitantes. Estará a nascer um novo centro cosmopolita?



Para a maior parte dos portuenses, a Rua da Picaria é sinónimo de móveis. A carpintaria e a marcenaria, a par da venda de mobiliário, ainda é a actividade dominante, mas o negócio atravessa um período de acentuada decadência. Ao mesmo tempo, sente-se nesta rua um sopro de modernidade que promete mudar a sua face nos próximos anos.
O expoente máximo desta renovação é a galeria de ilustração e desenho Dama Aflita, que abriu em Novembro. O espaço é pequeno, mas suficiente para albergar obras nestes suportes. "Queremos fomentar coisas de bairro, criar situações de diálogo, por exemplo, com as lojas de mobiliário", adianta Júlio Dolbeth, ilustrador, docente universitário e um dos promotores. O artista madrileno Luís Urculo, com trabalhos em técnica mista, é o primeiro a expor na galeria, que é "pioneira em Portugal" na sua abordagem. Na sala das traseiras está a Cinbol, uma empresa de organização de eventos e consultoria, nomeadamente de imagem. Estará a rua a ser contaminada pelos ares cosmopolitas da vizinha José Falcão, ou mesmo de Miguel Bombarda? Inês Costa e Simão Bolívar, os dois sócios da Cinbol, e Júlio Dolbeth, todos moradores na Baixa do Porto, acham que sim, e que as indústrias criativas vão dar cartas.
Nas lojas de móveis, o sentimento é distinto. O PÚBLICO visitou algumas (garantiram-nos que há seis em actividade, mas nem todas estavam abertas) e percebeu que está a terminar um ciclo. Há falta de condições de estacionamento e a maioria das peças tem um design datado. A actividade sobrevive graças a um punhado de clientes fiéis e de meia-idade. Os comerciantes resignam-se e também aceitam culpas: "Nunca estivemos unidos, e há coisas que não se pode mudar sozinho", admite José Carvalho, da Carvalho & Cunha, Lda.
Rua de "boas famílias"
Quem chegou a prometer mudar o país foi a mais célebre personalidade nascida nesta artéria íngreme, em 1934: Francisco Sá Carneiro. O primeiro presidente do PSD cresceu no número 49, uma casa ampla e própria de uma família burguesa, e montou ainda, do outro lado da rua, o seu escritório de advocacia. Hoje, é Miguel Veiga, também ele fundador do partido, que exerce a actividade na Picaria.
Ao andar de porta em porta, encontrámos o cicerone ideal para conhecer a história da vizinhança: Reinaldo Pereira, gerente de O Ernesto, restaurante de cozinha tradicional portuguesa, no número 85. O actual proprietário tomou conta do negócio em 1990, depois de o herdar do seu pai, Ernesto Pereira, que comprou o estabelecimento em 1968. Reinaldo Pereira viveu na Picaria desde os 14 anos, mesmo por cima do restaurante, e fala de uma rua de "boas famílias", onde antigamente "até vinha gente de Lisboa" comprar mobiliário. Do passado, guarda um episódio marcante: o dia da morte de Sá Carneiro, quando a massa humana que aguardava o comício em que o político deveria estar presente, no Coliseu, se dirigiu para a rua, após a notícia do acidente em Camarate. "Isto estava cheio de gente aos gritos, a gritar contra os comunistas. Era de arrepiar", relembra. Quanto ao restaurante, não se deixe enganar pelos azulejos datados da entrada: eles são o que resta dos distantes anos 60, porque agora O Ernesto tem duas acolhedoras salas (e até um pátio) nas traseiras, com uma pequena cascata e quadros de Henrique do Vale e Augusto Canedo. A comida é tradicional e de sabor caseiro e um cliente ponderado até pode sair de lá com uma conta de apenas dez euros.
Onde também há quadros nas paredes é na Moldursant, uma loja de molduras e materiais para Belas-Artes que já data de 1917. Esta casa é uma das referências do Porto para artistas e estudantes da área e consegue escapar à crise mais profunda dos "vizinhos" do mobiliário. Obras de artistas como Sobral Centeno e Júlio Resende foram sendo doadas à gerência e servem agora de decoração à loja. Alguns jovens artistas também deixam trabalhos em exposição na Moldursant, o que a torna numa espécie de galeria. Continuando nas artes, acrescente-se que o Teatro Art'Imagem tem aqui instalações. E resta-nos falar do Rosa Escura (o nome vem do seu papel de parede), por ora o único bar da rua. Só abre à noite, e o ambiente é calmo e acolhedor. Nesta antiga loja de bicicletas, há sempre peças de joalharia, quadros e esculturas em exposição.
Para quem se questiona sobre a origem do nome da rua, aqui vai a resposta: falar em picaria é o mesmo que falar em equitação e sabe-se que a artéria tinha várias actividades relacionadas com os cavalos, até ao primeiro quartel do século XX. Depois vieram os móveis. Estaremos na fase da transição para uma nova Picaria? Reinaldo Pereira julga que sim, e garante que um prédio recentemente recuperado tem os seus sete apartamentos "já alugados", e que se fala em mais projectos de reabilitação.
O PÚBLICO pôde verificar obras em pelo menos um imóvel. A Picaria parece estar a recuperar alguns moradores, principalmente jovens, depois de um processo de desertificação iniciado nos anos oitenta."

Artigo de João Pedro Barros, in Público

quinta-feira, 11 de dezembro de 2008

Podem Falar

A coisa assim não dá, disse-me um dia o meu pai
Tu vives em sociedade e tens que perceber
Que as regras são para se cumprir... não sei se tu estás a ver, pá...
Ah, ah! - disse eu - Estou a ver muito bem...
Mas já agora diz lá que culpa tenho eu
Que no teu jogo existam cartas que não fazem sentido no meu...
Podem falar, podem falar,
Que o meu lugar é andar e o meu passo é correr
De vez em quando a cantar de vez em quando a sofrer.
Podem falar, podem falar,
Mas estão a perder tempo se pensam que um dia me hão-de amarrar.
As principais capitais aprendi eu no liceu,
Vi retratos de reis em tronos de ouro e marfim,
Mas ninguém me ensinou a nadar no rio que nasce dentro de mim.
Um dia pus-me a lutar, com as minhas contradições
Estive quase a morrer, mas acabei por escapar.
Para quem ama a liberdade o importante é nunca parar
Podem falar, podem falar,
Que o meu lugar é andar e o meu passo é correr
De vez em quando a cantar de vez em quando a sofrer.
Podem falar, podem falar,
Mas estão a perder tempo se pensam que um dia me hão-de amarrar.
Já vi muita gente a tentar agradar
A todo o gajo que pensa que nasceu para mandar,
Mas tenho visto muita gente que está só, a morrer devagar,
E a distância que existe entre o não ser e o ser
É uma questão de não se ter medo de ir longe demais.
O que ainda não tem preço é sempre o que vale mais.
Podem falar, podem falar,
Que o meu lugar é andar e o meu passo é correr
De vez em quando a cantar, de vez em quando a sofrer.
Podem falar, podem falar,
Mas estão a perder tempo se pensam que um dia me hão-de amarrar.

in 'Té Já (1979)

domingo, 7 de dezembro de 2008

Rua do Bonjardim

" Na rua onde nasceu a francesinha, é a degradação que hoje mais ordena

Na rua do Bonjardim, há de tudo, muitas casas desabitadas e muita tristeza. Mas, numa rua onde o tempo parou, também encontramos coisas boas

A "Esta deve ser a pior rua do Porto, em termos de piso, casas e frequência." O aviso é feito pelo advogado Coutinho Ribeiro, que há quase 20 anos tem escritório montado na vizinha Rua de Fernandes Tomás, e que todos os dias percorre parte da artéria a pé. A história da Rua do Bonjardim tem muito de bas fond.
Aqui se concentram trabalhadoras do sexo e muitos dos bares de alterne e striptease da cidade. "As prostitutas são muito simpáticas, até parecem ter vergonha de existir, mas nos últimos anos são mais novas e mais agressivas, pedem cigarros ou uma moeda para comer um bolo", conta o jurista. As zaragatas são, ainda assim, ocasionais: "Fazem uma gritaria e puxam o cabelo umas às outras, mas passa depressa." Ao lado, quando o dia corre mal no Bolhão, há vendedoras com cestos de hortaliças ou meias.
O retrato é sombrio, mas é muito difícil pintá-lo de outra cor. O PÚBLICO percorreu os mais de 1,5 quilómetros do arruamento, desde a Rua de Sá da Bandeira até ao Marquês, e encontrou um universo que vai escurecendo à medida que se avança. Até às traseiras do Palácio dos Correios, a reabilitação urbana da Porto 2001 "lavou a cara" da rua, mas a partir daí quase só se vêem "pedras sujas e gastas", como canta Rui Veloso em Porto sentido. Para lá do cruzamento com a Rua de Gonçalo Cristóvão, o panorama chega a ser aterrador: parece que se sai da cidade e se entra numa aldeia desabitada, de casas em ruínas, onde sobrevivem velhas tascas com sardinhas fritas e couratos expostos nas montras e cafés onde se jogam cartas às escuras "para poupar na luz". A reabilitação urbana está a anos-luz de distância da antiga estrada de Guimarães, durante décadas uma das principais saídas da cidade.
Mas também há histórias mais alegres para contar. A mais conhecida de todas é a do nascimento da francesinha, no restaurante Regaleira, no pequeno troço da artéria que fica entre a Rua de Sá da Bandeira e a Rua do dr. Magalhães Lemos.
A autoria desta criação pode não ser tão debatida como a da Ilíada, mas aqui o Homero é Daniel David Silva, um ex-emigrante que pegou na tradição da tosta francesa (ou croque-monsieur), adicionando-lhe molho, e criando uma iguaria que rapidamente ganhou fama. Corria o ano de 1953 e um dos actuais sócios, Augusto Marinho, era então seu ajudante. Hoje, guarda consigo o segredo do molho (que é bem picante), e mantém a tradição de usar carne assada entre fatias de pão de bijou, o que lhe permite dizer que a sua francesinha é "única". Como os juízos de valor são complicados, só podemos garantir que, por ser tão purista, se trata de uma versão diferente. Augusto Marinho ironiza: "Se tivesse registado a patente, agora éramos donos do mundo."

O charme d'A Brasileira

A Regaleira é um restaurante para encher a barriga, sem grandes luxos, à imagem da rua. Porém, a poucos metros, há algo completamente diferente: o Caffé di Roma, que ocupa a "sala pequena" do antigo e centenário café A Brasileira, faz do charme a sua grande arma. Quase em frente à Regaleira, há o Rei dos Queijos, outro local onde impera a tradição.
Aberto em 1933, é actualmente um pequeno café/pastelaria que continua a ter o queijo da Serra de marca própria, feito de leite de ovelha bordaleira, como o grande expoente. Depois, há pequenas delícias como os pastéis de Tentúgal e de feijão ou queijadas. Tudo o que experimentámos mereceu aprovação. Mais sugestões gastronómicas: as bifanas da Conga e a comida regional do Ginjal do Porto e do mítico Antunes.
Mudando de assunto, falemos de mercearias finas, à imagem de outros tempos. Acima do cruzamento com Fernandes Tomás, há duas que respiram saúde: a Feira do Bacalhau (aberta desde 1925, promete "o melhor bacalhau da cidade") e o Pretinho do Japão. Para comprar livros, duas sugestões: a Livros Bonjardim, no número 398, um alfarrabista com um gigantesco armazém; para banda desenhada, há a Central Comics.
Voltemos ao lado negro, num tom humorístico: no segmento mais obscuro da rua, há uma série de estabelecimentos que disputam o título de nome mais cómico da cidade. Os candidatos são o restaurante Sai Cão, o salão Beleza Rara e o night club Ana Paula. Não entrámos em nenhum destes sítios, mas ficámos a conhecer o Pride Bar, quase junto ao Marquês. Faz parte do roteiro gay da cidade, e tem espectáculos com travestis, strip-tease ocasional e pista de dança. É um dos locais da cidade com as portas abertar até mais tarde.
Descendo um pouco, até ao número 1254, encontra-se um belíssimo palacete abandonado, engolido pelas silvas, e mesmo em frente à Rua do Paraíso há um fontanário em pedra, a Fonte de Villa Parda, que data de 1859 e está agora sem água.
São duas belas metáforas de uma rua marcada em quase toda a sua extensão por "polidores de esquinas", reformados em passeio higiénico, cafés onde gente sem trabalho beberica um fino a meio da tarde. Em muitos momentos, parece que aqui se parou no tempo."

Artigo de João Pedro Barros, in Público

De facto esta rua será provavelmente das que mais estranheza causará a quem percorre a cidade. Como é dito no artigo, apesar de ser bastante longa, funciona por pedaços descontínuos que fazem com que perdamos a noção de rua no seu todo.
Não posso deixar de acrescentar que a meio desta rua, algures entre o Marquês e a Trindade, em local semi-esncondido fica um restaurante bem simpático do qual já tenho bastantes saudades, a Taberna D. Castro,vale a pena!

sábado, 6 de dezembro de 2008

sexta-feira, 5 de dezembro de 2008

Pianos

Aos oito anitos, estava ainda praticamente a dar os primeiros passos no piano, os meus pais ofereceram-me um piano vertical, que ainda está lá por casa, apesar do pouco uso vergonhamente dado por mim. Passados vinte e dois anos, resolvi oferecer-me de prenda das três décadas um piano digital cá para o meu cantito..digital para gáudio da vizinha de baixo...se ela ouvisse uma tecla cairia o carmo e a trindade certamente!!! E chega mesmo no dia! amanhã de manhã já chega! Agora resta dar rentabilidade ao investimento e aparvalhar quanto baste ao piano.

domingo, 30 de novembro de 2008

Dizem que não sabiam quem era, Giselle, O Fim

Mais um vídeo referente ao concerto "No Tempo dos Assassinos" em Junho de 2003 no CCB.
Estes três temas são do que melhor fez Jorge Palma até à data. Incluem-se no primeiro disco, com data de 1975, "Com Uma Viagem na Palma da Mão", do qual tenho a grande sorte de ter um dos poucos exemplares, e foi o prenúncio dum percurso notável.

Rua de Passos Manuel


"A tradição e a vanguarda lado a lado naquela que já não é só "a rua do ColiseuA Rua de Passos Manuel tem boémia e algumas das propostas culturais mais arrojadas do Porto, mas também há francesinhas e tartes de maçã à moda das nossas avós.


A Manuel da Silva Passos, ou Passos Manuel, é conhecido como um herói liberal, ligado à facção mais radical da revolução que mudou o país no século XIX. Porém, o político nascido em Guifões também revelou uma grande tendência para o consenso, na sua acção parlamentar e governativa. Na rua a que deu nome, e que começou a ser aberta em 1874, também convivem, em grande harmonia, conceitos tradicionais e vanguardistas. Aqui há lojas e restaurantes cheios de história, mas também locais de cultura e diversão que primam pelo cosmopolitismo.
Comecemos precisamente pela cultura, e pela referência obrigatória que é o Coliseu do Porto. Salvo, em 1995, de ser sala de culto da Igreja Universal do Reino de Deus, o espaço, com marcas de Art Déco, é actualmente um lugar de acolhimento de espectáculos, sem grande critério artístico. Por isso, as notícias de vanguardismo vêm de outros locais. Em 2001, abriu o Maus Hábitos, um café-bar e espaço de intervenção cultural, mesmo em frente ao Coliseu. Em 2004, o antigo cinema Passos Manuel reabriu como bar e sala de espectáculos. Desde 2006, há ainda o Pitch Club, que combina o bar do primeiro andar com a pista de dança do piso inferior, ao estilo dos clubs ingleses. Desde que abriu, tornou-se um dos locais da moda da noite portuense, dentro de uma gama média-alta. Por isso, há consumo obrigatório, que costuma rondar os 5-10 euros, dependendo dos DJ convidados. A estrela nacional é DJ Kitten, e o seu Cherry Bomb Club, com disco, punk e rock & roll. Aos fins-de-semana, muita gente acaba aqui a noite.
O Maus Hábitos e o Passos Manuel têm outra filosofia, sem consumo obrigatório, em que os concertos e a produção artística são o grande objectivo, e o álcool paga as contas. O primeiro localiza-se no quarto andar de um edifício que serve de parque automóvel, banal à primeira vista, mas com uma larga história. Foi construído em 1938, para receber os carros dos visitantes do Coliseu, e tinha um conceito arrojado: era um centro de serviços com barbearia, tabacaria, uma zona de banhos públicos e, diz-se, até um bordel. O Maus Hábitos ocupa o espaço dos antigos escritórios, e a sua estrutura labiríntica alberga várias exposições. Entre as 12h30 e as 15h também há almoços. Do outro lado da rua, o Passos Manuel destaca-se pela programação do seu auditório - onde cabe música, cinema, teatro e performance -, porventura a mais ousada da cidade. O projecto de António Guimarães, um veterano da noite portuense, compreende ainda o bar de apoio e uma claustrofóbica cave/discoteca, um dos portos seguros da boémia na Invicta.
E, para algo completamente diferente, por que não um corte de cabelo? Os Anjos Urbanos (localizados na loja de entrada do Centro Comercial Invictos) têm a fama de ser um dos cabeleireiros mais arrojados da cidade, mas só levam a experiência até onde o cliente o desejar. Neste salão, frequentado por pessoas de todas as idades, não há revistas de coração espalhadas pelas mesas, e a música anda por territórios chill-out ou étnicos. O preço dos cortes é de 25-30 euros (homens) e 30-40 euros (mulheres).
Uma rua para bons garfos
O lado mais tradicional da artéria passa, essencialmente, pela restauração. A Casa das Tortas data de meados do século XIX e está instalada no número 181 da Passos Manuel há mais de 100 anos. Os pastéis de chaves (agora também em variante vegetariana) são a grande especialidade, e podem ser apreciados num aconchegante recanto em pedra, recentemente remodelado. Nas mãos do mesmo proprietário, Amarílio Barbosa, está também, há cerca de três anos, o restaurante Escondidinho, inaugurado em 1931. A lista de antigos clientes inclui o rei Juan Carlos de Espanha ou Mário Soares, e este era um dos locais de eleição de Francisco Sá Carneiro, que tinha mesa marcada no dia da sua morte. No interior, ao estilo das velhas casas solarengas do Norte de Portugal, há um relógio de cuco com cerca de 200 anos e valiosas faianças portuguesas. As especialidades são o bacalhau à Escondidinho, a lagosta gratinada, o entrecosto grelhado e a tarte de maçã, que chegou a merecer referência no Guia Michelin. Uma refeição completa ronda, pelo menos, os 20 euros, e quem quiser encontrar uma alternativa mais barata tem o poiso perfeito no Café Santiago. Parece um snack-bar vulgar, mas está aqui uma das melhores (senão a melhor) francesinhas do Grande Porto. O Santiago data de 1940, mas a actual proprietária, Isabel Ferreira, tomou conta do café em 1981.
Também há história no Bingo Olympia, um antigo cinema inaugurado em 1912, no Ateneu Comercial do Porto, e em estabelecimentos comerciais como a Casa Figueiredo (aberta em 1926), o Armazém dos Linhos ou a Central dos Forros, uma retrosaria à moda antiga. E fiquemos com uma última nota do passado: Daniel Pires, um dos sócios do Maus Hábitos, pesquisou a história do "seu" edifício e descobriu que o circo no Porto, desde o século XIX, se fazia na parte alta da Passos Manuel. Agora, está lá o Coliseu, e, porque há coisas que nunca mudam, o circo está de volta em Dezembro."

Artigo de João Pedro Barros, in Público

sábado, 29 de novembro de 2008

Magnólia

Vai sendo raro encontrar bons filmes na televisão portuguesa, mas volta e meia lá temos uma boa surpresa. Hoje, à meia noite, a RTP2 transmite o filme de P.T. Anderson, Magnólia. Uma história rebuscada e fabulosa com uma excelente banda sonora da autoria de Aimee Mann.
Mais um filme que vi num dos ciclos de cinema que se faziam no Teatro do Campo Alegre. Quando esteve em exibição comercial passou-me um bocado ao lado, mas ainda bem que o apanhei uns tempos mais tarde!

sexta-feira, 28 de novembro de 2008

Beck e Jane Birkin - L'anamour

Na continuidade da onda revivalista e na falta de algo inteligente para escrever, hoje fica este dueto muito curioso entre Beck e Jane Birkin, interpretando um original de Serge Gainsbourg e Jane Birkin.

terça-feira, 25 de novembro de 2008

Jorge Palma - À Espera do Fim

A ideia era só meter esta música simplesmente porque me apetece, mas como não sei inserir só música, cá fica este vídeo...foi o que se arranjou...
Sendo um dos mais fortes poemas do Jorge, não deixo de dar sempre por mim a pensar que reflecte apenas pequenos fragmentos de uma vida, estado de espírito e que passado algum tempo o lema volta sempre a ser " enquanto houver ventos e mar". Enquanto assim for, menos mal!

domingo, 23 de novembro de 2008

The Smashing Pumpkins - Disarm



E lá vai mais um fim de semana perfeitamente inútil sem nada para escrever, cá continua a onda revivalista...

quinta-feira, 20 de novembro de 2008

Beach House - Heart of Chambers



E foi mais um bom concerto no Passos Manuel!

domingo, 16 de novembro de 2008

Um Mundo Catita



Hoje chega à RTP2, pelas 23h50, o alucinado mundo de Manuel João Vieira. Série da sua autoria e realizada pelo pianista jazz e realizador de cinema Filipe Melo...promete...a ver vamos!

"UM MUNDO CATITA é uma série de seis episódios inspirada no mundo e nas personagens inventadas por Manuel João Vieira, mas também nos grandes sucessos dos últimos anos da HBO americana.
Não é exagero dizer-se que nunca se fez nada assim em Portugal: ao contrário do que é habitual com os programas de humoristas, esta série não apresenta gags ou quadros sucessivos, mas, ao longo dos seus seis episódios, UM MUNDO CATITA conta uma história. A história de um cantor boémio e falido (protagonizado por Manuel João Vieira) que se apaixona pela sua bela dentista, que por sua vez está noiva de um jovem executivo bem sucedido. São as venturas e desventuras deste intrépido apaixonado que seguiremos ao longo dos episódios de UM MUNDO CATITA. Com um excelente nível de produção e bastante… picante, UM MUNDO CATITA explora um tipo de humor que se oferece a dois níveis de leitura – o burlesco e o non-sense."

A partir do personagem criado por Manuel João Vieira para o grupo Irmãos Catita, mas também inspirada nas lições colhidas de séries como "Seinfeld", “Oz”, “Os Sopranos”, “Sete Palmos”, “Deadwood” e “Curb Your Enthusiasm”, entre muitas outras, UM MUNDO CATITA é um caso inédito da ficção em Portugal."

in RTP

quinta-feira, 13 de novembro de 2008

Morcheeba - Trigger Hippie



E já passaram uns anitos...bons velhos tempos do trip-hop de Morcheeba com a insubstituível Skye Edwards.

quarta-feira, 12 de novembro de 2008

domingo, 9 de novembro de 2008

Fim da Terra



(autor não identificado)

sábado, 8 de novembro de 2008

Tom Waits - The Hearth of Saturday Night

E como é precisamente sábado à noite...

quinta-feira, 6 de novembro de 2008

Nouvelle Vague - Blue Monday

Em solidariedade para quem não conseguiu bilhete para o concerto no Teatro Sá da Bandeira no próximo sábado, fica esta performance ao vivo.

terça-feira, 4 de novembro de 2008

domingo, 2 de novembro de 2008

Cat Power - Remember Me



Ora eu que já tinha visto Cat Power, que conheço bemzinho os seus discos, nunca tinha visto este vídeo lindo...do melhor que me chegou nos últimos tempos.

Rua José Falcão

A segunda vida da rua que se tornou num novo centro cosmopolita do Porto

O Café Lusitano chegou primeiro e, atrás dele, vieram outros empreendedores que descobriram o potencial de uma artéria que era quase só visitada pelos clientes das livrarias.

Muita coisa mudou na Rua de José Falcão, nos últimos anos. Por exemplo, Rogério, o acordeonista cego que animava a artéria quase diariamente, faleceu no ano passado. Quisemos saber mais: na estação de camionagem, a poucos passos de onde ganhava a vida, disseram-nos que andava na casa dos 60 anos e que tocava naquela rua há mais de 30, mesmo morando longe, perto de Vila do Conde. Depois, a conversa com o funcionário foi azedando: "Está aqui no nosso horário de trabalho, sem se identificar, a tirar dados...".
Interpelamos uma das poucas moradoras da rua, que apenas confirmou que a família afixou um cartaz na esquina onde tocava, a confirmar o falecimento, a 1 de Maio de 2007. Mas também não foi possível saber o nome desta fonte: "Isso não interessa nada".
Com esta introdução, pode parecer que a Rua de José Falcão é um segredo de Estado, mas a verdade é que ela está cada vez mais popular. O marco fundamental foi a abertura do Café Lusitano (a 4 de Fevereiro de 2005), que se tornou rapidamente num dos locais predilectos para o início da noite portuense, atraindo um público cosmopolita, dos 25 aos 55 anos. Hoje, em plena explosão do regresso da noite à Baixa, o Lusitano já tem a companhia do Armazém do Chá. Esta agitação convive lado a lado com uma indústria mais tradicional, a livreira. Nos pouco mais de 200 metros desta rua, há razões para acreditar que algo de bom está a acontecer no Porto.
Pode parecer um conto de fadas, mas atrás de cada porta descobrimos algo de criativo. Por exemplo, no número 199: o edifício de aspecto neo-árabe, revestido a azulejos e que muitos na cidade já davam por perdido, é há cerca de oito meses a sede de uma empresa de têxteis, a Fortiustex, que trabalha para a gama alta de mercado. "Precisávamos de um edifício que espelhasse dinâmica, criatividade, inovação", explica o dinamarquês Lars Eckardt, director-geral da empresa. No interior, tentou-se preservar ao máximo os materiais originais deste antigo armazém-mostruário da Fábrica de Cerâmica das Devesas, datado de cerca de 1890. O espaço não está aberto ao público, mas vale a pena observar a fachada, pensada para exibir a superioridade técnica da fábrica. E este não é caso único: do lado oposto da rua, a antiga sede da Associação de Futebol do Porto deu lugar à imobiliária Paçogeste, que recuperou o imóvel e que cede algumas salas a exposições da galeria Parábola, que se concentra nos novos valores. No piso térreo, está a loja do estilista setubalense Luís Buchinho. Nas traseiras, funciona o seu atelier, há cerca de um ano. Quase em frente, um grupo francês investe na reabilitação das antigas instalações da Associação Cristã da Mocidade, onde se vai instalar a Atelier des Créateurs, uma alfaiataria dedicada à gama média-alta e que vai alimentar lojas em Paris, contou ao PÚBLICO o administrador delegado, Ricardo Conceição.
A noite começa aqui
Poder-se-ia dizer que a Rua de José Falcão brilha mais à noite, se não fossem as queixas dos comerciantes sobre a falta de iluminação (e de limpeza). Os problemas começaram depois das obras na vizinha Rua de Ceuta, já concluídas: "A luz é a dos reclames do Banco Espírito Santo, do Lusitano e a nossa", queixa-se Sérgio Ribeiro, um dos proprietários do Armazém do Chá (juntamente com Rui Miguel Silva, conhecido por DJ Tilinhos). Inaugurado em Abril, é mais um farol do novo circuito de bares portuense: do primeiro andar, pode-se espreitar a rua e beber um copo de vinho ou um chá, acompanhado de umas bolachinhas.
Entre o Lusitano e o Armazém do Chá, encontram-se algumas semelhanças, a começar pelo passado dos respectivos espaços: o primeiro era uma venda de moagens (da qual se conserva parte do que é agora o balcão); no segundo, empacotava-se chá. No presente, aos fins-de-semana, ambos têm gente à porta e dão azo a um pé de dança. Porém, os dois espaços diferem no público nocturno alvo, mais velho no Lusitano, que tem a marca gay friendly. O bar de João Madureira, decorador de interiores, e de Mário Carvalho, proprietário da discoteca Indústria, também tem uma decoração mais clássica e acolhedora, mesclando objectos de influência oriental com outros dos séculos XVII ou XVIII. O Armazém do Chá aposta mais nos eventos (jam sessions e concertos ao vivo), enquanto o Lusitano opta por um registo musical relativamente conservador.
Durante o dia, vale a pena passar os olhos pelas estantes das livrarias Leitura, de âmbito generalista, e Britânica. Esta última até pondera abrir fora de horas, para aproveitar o movimento nocturno, e já tem um pequeno recanto em jeito de galeria de arte. Em Dezembro, à entrada do Centro Comercial Lumière, abriu a Era Uma Vez..., dedicada à literatura infanto-
-juvenil. E, voltando à noite, há ainda a referir que deve surgir na rua um novo bar, nos próximos meses. "Acho que já nem há mais espaços para alugar", conta Sérgio Ribeiro. Ao que parece, há mesmo algo a acontecer por aqui.

Artigo de João Pedro Barros, in Público

sábado, 1 de novembro de 2008

Ciclo de Cinema no Passos Manuel

De 4 a 7 de Novembro o Passos Manuel associa-se ao Seminário Internacional de Arquitectura Berlim: Reconstrução Crítica.

4 NOV 08 21h30


BERLIM, SINFONIA DE UMA GRANDE CIDADE


Walter Ruttmann, 1927


Analisado por Nuno Portas





5 NOV 08 21h30


GERMANIA, ANNO ZERO


Roberto Rosselini, 1947


Analisado por Abílio Hernandez Cardoso





6 NOV 08 21h30


ASAS DO DESEJO


Wim Wenders, 1987


Analisado por Pedro Barreto





7 NOV 08 21h30


BERLIN BABYLON


Hubertus Siegert, 2001


Analisado por Hubertus Siegert

O programa completo pode ser consultado aqui.